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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.10.22

As paredes acordavam em nós o silêncio em pequenas sombras de insónia e os cadáveres de prata dançavam sobre a fina camada de geada que habitava o pavimento lamacento do quarto onde dormiam barcos, guindastes e outra sucata; e depois de regressarem os transeuntes da madrugada, ouvia-se o apito de partida para mais uma corrida entre os parêntesis da manhã que brevemente saltitava de rua em rua, de beco em beco, até que do segundo-andar, da varanda sobre a esplanada, um homem agreste e rude, gritava sem que percebêssemos a razão.

Há sempre uma mão que nos empurra ravina abaixo, e quando damos conta, somos pedras em revolução contra a lei da gravidade, acreditava ele.

O que sonhaste, meu amor?

Coisas, nada em especial.

A chuva poisava sobre os cadáveres de prata e um miúdo acreditava que um dia podíamos subir à montanha mais alta sem que ninguém nos empurrasse, coitado do miúdo, coitado dele, porque mais tarde percebeu que era tudo uma questão de sonho; e entre sonhos, morreu de fome.

Coisas, pequenos desertos que habitam as nossas mãos, e do húmido húmus da saudade, sem que ninguém soubesse porque tombavam os homens e mulheres que puxavam aqueles barcos e guindastes, sucumbiu ao quinto dia de trabalho. Foi fatal, ouvia-se junto ao cais.

O corpo não se mexia, sobe ele, um pequeno lençol cobria as partes íntimas que a manhã tinha esquecido do outro lado da ponte, e porque o miúdo acreditava nos sonhos, cismou que um dia, se subisse à torre de Belém e se se atirasse bem lá do alto, com sorte e com vento, poisaria do outro lado do Tejo. O vento esmoreceu e quando se deu conta já estava a meio da Calçada da Ajuda; partiu os cornos contra o muro de Lanceiros 2, e certamente não tinha sido o primeiro.

Coisas, nada em especial.

O que sonhaste, meu amor?

Com quatro pães saloios, dois chouriços, uma linguiça, um jarro de cerveja e um pequeno baralho de cartas, matava a fome a cinco gandulos que todas as noites apareciam para conversar, fumar cigarros de erva e encontrar a explicação porque um dos cadáveres de prata se ter atirado da Torre de Belém e aterrar na Calçada da Ajuda; mais tarde viemos a saber que os serviços do Exército o tinham notificado para pagar todas as despesas do maldito muro amarelo.

Olhou o papel que lhe tinham entregado depois da formatura das oito e cinquenta, e mentalmente deu-se conta que nunca teria os vinte contos que pretendiam para os respectivos arranjos do dito muro.

Podíamos ir a Cais do Sodré, líamos uns poemas e juntávamos uns trocos, dizia um dos cadáveres de prata.

Podíamos vender alguns dos livros, que dizem?

Também podíamos vender algumas das peças de roupa que não usamos, que tal?

Foda-se; sois todos loucos.

A sério, podíamos levar algumas das peças de roupa que não usamos e vendê-las na feira da Ladra…

Fizemos de tudo um pouco, mas apenas juntamos cerca de cinco contos; não chegava nem de perto nem de longe para a reparação do muro, mas sempre dava para bebermos uns copos na noite de Lisboa.

Éramos cinco cadáveres de prata, trazíamos no peito todos os sonhos do mundo, mas brevemente percebemos que tal como o miúdo, os sonhos são apenas sonhos; sonhos de miúdos.

Coisas, nada em especial.

E trocávamos um jerricã de gasóleo, uma grade de fruta e uma caixa de manteiga pela liberdade nocturna que durante a semana tínhamos e que nos permitia subir à Torre de Belém e voarmos até à outra margem, depois de aterrarmos, víamos uma Lisboa adormecida e mergulhada na lentidão das estrelas de papel.

Estes gajos são esquisitos, ouvíamos.

Pudera, voávamos sobre a cidade…

Sonhaste com quê, minha querida?

Sonhei que cinco cadáveres de prata voavam sobre a cidade, vê lá, se isto é possível!

Não sei, não sei…

São apenas sonhos.

As paredes acordavam em nós o silêncio em pequenas sombras de insónia e os cadáveres de prata dançavam sobre a fina camada de geada que habitava o pavimento lamacento do quarto onde dormiam barcos, guindastes e outra sucata; e depois ouviram-se as lágrimas dos cinco cadáveres que salpicavam de pequenas gotículas a Calçada da Ajuda.

São apenas sonhos.

Não sei, não sei…

O miúdo que o diga!

 

 

 

Alijó, 20/10/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


17.10.22

Este longínquo silêncio a que chamam de mar e que poucos o olham enquanto este dorme dentro de um pequeno livro de poesia, o mar está revoltado (as palavras fluem e o poema cresce como crescem as algas dos teus cabelos), ouve-o e deita-te sobre ele, veneno da madrugada que aos poucos semeia nos teus lábios o beijo,

E nos lábios da maré habitam as primeiras nuvens da manhã, dos tristes barcos que brincam nos cadernos quadriculados da noite, e como sabes, nem todas as estrelas são em papel, e como sabes, nem todas as estrelas são estrelas,

E todos os beijos, são beijos?

Nem todos os beijos são beijos, nem todas as estrelas são em papel, mas o longínquo mar sabe que dos teus olhos saem todas as madrugadas as palavras que o poema ao longo do dia vai mastigando, depois a fome

Das palavras?

Do vento que transporta as palavras.

Um dia este mar há-de morrer. Deus queira que sim; oiço os apitos dos petroleiros que pé ante pé, um passo para a direita, outro, agora para a esquerda, masturbam-se na esplanada de um bar, o velho desenha shots de uísque na âncora tarde de Cais do Sodré, e sempre que chovia, uma puta de cigarro na mão suplicava por lume, que depois de cigarro aceso, em frente ao comboio para Belém, destroçava,

E sabíamos que o jantar era peixe no forno porque depois de sentados em volta da quadriculada mesa, nunca mais voltávamos a Belém, portanto, a última Ceia, peixe no forno com linguiça, batata assada, sumo de laranja e pão saloio,

Um cigarro de intervalo, da algibeira os tristes gemidos das ratazanas que sabíamos que habitavam dentro dos muros amarelos, mas que nunca tinham sido observadas, apenas sabíamos porque diziam que ouviram dizer…

Ontem, viste-as?

Às palavras?

Nas janelas as laranjas que sobejaram do desejo, e nas laranjas tínhamos sempre o maldito mar revoltado (as palavras fluem e o poema cresce como crescem as algas dos teus cabelos),

Viste-as?

Viste-os?

O perfume, tínhamos o perfume que um deles tinha palmado a um qualquer gajo na feiro do relógio,

Fotografia, amor?

Livro, moço, compre-me este livro…

Que raio, nunca tive sorte com as laranjas, e, no entanto, o perfume recordava-me uma sombra que deixei há muito tempo dentro de um pequena caixa de sapatos,

Ontem ou hoje?

Amanhã, amanhã o sol brilhará,

E a lua, meu amor?

Um barco que se afunda, um marinheiro que morre enquanto fuma o cachimbo e da corda suspensa no machimbombo, uma pequena lâmina de luz é lançada contra o pôr-do-sol, escrevem-me cartas

Pedaços de um livro.

Somos nuvens, somos sombras que cambaleiam na parada do inferno, o sol fazia com que o alcatrão se revoltasse contra nós e depois das chuvas, regressavam as laranjas que outrora tinham sido esquecidas numa qualquer janela de um qualquer sótão,

Suspenso nas frestas da paixão,

Um velho crucifixo que nos olhava.

Olhas-me porquê?

Enquanto o dia ainda não cresceu dentro de ti,

Somos,

E ontem tínhamos o vento que transporta as palavras; hoje só temos as fotografias das laranjas que alguém deixou ficar nas vidraças da noite,

No entanto,

O amor inventa nos teus olhos os poemas das estrelas de papel, e ontem tínhamos o vento, mas hoje, hoje temos este longínquo silêncio a que chamam de mar e que poucos o olham enquanto este dorme dentro de um pequeno livro de poesia…

 

 

Alijó, 17/10/2022

Francisco Luís Fontinha


28.06.17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,


Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,


Palavras soltas,


Palavras mortas,


Vivas palavras rompendo a madrugada,


Sem nada,


O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,


Escrevo no chão,


Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,


Vomito poesia sobre a janela envidraçada,


E imagino a louca Calçada…


Ajuda, não ajuda,


O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,


O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,


E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,


Uma tragédia, meu amor,


A casa,


Desocupada e infestada,


De livros,


Quadros,


Esqueletos…


E restos de ossos,


Poeira,


Alvorada fora até ao nascer do Sol,


Bebedeira, o esqueleto cambaleia…


Saltita,


E volta a adormecer no meu peito,


Nada me resta,


Nada tenho para te oferecer, meu amor,


A não ser, a não ser… algumas velhas flores,


Pedres,


Envelhecidas como nós.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Junho de 2017


29.11.15

Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


Sento-me e espero o regresso do teu olhar


Que vem do outro lado do Oceano


Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados


Trazes-me a voz e o desejo


E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim


Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade


Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados


Espera-te junto a um portão imaginário


Entras


Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face


 


Não tenhas medo do mar


Nem dos barcos invisíveis


Não tenhas medo das árvores


Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras


Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria


Depois vais conhecer o amor


E a paixão de amar


E a solidão do amanhecer


Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…


Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


31.10.15

Tive um amigo que morreu de silêncio,


Paz à sua alma,


Tive um amigo que se cansou da melancolia dos dias, das noites, das noites sem noites depois das noites, vivia acorrentado a uma árvore, eu, acreditava na inocência dos seus lábios, encardidos pelo temporal, desgastos pela insignificante margem do rio onde brincavam gaivotas e marinheiros, e sucata de mim


Ontem fui a um bar em Cais do Sodré, sentei-me, viajei até mil novecentos e oitenta e sete, era dia, corríamos embriagados em direcção ao medo, havia conquilhas e cerveja à mistura, como sempre, este amigo, embriagado pelas minhas palavras,


Amo-te, dizia ele, quando percebia que a escuridão se entranhava nos meus ossos de veludo, que eu, semeado na seara do vento, tinha medo, sentia a solidão sobre o meu peito, havia noites de tortura, havia noites de desequilíbrio mental, a loucura, o Tejo no meu quintal,


E sucata de mim,


Que boiava nos teus cabelos, meu amor, e sucata de mim espalhada pelos sítios mais incógnitos da nossa casa, um palheiro, simples, e felizes, assim,


Acorrentado, tu, meu amor, nesta cidade de Cais sem destino, de barcos sem comandantes, ou cordas de nylon invisíveis, e mesmo assim, recordo-te, amar-te talvez, um dia, amanhã, depois de amanhã… ou ligo, talvez, talvez meu amor,


No meu quintal,


Uma sanduiche de sódio baloiçava nas minhas veias, sentia a morte, o fim, a despedida, não faz mal, meu amor, amanhã, talvez, no meu quintal, eu, em Cais do Sodré, abraçado a ti, sem ninguém, amanhã


Tive um amigo que morreu de silêncio, frequentava a minha poesia, uns dias aparecia outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro,


Se tu me amas, se tu, se tu me recordas como recordas as tristes alvoradas em frente ao Tejo,


Outros, e mais outros, não sabiam que o amor é um cubo de chocolate, só, triste e só, como eu


Tejo?


Outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro, um comboio em aço desgovernado subindo a Calçada da Ajuda, e


Ajuda nenhuma, sempre só, meu amor, sempre, sempre só nos teus braços, nos teus fantasmas, nas tuas coxas de silício mergulhadas na corrente eléctrica do sofrimento, Tejo?


Talvez, meu amor, talvez…


Tive um amigo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Outubro de 2015


24.06.15

Dançavas-me entre sombras de prata


E nuvens de silêncio,


Snifávamos o sorriso do rio,


Fumávamos os barcos aportados num qualquer coração sem alma,


E éramos felizes,


Como são felizes todas as marés curvilíneas da saudade,


Como éramos felizes embrulhados no fumo do “Texas”… meia-noite em ti,


Uma da manhã em mim,


Bebíamos todas as palavras poisadas em cada mesa,


Amávamos todos os abutres da noite


Que deambulavam sobre nós,


Dançavas-me…


E nuvens de silêncio,


E beijos,


Líamos e inventávamos círculos de papel,


Escrevíamos em todos os corpos dos corpos sem corpos.,


E não sabia que existiam beijos de esperança


E cabelos de infância,


À nossa volta,


Gajas,


Gajos como nós,


Voando em direcção ao mar,


Desenhávamos o abraço numa qualquer lápide,


Uma fotografia tua…


Olhos verdes,


Olhos castanhos,


Olhos… olhos enfeitados de naftalina,


Dançavas-me,


E eu não sabia que o amor se escrevia na margem esquerda do teu peito,


Ouvia-o…


O teu coração de pedra,


Ouvia-as…


As tuas coxas suspensas na mão de um qualquer gajo,


Como nós,


Gajos como nós,


E gajas,


E gajas como tu…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 24 de Junho de 2015


30.04.15

O significado da paixão


De todas as noites



Encerrado entre cinco paredes


Um pavimento


E tecto


Aluga-se


Meu amor


Barato


Farto das palavras


E do sindicato


Todos os Domingos


Feriados…


E… Domingos


Lembro-me de ti


Meu amor


Da carroça de bois


Penhorada ao silêncio


Das ervas


E


Dos cheiros


A morte alimenta-me


Sinto-a perto de mim


Como sentia o cheiro a “puta”


Quando…


Lisboa


Cais do Sodré


Fome


Não fome


E literatura


Farto-me


De ti


De mim


E deles


O significado da paixão


Pintado na parede da solidão


As palavras reduzias ao pó da insónia


Cresce


A


Noite


Em ti


Meu amor


Das palavras


E palavras


Limitada


Angola à vista


Apenas no mapa da infância


Meu amor


As sílabas apaixonadas do teu corpo


No meu corpo


O inferno


A chuva


Outra vez…


A paixão


O ódio das tristes tardes no jardim


Outra vez o jardim


E o beijo


Outra vez a vida


E o desejo


Em ti


Das minhas tristes palavras…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Abril de 2015

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