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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.07.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Um pouco de silêncio não faz mal a ninguém, segredavas-me quando nos sentávamos sobre a pedra de xisto junto ao rio, e ficávamos, apenas sós, e olhávamos um para o outro, inventávamos desenhos, porque são mais belos que as palavras, e assim, apenas nós, permanecíamos um em frente ao outro, de olhos verdes para olhos castanhos, sem palavras, sem cortinados de fumo, sem geometria descritiva, que às vezes, poucas, utilizávamos para transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo, percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para o Porto..., e adormecíamos como duas crianças no colo da inocência, não percebi que chorasses, e sabia que a tua tristeza era real, estava viva dentro de ti, eras como uma seara de trigo suspensa no vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, a ninguém como éramos espelhos côncavos dos jardins de Belém, ouvíamos o assobio do rio em todos os finais de tarde, hoje, o mesmo silêncio, o mesmo decalque do último final de tarde, o cheiro do teu corpo que sobejou e permanece intacto nos arbustos perto do rio, e recordamos os sítios com sabor a ardósia da tarde, a nossa tarde


Choviam-nos sílabas recheadas com marinheiros embriagados, dizias que amavas todos os peixes, percebi por não ser eu um peixe... que não me amavas,


Tu és diferente,


Porquê, perguntava-te,


Respondias-me que adormecíamos como duas crianças no colo da inocência, não percebi que chorasses, e sabia que a tua tristeza era real, estava viva dentro de ti, eras como uma seara de trigo suspensa no vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, e corações enublados avançavam pelas trincheiras do desejo, gemias quando lias os poemas de AL Berto, como se estivesses a ser penetrada por um vulcão de pétalas pintadas de encarnado,


Eu que era diferente,


Porquê?


AL Berto, sorria-nos enquanto inventávamos posições sobre o colchão manchado de tinta permanente de uma velha caneta de sexo,


Havia em nós,


O quê?


Havia em nós sítios de areias brancas, palmeiras, ao longe, machimbombos rosnavam quando o avô Domingos com um cordel os puxava pelas ruas, depois chegava a casa, cansado, abraçava-me e tombava sobre a cama, como um sonâmbulo depois de passear-se pelos rochosos sexos de sal que era cuspido pelo mar do Mussulo até que uma criança, ele, em pequenas rotações, cambaleava e experimentava o estado de embriaguez de algumas plantas, flores, pedras...


Que às vezes, poucas, utilizávamos para transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo, percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para o Porto..., e adormecíamos nos braços da tarde, éramos loucos, diziam-nos..., loucos porque amávamos os corpos nus que dormiam dentro dce nós,


Porquê?


O quê? Gemias quando lias os poemas de AL Berto, como se estivesses a ser penetrada por um vulcão de pétalas pintadas de encarnado,


Eu que era diferente,


Porquê?


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



28.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Nada me apetece, nada me interessa, o sono chora dentro de mim como um rio encostado aos seios desnudos da montanha com corpo de socalco, uns míseros carris de aço contornam a barriga de pele lisa e perfumada, as videiras conversam com as mãos de xisto de homens e mulheres, alguns, filhos da montanha, herdaram-na dos avós, passaram a pertencer aos pais e dos filhos pertencerão, um dia, e se esse dia chegar, um comboio desgovernado roçará o sexo na água morna e serena do Douro antes do pôr-do-sol,


Nada me interessa, dizes tu, desiludido com as nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e sempre


O calendário


E sempre a olhar os dias preenchidos com pequenas cruzes, depois de terminarem, novas cruzes, novos círculos, até que a noite seja noite, até que o dia morra dentro da garganta do mar,


O calendário submete-se aos critérios do crocodilo com dentes de marfim, tão velho, tão velho que se perdeu na idade, tão velho que nem o próprio luar se recorda do seu nascimento, e sempre, sempre pronto a resmungar com as letras de caligrafia antiga que vivem nas fotografias do álbum que trouxemos de Angola, e tão velho, tão velho como as lágrimas do amor...


Nada me apetece, oiço o grito desesperado do finalmente só, oiço a alegria das tardes antes de terminarem, mesmo antes da menina Andreia acender todas as luzes do silêncio, a musicalidade, a poesia, o reviver de sonhos esquecidos num fita de dezasseis milímetros, imagens, vultos passeando-se junto a umas pedras de nome


Albertina, Joana e Joaquina,


Três lindas flores, três belas montanhas, encalhadas entre um rio louco e um par de carris envelhecidos, encurvados, às vezes chorando porque as dores são intensas, as dores do cansaço, as dores da desilusão, as dores da vida quando deixou de existir vida nesta terra, as dores da solidão, quando entre multidões


Estamos sós, diz-me ela antes de baixar o estore e desligar o interruptor dos queixumes, das dores quando as dores não são físicas, quando as dores são dores, inventadas pelas noites intermináveis, pelas noites doentes com dores não dores


Albertina, Joana e Joaquina,


Três meninas, três sonhos, três jardins com três lagos, e onde brincam... três patos,


Quando entre multidões os esqueletos vadios confundem-se com as dores de não dores, quando entre multidões os dentes de marfim dele, deixam de lhe pertencer, quando os pássaros que voam dentro da cidade, cai a noite e todos eles, sem excepção, entram casa adentro, poisam sobre os arbustos que vivem na sala de jantar, um dia, tão velho, que me esqueci dele no velho calendário, um dia pareceu-me ouvir-lhe algumas palavras, poucas, escrevia-as tal como as ouvi, e ainda hoje, depois de muitos anos, tão velho, coitado, pergunto-me


Porquê?


Albertina, Joana e Joaquina,


Três patos, três pontes, e três barcos, tão... tão velhos como o teu corpo de seda


Pergunto-me,


Tão velhos como o teu corpo de seda, tão velhos como nós, e se te perguntar – Quem somos nós? - percebes que não somos ninguém, percebes que não somos papel, percebes que não somos palavras, percebes que não somos dias, noites, desilusões ou sonhos, percebes...


Que não somos nada,


Pergunto-te


Porquê?


E


Albertina, Joana e Joaquina, tão velhas, também elas, tal como nós... não o sabem, ou não querem falar,


Porque ainda existem palmeiras no largo em paralelos graníticos do tempo em que sabíamos quem éramos, sonhos, percebes?


E


Albertina cerrou os olhos como o fizeram todas as pálpebras da cidade esquecida no centro da montanha,


“nada me interessa, dizes tu, desiludido com as nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e sempre


O calendário”,


No centro da montanha em púbis de cereja.


(e o calendário arde encostado à parede das tuas coxas de areia)





(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



16.01.13

Inventava-te histórias enquanto dormias dentro de uma agenda recheada de espaços vazios, passavam os dias, alimentavam-se as semanas das semanas hipoteticamente, também elas, vazias, sôfregas flores à espera da doce Primavera, doce


As horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua


Doce tua,


Inventava-te histórias


Não verdadeiras,


Histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente amadas pelas mãos dos homens que corriam a trás de ti, e tu, sabia-lo, tinhas consciência das cartas escritas sobre os velhos joelhos de rocha, que todas as noite, o mar embalava e atirava para as garras da saudade,


Não verdadeiras as histórias que me inventavas, todas as mentiras quando regressavas a casa, desculpas, reuniões, jantares com clientes, e de súbito abria-te a agenda, e percebia que


Vazia, histórias enquanto dormias,


Não verdadeiras doce tua,


E percebia que inventar-te também dava trabalho, muito, cansava-me com as sombras do teu corpo projectadas nas árvores pobres da cidade, o sono tombava-as e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, inventava-te histórias de açúcar, e um fio límpido de chuva descia pelo teu rosto, contornava o teu pescoço esguio e preguiçoso, e poisava-se nos teus ombros, descansava um pouco, continuava em andamento e em aspirais de pêssego rodopiava em círculos à volta dos teus seios que a areia do Mussulo esculpira na melancolia das tarde de Sábado, quando eu percebia que


Vazia, histórias enquanto dormias,


Não verdadeiras doce tua,


E percebia que inventar-te também dava trabalho, e que o fio límpido de chuva ia descendo teu corpo abaixo até esconder-se no púbis húmido das palmeiras que a Baía guardava como se fossem o maior tesouro de Luanda, e sentava-se


Sentava-me numa simples cadeira de pedra a olhar o mar nas suas histórias de amor que o açúcar desenhava nos corpos cobertos de espuma, havia pássaros com flores de papel no bico, havia parafusos de aço nas ligações do arco-íris e que faziam com que as cores andassem sempre de mão dada, havia


Não verdadeiras doce tua,


Havia barcos de esferovite com velhos motores de carrinhos a pilhas, havia alegria, vida, havia silêncios sem sabor a solidão, histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas


Havia a lua,


Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho, falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas


Nas horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua


Doce tua,


Inventava-te histórias


Não verdadeiras,


Histórias de crianças que nasceram em Luanda, histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros da paixão


(e confesso que detesto conversar e inventar histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e confesso, que detesto)


Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão


(e confesso)


Que detesto os lábios, a boca, os olhos


(e confesso)


Que todas as histórias que te inventei não verdadeiras, falsas, que detesto


(e confesso)


Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e entranhava-se no Douro, e chorei


(e confesso)


A primeira vez que vi socalcos.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


05.04.12

Desejo-me de barco em barco


De rocha em rocha


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


Onde me prende uma mesa de madeira


Sobre a mesa de madeira caldo de cebola


E trigo de Favaios


Desejo-me dentro do Porto


Vinho que dá vida


Que do porto nada tem


E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres


De rocha em rocha


De barco em barco


Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida


E dispo-me sobre a mesa de um bar


(já o fiz


E voltarei a fazê-lo)


Alguns de vós dizem


Coitadinho do louco


Que fumou de tudo um pouco


Coitadinho


Desempregado


Desamado


Desgraçadinho


Desejo-me sobre a copa de uma árvore


De rocha em rocha


De calhau em calhau


Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas


Que dançam sobre a mesa de um bar


Sem lareira sem literatura


Apenas um bar com muitas gajas


E um copo de silêncio sobre o balcão


Coitadinho


Do menino


Sem tino.


12.09.11

O Douro em socalcos


Quando acorda a manhã,


 


Descem as nuvens e poisam nas videiras,


E as vindimadeiras


Apressadas,


E as vindimadeiras


Cansadas,


 


O Douro em socalcos


Quando acorda a manhã,


 


Pássaros a voar


E as vindimadeiras a cantar


Cantigas de antigamente,


O rio em curvas direito ao mar,


E a vindimadeira do Douro contente,


 


Às vezes chega a casa e leva pancada,


O marido ausente


Com bebedeira e cabeça trastornada…


E a vindimadeira do Douro sente


 


Que não é amada


Nem acariciada,


O rio corre sem parar


E nos socalcos anda gente,


Gente que precisa de trabalhar.


30.08.11

Sabes, minha querida, ontem sonhei que nas paisagens silabadas do douro cresciam sorrisos e malmequeres, e em cada socalco um menino brincava, caía a chuva miudinha no outono amarrotado, e minha querida, o outono ainda nem acordou, e o outono ainda embrulhado nos lençóis dos equinócios, às voltas e às voltas, e a roda não se cansa de girar, e no doirado do céu as lágrimas de videiras solitárias abraçadas ao sol docemente adormecido,


 


O rio perde-se nas curvas e contracurvas das encostas,


 


E um rabelo abraçado à manhã que acabava de acordar, e dentro do meu sonho, e dentro do meu sonho as paisagens silabadas do douro, e eu, e eu minha querida, eu estava lá, encostado à enxada que descansava sobre o xisto húmido da manhã, doía-me as costas, doía-me os braços, Se estou doente?, não, não minha querida, refiro-me ao sonho de ontem,


 


- E eu pergunto-me porque escrevo sobre o douro e as paisagens do douro, Porquê?, e eu pergunto-me porque escrevo sobre o rio douro, Porquê?, e respondo-me Não sei, não sei e não sei…


E se eu soubesse não me perguntava,


E não tenho saudades desta terra, nenhumas, e não tenho saudades desta terra, nenhumas, Tenho saudades de Angola, de Lisboa, do Tejo e dos cacilheiros,


E arrependo-me, e arrependo-me de quando cheguei a Lisboa em Setembro de 1971 não ter fugido aos meus pais e ficar a vaguear pelas ruas, e ficar a vaguear pelos quelhos, e ficar a vaguear pelo rio, e hoje, hoje possivelmente já se tinham esquecido de mim, possivelmente,


 


E voltando ao sonho, minha querida, voltando ao sonho a enxada termina o seu descanso e agarra-se-me às mãos enrugadas pela dor de subir e descer socalcos, pesa muito, e um líquido vermelho escorre-me das mãos, neste momento não consigo explicar-te porque o sonho foi ontem, mas tenho a certeza que o líquido que se derramava era salgado,


 


- Possivelmente, possivelmente hoje tinham-me esquecido, mas não esquecem, mas nunca esqueceram, e tudo tinha sido tão fácil se me tivesse perdido deles, e bastava aliviar a minha mãozinha durante a confusão, e hoje, hoje possivelmente já me tinham esquecido, e não esqueceram, e nunca me vão esquecer, ou talvez, se eu nem tivesse embarcado, que feliz eu era se tivesse ficado esquecido no Porto de Luanda, e olhava o céu, e olhava o mar,


 


Não sei, minha querida, talvez seja sangue, mas não importa, sangue, água, ácido sulfúrico, não importa, e as minhas mãos choram, têm lágrimas, gemem durante a noite, quando os sonhos entram em mim e me puxam para o infinito, e nas paisagens silabadas do douro cresciam sorrisos e malmequeres, e em cada socalco um menino brincava, caía a chuva miudinha no outono amarrotado…


 


(texto de ficção)


23.08.11

Há os socalcos do Douro


E os socalcos da vida


Há a manhã a acordar


Dentro de um corpo em despedida


 


Numa mão a mendigar


Há os socalcos do Douro


Nos socalcos da vida


Uma rua sem saída


 


Uma videira a chorar…


Há os socalcos do Douro


E um rio que corre para o mar


Um vinho feito de ouro


 


Um vinho de encantar


Há os socalcos do Douro


E os socalcos da vida


Num rabelo a passear…

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