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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

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25.03.15

O exílio disfarçado de madrugada, alguns papeis, livros poucos, um retracto do meu avô e… e nada mais do que isso, Margarida chorava com a minha partida, eu, finalmente em liberdade,


Os panos,


Os cortinados envernizados de saudade


Pai, regressaste?


Não, filho!


A morte não tem regresso, os cortinados envernizados de saudade, a manhã despedia-se do paquete que me transportaria


Para o inferno,


Que me transportaria para o infinito beijo do capim, sonhava com lobos, coelhos e cobras


Cobras?


Serpentes engasgadas pela ventilação mecânica dos fósforos sem memória, esquecem-se dos cigarros sobre a lápide, a fotografia, e


Não, filho!


Para o inferno…


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Março de 2015

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21.03.15

O meu melhor amigo, morreu


Maldita guerra, terra... nada, para nada, recordo o sorriso dele, em criança brincávamos junto ao mar, desenhávamos barcos nas paredes do sono, sentados, pintávamos beijos no térreo chão com odor a desejo, Margarida


Farta das cartas, meu amor, amo-te, ando no mato e percebo que a tua sombra me acompanha, sinto os teus doces lábios no cano da minha G#. bê lá, meu amor,


Margarida, desenho no cano da minha espingarda... Amo-te...


O meu melhor amigo, a criança de sorriso encarnado que todas as tardes voava sobre os nossos cabelos de espuma...


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha - Alijó


Domingo, 22 de Março de 2015

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20.03.15

Não, não amanhã, amanhã vou à cidade, deixar o meu cadáver para ser enviado para a Metrópole, uma ardósia no peito, 123768979/66,


Só isso, pai?


Só isso, quando chegamos,nada tínhamos, apenas um caixote de nada, um rio nas veias... e tu


O mar, pai?


Morreu, disseram-me..., não percebi, morte!!!!!


O que é a morte, pai?


Voar, 123768979/66... em combate, o silêncio do Grafanil, os sorrisos das mangueiras nos meus lábios,


E...


Pai?


Sim, filho, Margarida reaparece da escuridão, tinha como hábito brincar na areia branca da praia dos sonhos,


Mãe, o pai?


Ficção, tudo isto, nada, a dor, acordava de madrugada a gritar por granadas, G3 e literatura, literatura, mãe?


Poesia, textos, trazia na algibeira da farda...


Farda, mãe?


Poesia, textos, trazia na algibeira da farda... toda a sua estória, as canções de menino, os primeiros beijos,


Margarida?


Sim António...


Viste os meus livros de “AL Berto”?


Talvez no chão, a carta, o sorteio


Três milhões de mortos,


Mortos?


Não, mortos não, Euros


Três milhões de Euros, meu filho?


Sim, mãe, sim...


 


 


(Ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Março de 2015


19.07.14

Sábado,


a metralhadora do silêncio começa a disparar,


uma mulher vestida de negro, caminha vagarosamente para o altar,


alguém a espera, alguém a ama, e só alguém a pode desejar,


sábado,


hoje não há palavras de escrever,


hoje só uma ténue lâmina de sémen suspensa na janela da cidade com chaminés de vidro,


ela dispara, ela mata... e depois, depois cessa... depois... depois abraça-se às feridas que choram,


hoje, sábado, a metralhadora do silêncio começa a disparar...


a tarde escoa-se através de uma conduta de beijos, e há os cabelos da noite enrolados no vento,


a mulher leva um livro na mão, uma bala que lhe dita o futuro não existente,


ela deita-se sobre a lápide da solidão, e espera, e espera...


 


Espera que um coração de papel acorde da ressaca de sexta-feira,


 


Sábado,


um dia invisível,


chuvoso,


a cidade com chaminés de vidro, arde,


e sente,


os estilhaços no corpo de uma criança,


 


ASSASSINOS!


 


Sábado prometido,


hoje, hoje, hoje o que posso eu dizer...


que invento mulheres vestidas de negro?


que há metralhadoras apontadas ao meu peito?


Sábado...


ASSASSINOS!


 


Os meninos,


brincam no centro do furacão,


os calções fendidos, os calções de chocolate baloiçando nas pernas íngremes da madrugada,


e sábado..., e sábado os ASSASSINOS...


saciam-se à volta de uma mesa redonda, recheada de comida,


e os meninos, morrem,


e os ASSASSINOS... e os ASSASSINOS escondem os sobejantes calções de chocolate,


e ninguém, e ninguém os consegue parar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 19 de Julho de 2014

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