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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.11.15

Tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, alguns caixotes desaromados, alguma roupa e um sonho, acreditávamos no amanhecer junto à geada, a esfera do caos esbranquiçada poisada na nossa mão, eu era uma criança mimada, filho único, Africano de nascença, apátrida e desapontado pelas raízes do poder, tinha medo, meu pai, tinha medo da tua terra…


E sem o perceber


Assim temos mais prazer, penso nos teus seios, imagino os teus broches literários sobre a velha secretária em madeira, gemes, ouvem-se os gonzos da solidão salitrarem sobre a cancela da noite,


E que noite, meu amor, e que noite,


E sem o perceber acordei junto a um dos caixotes, sentia o vento do mar a entranhar-se nos meus frágeis ossos, chorava, gritava… nem um mabeco em meu auxílio,


E sem o perceber, tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, e soníferos beijos, lembras-te, meu amor, o cheiro intenso da madeira envelhecida e triste, os pregos enferrujados de tédio, e algumas frestas de solidão, ninguém, ninguém imagina este concerto de sons melódicos e metálicos do sofrimento, a morte, a ressurreição e a alvorada,


A tristeza de não saber quem és…


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 23 de Novembro de 2015


19.11.15

Tenho medo dos tentáculos teus beijos


Quando demora a regressar o entardecer


Quando cai a chuva sobre o teu corpo


Tenho medo do teu silêncio nas palavras de esquecer


Quando a madrugada existe apenas para nos atormentar


Enrolas-te em mim


Finges que lês as minhas mãos


E voas em direcção ao mar


Fico só


Nesta escuridão de amar


Fico só


Neste esconderijo sonolento


Abraçado às abelhas do amanhecer


Fico só


E tenho medo


Dos tentáculos teus beijos


Que só a morte consegue perceber…


E o desejo desenhar no pavimento térreo da solidão


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quinta-feira, 19 de Novembro de 2015


24.10.15

Tenho no peito o cansaço da manhã ensanguentada,


Semeio as palavras como se elas fossem sementes,


Cubro-as para as proteger da geada,


Falo-lhes, acaricio-lhes o cabelo com desenhos de serpentes…


Sento-me, e espero que acorde a madrugada,


Amanhã crescerão e nascerá um louco livro de poemas,


O meu livro, o meu filho, a minha alegria,


Fumo-as enquanto crescem,


Fumo-as enquanto ejaculam a triste poesia,


Ai… ai como eu queria…


Abraça-las como se fosse o amor da minha tarde junto ao rio,


E só de pensar que elas me esquecem,


Como me esqueceram todas as palavras que semeei…


Desenhei nos teus lábios,


Cantei nos teus beijos,


Entre gemidos e desejos,


Entre silêncios e sábios…


E perplexos adágios.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 24 de Outubro de 2015


09.10.15

Querer-te não te quero


Querendo, assim, querer-te sem saber se te quero,


Querer… dormir nos teus braços,


Não querendo,


Querer…


Sonhar nas tuas mãos,


Querer-te não te quero


Querendo


Querer-te,


Assim… triste como a noite,


Desejando querer-te


Querer… beijar os teus lábios querendo,


 


Sem tempo,


Sem crença…


De querer-te,


 


Querer-te não te quero


Querendo, fingir que te amo não te amando,


Querendo,


Não o quero…


Querer-te


Querer-te brincando,


 


Neste submerso cansaço da paixão,


O querer e não o querer,


O amar e não o ser amado,


Querendo,


Querer…


Querer-te amando,


Amar,


Sem saber que o amor é querendo,


 


Sem saber que o amor é querer-te,


Hoje,


Ontem não, ontem não querendo,


Querer-te beijando,


O querer,


O não o querer,


Sem sono,


Sem o saber,


Que querer…


É querer sem o saber,


E o quero-te…


É uma carta por ler.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 9 de Outubro de 2015


17.09.15

Há um pincel de tristeza, meu amor, no teu sorriso embalsamado na cinzenta neblina do amanhecer,


Há no teu corpo um jardim, meu amor, recheado de beleza, e é lá onde se escondem todos os pássaros filhos da noite,


Meu amor, há nos teus seios a Primavera acabada de nascer,


Tão linda, tão bela, meu amor… tão gentil como estas palavras que tento escrever,


Mas não o consigo fazer… não existem palavras, meu amor, como o luar poisado nos teus ombros enquanto a pianista inventa para nós sons melódicos, poesia travestida de música, meu amor, e começas a dançar na penumbra biblioteca dos fantasmas envelhecidos,


Há um pincel de tristeza…


Meu amor,


Que entranha os teus lábios na solidão


E me aprisiona ao teu coração…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015


14.09.15

Oiço a madrasta voz da clarabóia em flor,


Sento-me sobre o fio da saudade,


Sinto-te nos meus braços… em cúbicas madrugadas,


Imagino os teus beijos flutuando na cidade,


Sinto nos meus braços o cansaço do amor


E a equação da liberdade,


Amanhã não haverá barcos enforcados,


Amanhã não haverá marés amordaçadas…


Oiço a madrasta voz da clarabóia em flor…


Entranhada nos poemas degolados


Pela caligrafia invisível do silêncio amanhecer,


Apaixonada?


Não… não há paixão neste corpo a arder


Nem fogueira neste peito desolado,


Amanhã haverá um esqueleto prensado,


Amanhã haverá uma mão no teu rosto espelhado…


Com medo de sofrer,


Com medo de partir para a longínqua noite das palavras por escrever.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 14 de Setembro de 2015


06.09.15

E se o mar me levasse para o seu imaginário mais secreto…!


O dia transforma-se em noite,


O vento veste-se de chuva,


Fina, miudinha…


Frágil o olhar da serpente envenenada pela paixão,


O luar morre nas mãos de uma andorinha,


Dá-lhe beijos na face mais longínqua do Universo,


Cansa-se e deita-se sobre o meu corpo em travestido xisto,


Não sei se quero,


Ou se existo nos teus lábios de madrugada lapidada,


E se o mar me levasse…


E se o mar me levasse na tua jangada…!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 6 de Setembro de 2015


29.08.15

desenho_30_08_2015.jpg


(desenho Francisco Luís Fontinha – Agosto/2015)


 


Deixou de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,


Deixaram de escrever as palavras do vento estas mãos esfarrapadas,


Longínquas do olhar da madrugada,


O medo alicerça-se ao peito, as facas do silêncio grunham como as serpentes envenenadas pela noite,


O tédio quando esqueço a solidão e construo círculos de luz nos teus seios…


O teu corpo desabitado, encurralado nas cordas de nylon dos Oceanos mendigados,


E não consigo perceber o amor das flores desenhadas nos teus lábios perfumados,


Como nunca percebi o desejo em mim do estranho luar…


E este mar, meu amor,


Crucificado nas espingardas do coração abandonado,


Semeado nas searas do cansaço…


É triste, meu amor…


Deixar de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,


É triste, meu amor…


Cair sobre mim o tecto do sofrimento junto ao Tejo,


E os Cacilheiros na minha boca… sufocando-me com o relógio enforcado nas pontes do Cacimbo fugindo do pôr-do-sol…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Agosto de 2015


 


20.08.15

Não há drageia


Nem poesia que me valha,


Entrelaçávamos as mãos nos infinitos Oceanos de luz,


Caminhávamos como crianças sobre as pedras invisíveis da carícia,


E tu olhavas-me quando eu ficava transparente,


Simples,


E ausente,


Voava abraçado às gaivotas,


Fotografava com o meu olhar os barcos de papel


Em velozes corridas contra o vento,


Um dia, despareci da tua sombra…


Subi os degraus do desejo,


Alicercei-me às tuas coxas salgadas…


E sentia os teus ossos na margem do rio onde nos sentávamos,


Tive medo,


Porque descia a noite sobre os nossos ombros,


E quando acordava a noite…


Ficávamos agachados junto aos beijos hipnotizados,


Dormíamos,


Dançávamos à janela com retractos para o Tejo,


A ténue velhice levava-nos para as ilhas rochosas da solidão,


Hoje…


Pareço um pedaço de aço


Esquecido numa qualquer sucata,


E espero,


E espero o regresso do forno…


E novamente serei um esqueleto nas mãos dos infinitos Oceanos de luz,


E espero… espero pela tua mão iluminada.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 20 de Agosto de 2015


18.08.15

Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos imaginários,


Venderam os ossos à escuridão


Trocaram a alegria pela tristeza…


E parecem tão felizes como eu,


Desenho-os na minha mão


Enquanto lá fora


Lágrimas em papel caiem sobre a calçada íngreme da solidão,


Sofro


E tenho medo da paixão,


Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos encalhados na fina insónia do corpo,


Saberei porque durmo nesta cama de água salgada…


Saberei porque vivo nesta roldana enferrujada pelas nuvens da manhã,


Ao acordar,


Não estás,


Pertences aos ventos do Tejo…


Entre um beijo de despedida


E petroleiros acorrentados aos jardins de Belém,


Voltarei


Um dia


E este porto…



Sem ninguém,


Voltarei


Um dia


Sem saber o significado de regressar aos teus braços,


Esqueci o odor do teu perfume,


Esqueci a fúria do teu ciúme…


E esqueci a janela do teu olhar


Diluída numa folha amarrotada pelas montanhas da saudade…


Voltarei


Um dia


A este porto de náufragos...


Sem remetente,


Ausente de ti.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 18 de Agosto de 2015

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