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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.12.23

Esta terra tem muitos crocodilos

Esta sanzala tem muitos crocodilos

Uns parecem pássaros vestidos de sacerdote

Outros nada parecem

Comem

Que é um fartote

Outros têm asas

Voam

Têm debaixo das patas um sistema de propulsão

Tipo foguetão

Mas ao contrário

Quando alguém esconde no armário sangue de segunda-feira passada

 

Dito isto

Esta terra tem muitos mabecos

Esta pobre sanzala está infestada de mabecos

De macacos vestidos de mabecos

E mabecos

Disfarçados de crocodilo

Ao sábado à tarde

 

Esta terra

Esta sanzala

Têm muitos crocodilos

Uns fumam

Outros comem sabonetes-perfumados

Uns são doutores

Outros não diplomados

Ambos comem

Ambos bebem

O sangue de segunda-feira passada

 

Esta terra

Esta sanzala

Têm muito capim

Têm muitas ruas despedidas

Nuas

Assim assim

Ou assado assado

Tanto faz para esta terra

Desde que seja diplomado

 

Esta terra tem jardim

Tem jardim zoológico

Tem comboio em miniatura

Tem apitos

E tem barcos

E tem um santo em miniatura

 

Esta terra tem crocodilos

Esta sanzala tem muitos crocodilos

Tem lata

Tem chapa

E tem merda

Esta terra

Poeirenta

Esta terra

Que nada lamenta

E tudo aguenta

E tudo aguenta

 

Vivam os crocodilos desta sanzala!

 

 

05/12/2023


05.12.23

Não chores meu amor

E se chorares

Guarda uma lágrima para mim

Com ela

Vou desenhar um rio

E escrever um jardim

 

 

05/12/2023


05.12.23

Tenho andado a trabalhar no meu obituário

Diga-se que pouca coisa há para dizer

Quase nada, para escrever sobre mim

Que nasci

E morri

E como toda a gente, tive um jardim

Porque os poetas não morrem

Porque os poetas têm um jardim

Morrem de amor

Junto ao rio

Pertinho do mar

 

Sou proletário

Diplomado,

Operário de escrever

Sou pedreiro nas horas mortas

E às vezes

Bato, durante a noite, às portas

Para entregar propaganda do partido comunista português

E escondo-me quando o sol está a nascer

 

Nunca pensei

Mas penso

Que um obituário fosse tão complicado de construir

Acreditava que seria mias fácil escrever um poema

Que era mais fácil eu cair

E levantar-me

Como sempre

Quando caio

 

Mas não

Não

Este meu obituário

Escrevo

Apago

Fica assim

Fica assado

Nunca nos entendemos com os nomes

Com as datas

Ele diz que amanhã é sábado

Eu

Que não

Eu digo que amanhã é sexta-feira

Dias treze

Quando um gato se lança a mim

E pimba

Caí

E morri

 

Por essa razão

Tão nobre

É que o meu corpo anda a trabalhar num obituário

E a minha cabeça

A escrever poemas

Poemas

Poemas de amor

 

Escarnio e maldizer

Todas as cantigas

As cantigas de amigo

As cantigas sei lá de quê

E da puta que os pariu

 

O que me interessa

O que me interessa é mesmo o meu obituário

Limpinho

Desapegado do chão

Térreo

O veneno da saudade

Quando morre

Quando levanta voo e meses depois

Cornos no chão

 

E meses depois

Nada

Ainda dorme

 

Nesta cidade

Neste réstio de beijo

Esta cidade

E este beijo

São uma merda

Há três meses, três meses, que procuro cigarros

E não encontro cigarros para fumar,

Imaginem que eu procurava

O mar

Algo de

Apetecia-me algo

Algo de especial

Sofisticado

Poeticamente

Adornado

Imaginem

Que não encontrava

 

E eu juro

Eu juro que procuro

Mas não sei o que que procurar

Eu procuro uma pedra-pomes

Mas por estes lados

Ainda não existem

E desisto de procurar

Para povoar esta cidade

E este beijo

 

Eu procuro

Eu não me canso de procurar

Eu procuro uma sandália

Eu procuro, nem que seja apenas em contrafacção, os meus calções

Eu procuro nos lábios do luar

Mas o luar manda-me passear

Andar

Rua

 

Eu procuro na algibeira

E nada tenho a declarar

A não ser

O silêncio que guardo para te dar

E eu

Procuro

Eu juro que eu procuro

E não me canso de procurar

Mas não sei

O que procurar

 

Parece o meu obituário

Eu procuro

Procuro o que escrever nele

O que desenhar

Nele

Adorava que o meu obituário

Tivesse às vezes

Quando chove

Imagens da parte traseira das portas das retretes públicas

Tipo

Gosto de ti

Faz-me um filho

Imagina a mulher da tua vida…

Agora…

Imagina-a a cagar

Não gosto

E detesto

Construir o meu obituário

 

Sem saber

O nome deste mar

 

 

 

05/12/2023


05.12.23

Lindo

Lindo menino

Menino poeta das palavras

Menino triste

Lindo menino das madrugadas

 

Posso

Não sei se tenho

Palavras

Ou flores

Lindo

Poeta lindo

 

Primaveras em lágrimas

Pássaros

Levitação das minhas mãos

Rezo

Pedir à floresta

Nuvens prateadas

 

Menino

Lindo menino

Lindo

Poeta cansado das palavras

Das palavras envenenadas

Pela mão do poeta

Menino

Lindo

Lindo apenas

Caminhar por esta estrada sem fim

 

 

05/12/2023


04.12.23

Procuro no teu olhar

A noite, despida, nua

Procuro no teu olhar

A vida, não despida, não nua

Procuro no teu olhar

O mar

E não sei o que mais procurar

 

Procuro no teu olhar

A noite, e não sei se deva continuar a procurar

E se eu a encontrar

Que faço eu com a noite?

Despida e nua

E com olhos de chorar

 

Procuro no teu olhar

A noite, pedacinho de nada

E com voz de tudo

E com corpo de madrugada

 

E com mãos de magnólia dos meus poemas

Que também eles, procuram a noite

E encontram chuva, frio, e um pouco de paciência

Procuto no teu olhar

Fotografias da minha infância

 

 

04/12/2023

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