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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.08.21

Há um corpo de rosas

Pincelando os meus braços.

Lábios de espuma

Abraçados ao meu sorriso,

Há um corpo recheado de palavras

Que brincam no meu olhar,

A bruma,

Nos seios do mar.

Há um silêncio amanhecer

Que me ilumina,

Desenha e,

Alimenta na alvorada,

Há um corpo de rosas

Pincelando a madrugada.

Há a sombra das sílabas

Voando sobre o meu cabelo,

De vento em vento,

De socalco em socalco,

Semeando o medo,

O medo invisível dos rochedos envenenados pela paixão;

Há o teu corpo veneno,

Descendo a noite cinzenta da cidade,

Há no teu corpo o sorriso…

O sorriso da felicidade.

Há na minha janela o retracto de uma infância feliz,

Quando as palavras te pertenciam,

Há no teu corpo um grito,

Do cio que pincelo até às nuvens que fugiam.

Há um corpo vazio,

Recheado de flores,

Palavras,

Amores;

Há um corpo. O teu. Todas as noites na minha mão.

Há um corpo a preto e branco,

Que só a tela da saudade consegue escrever,

Na noite,

A mão que te faz crescer.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 03/08/2021


24.07.21

Das asas pigmentadas de silêncio, ouviam-se os uivos apitos que voavam sobre os socalcos pincelados de sombras e sonoras alegrias, que de vez em quando, ao longe, de um barco, às vezes assombrado, alicerçava a tristeza da partida,

Começa o dia na mão dele, de entre os dedos carrancudos, o cigarro avermelhava-se entre cinzas e lágrimas, chamavam-lhe; a saudade.

Partiu sem dizer adeus, nem um beijo, nenhum amigo presente na fala da sua sombra, quando se adivinhava que a morte é apenas uma viagem até ao infinito, de voos baixos, de ziguezague em ziguezague, de socalco a socalco, uma mísera nuvem de espuma brincava na sua mão,

Tinha medo,

Às vezes travestia-se de homem, outras, nem muitas, aparecia nas estantes amorfas dos livros de poesia,

O poema morrer e, ele nem sempre sabia o que significava a morte.

A morte é uma merda, dizia-lhe o pai pássaro, outro, o espantalho, costumava escrever nas rochas do Douro, sabes, meu filho, o cancro é uma merda,

A viagem, o vento levava-o pelas sanzalas da infância, num orgulho que só ele sabia descrever, sentava-se junto ao mar, puxava de um cigarro reutilizado do dia anterior e, em pequenos silêncios segredava ao pássaro alegria; sabes? Sou a criança mais feliz de Luanda.

Todos tínhamos nas mãos o cansaço das equações, das ínfimas matrizes que sobre o caderno adormeciam como crianças pintadas na tela da Mutamba,

Às vezes dá-me sono as palavras tuas,

Nunca soube voar.

Vestia uns calções, sentava-se nas sandálias de couro e, começava a correr até ao Mussulo, desagregado da saliva entre apitos e rumores; um dia vou regressar, um dia,

Nunca regressei.

Hoje, acordei abraçado à mangueira da minha infância, junto a mim, o triciclo da saudade e, mais além, as cartas que nunca tive coragem de te escrever, sabes, meu amor, as palavras parecem-me falsas alegrias, arrotos anónimos nas mãos do carrasco.

As espingardas vomitavam sílabas de azoto, o soldado-menino, escondia-se debaixo do embondeiro mais velho da planície, algures, outro menino-soldado, deslaço devido à preguiça, rebolava-se ribanceira abaixo, até que alguém lhe dizia; oh menino, a espingarda? E, ele, timidamente, respondia,

Fugiu, meu senhor, fugiu como uma bala em direcção ao nada.

Nunca soube voar. Aprendi as primeiras letras e números debaixo de um zincado telho telhado, talvez hoje, seja apenas uma igreja imaginária, apenas sombra, apenas nada.

O poema voava na sua mão. Entre os dedos, desenhava-lhe os seios colocando-lhes pequenas aspas, ou inúmeras saliências, ou apenas nada.

Nada tudo dentro de uma louca equação de areia. O barco recheado de fumo, levante e de um outro adeus; amanhã saberei o seu nome.

Amanhã, meu amor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/07/2021


04.02.21

Guardo o teu nome

No granito sonolento da noite,

E, sabes? Oiço os pássaros

Que brincam nos teus lábios.

Caminho velozmente na solidão do entardecer

Como se fosse uma flecha

Ou uma espingarda preguiçosa.

As palavras que a espingarda preguiçosa

Dispara, são murmúrios,

Vozes em papel

Que descansam nas planícies do poema.

Apetecia-me suicidar o poema.

Matar todas as palavras escritas no poema,

Como fazem os ditadores aos seus opositores.

Guardo o teu nome

Na algibeira da insónia,

Lugar onde habitam as minhas memórias

E todas as minhas fotografias;

Tal como o cansaço, a solidão

É o alimento das flores sem nome.

A paixão,

O amor que dorme nas janelas transparente e,

Onde vivem os cérebros inadaptados do meu jardim.

Um pequeno passeio,

Uma lâmpada dispersa,

Na sepultura do adeus.

Tal como ontem,

Sessenta anos passara sobre a revolta,

O cansaço das armas

Nas palavras dos homens.

A covardia de não acordar,

Deitar-me sem sono,

Fingir que durmo numa sombra imaginária,

Onde brincou o meu pai.

E, uma cabana de sono

Sabe que nas minhas palavras,

Há um livro que se revolta

E pergunta; para quê?

O telegrama regressou,

Trazia na mão uma côdea de sangue,

Alguns pertences e,

Uma malga de nada; ninguém come nesta casa

Até a aldeia se libertar do cansaço dos pobres.

Oiço tiros de canhão,

Granadas importadas,

Lança-chamas improvisados e,

Esta maldita guerra não termina nunca.

A refeição chegou na marmita,

Um pedaço de pão é lançado aos crocodilos

Como se de pedras se tratasse.

O Rossio é lindo, mãe!

Cai a neblina sobre a cidade,

Das palmeiras veem-se as gaivotas em cio

Que disputam o campeonato nos musseques perdidos,

As pedras, achados de cerâmica,

Pássaros e abelhas,

Almotolias que transportam o salgado azeite da escuridão diurna,

Que apenas o soba sabia para que servia.

Hoje, depois de acordar,

Todos os sonhos são tristes palavras

Nos braços do mar.

Sabeis vós quanto custa um grama de sono?

- Meu rapaz; aqui é proibido ter sono.

E, adormeceu eternamente até se cansar de gritar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, 04/02/2021


08.09.20

Sento-me.

Nesta pedra cansada, o tempo voa,

Bate, hoje, a saudade.

Sento-me. Sei que o fumo do meu cigarro

Vai em direcção ao mar, onde brincas,

Nas cinzas da saudade.

O regresso.

A viagem sem destino, partida-chegada,

Embarque de transeuntes envenenados pela saudade,

Como tu,

Como eu; ausentes.

O teu nome escrito na pedra,

Onde me sento,

Me deito,

Nas pálpebras da janela do quarto.

Horário morto,

Cadáver saqueado pelo tempo,

Cintilações de prata,

Na algibeira,

O sem-abrigo,

Na madrugada,

Suspenso pelo pescoço,

E, sem cabeça.

Deus. Vem em tua ausência,

Da boca a flor madrugada,

Sem palavra,

Sem nada.

A grava. Torta.

O casaco roto, magoado pelo silêncio adormecer,

Quando as nuvens se recolhem na tua mão,

Quando todos os alicerces da cidade,

Ardem; e o tempo nunca esquece a saudade.

A vaidade. Palavras escritas sobre a lápide de mármore,

Dizeres que só eu percebo,

Os escrevi, desenhei no teu peito

O cabelo desorganizado, triste, cansado.

No amor, a saudade.

Vive-se assim, aqui…

No ontem,

Hoje.

Amanhã. Dia triste para recordar mortos,

Cabeças,

Trapos.

Vive-se, assim, aos poucos, nesta velha cidade.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 08-09-2020


03.09.20

Dos olhos cansados,

O velhinho poema esquecido na tua boca.

Traz as amargas palavras,

Este poeta dos olhos cansados.

Quando regressa a noite,

Acorda o girassol envenenado pelo desejo

E, o amor floresce na alvorada.

O beijo evapora-se nos teus seios,

As bocas famintas se alicerçam na noite,

Quando o silêncio vai em busca de uma jangada

E, sei que as tuas mãos semeiam as minhas palavras

Na terra bloqueada pela solidão.

Hoje, o poema é a verdadeira razão de te amar,

Acariciar o teu cabelo

Como quem colhe as flores do deserto.

Dos olhos cansados,

A clareira dorme no teu peito,

Ama-a,

Como quem ama a vida.

Peço-lhe que me dê as palavras que sobejaram dos alicerces nocturnos

Que abundam na cidade perdida.

Hoje, não há poema que me valha…

Porque o amor é fodido

E, a paixão,

Um simples rochedo de carne.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 03/09/2020


20.08.20

DSCN1350.JPG

Barco do destino, 20 de Agosto de 2020

 

 

Carta aos pássaros,

 

Meus queridos,

 

Chove. Alimento-me dos vossos sorrisos e, sempre que posso, mergulho nos vossos desejos, apesar de ontem, ao meio-dia, um pequeno silêncio de nada, aos poucos, mergulhar no destino,

Apetece-me rir,

Canso-me dos vossos tristes olhares, pela manhã e, um pedaço de nada, como uma nuvem de ninguém, cambalear no deserto da neblina, apetece-me correr para os vossos braços, caminhar sobre as pedras doidas,

Ouvi dizer,

Que uma pequena pedra lilás, dorminhoca, brinca na minha sombra, mas apenas ouvi dizer, como ouvi dizer que o mar um dia virá buscar-me e, talvez vá visitar as montanhas cinzentas, como quando pela noite regressou o vento, e fui visitar a lua,

Apetece-me rir, canso-me dos vossos tristes olhares, pedaços de nuvem são como as sandálias do pescador, pela madrugada, em busca de beijos,

Tudo é fácil,

Meus queridos,

Ontem vi uma flor perdidamente apaixonada pelo mar, um barco em papel veio falar comigo, mas os peixes não gostam de pássaros e, todas as flores são pedaços de algodão, pedrinhas mansas e, vento,

Sopra.

A caverna. O túnel engole o poeta, este, deixa cair todos os versos ao mar, e sinto que todos os peixes sabem na ponta da língua as palavras, mortas, do poeta,

Ontem.

Hoje.

Chove, perdidamente,

Regressa a paixão, caiem nas palavras o salgado silêncio, o pão parece envenenado na boca da tempestade, mas nem todos os pássaros compreendem, ou

Chove,

Ou, nada. Pedras. Barcos.

Nada.

 

Francisco Luís Fontinha

20/08/2020


08.08.20

Amanhece nos teus lábios

Um corpo de linho.

Suspenso numa cama inventada pelo desejo,

Acaricio-te suavemente e com medo de te acordar

Do sono alicerçado na madrugada.

Oiço-te gemer em pequeníssimas sílabas de silêncio,

E de dentro do vento,

Um lençol de espuma, branco entre soníferos de alegria,

Abraço-te; tenho medo de magoar o teu corpo de porcelana,

Quando desce a montanha, em direcção ao rio…

Uma enxada trabalha arduamente na sombra dos socalcos envenenados

Pelo apito do comboio embriagado,

E, ao fundo, o túnel da solidão escorrendo um líquido viscoso, sem cor,

Derramado nos trilhos dos animais nocturnos

Onde habita o teu sorriso.

Espero. Canso-me de não te ver,

E, quando te vejo, nua como todas as luar nocturnas,

Escrevo-te,

Desenho-te,

Simplesmente te abraço.

Amanhece nos teus lábios

O sorriso de menina adormecida,

Ensonada como todas as vírgulas

No texto impregnado de estórias…

Acorda em nós a insónia.

Madruga o poeta nas ruelas do engate,

Escreve versos,

Prostitui-se nas palavras…

E dorme no teu peito; não sofro, meu amor,

Porque os teus olhos são estrelas de papel…

Dançando no Universo.

Acordas-me.

E todo o sonho não passa de uma mentira

Para me afastar de ti.

Corro.

Beijo-te.

Sabendo que amanhã é Domingo.

E todos os versos serão teus.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8/08/2020


30.04.20

Naquela tarde, a saudade alicerçava-se ao sorriso e, este, convalescente do medo, dava a mão à solidão, os pássaros brincavam nas janelas do silêncio, saltitavam como pedras envenenadas por uma laranja de mau-gosto, o amor,


- amas-me?


Como sempre, poisada nas escadas do sótão, a caneta de tinta permanente, às vezes cansada dos versos sem nome, sublinhava na escuridão as sílabas que apodreciam no jardim lá de casa,


- Tenho medo,


Dizia-me ela ao acordar,


E, no entanto, as almofadas continuavam suspensas na janela do sótão com fotografia para a noite, descia os cortinados, sentava-se no colchão envergonhado pelo sémen e, nada, apenas o cheiro intenso do alecrim, um pequeno ramo que o afilhado tinha deixado pela Páscoa,


- O folar, apelidavam-no de poema inverso, desplante manhã de Primavera, entre a agonia de um dia e a tristeza da noite, velhinha, folgaz, teimosa nas camadas finas de poeira que assombravam os móveis,


Mesmo assim, ao deitar, preparava um beijo, flores amargas, sonolentas, que a faca da cozinha laminava como drageias no imenso clarão da cidade,


- O Padre,


Bom dia, bom dia,


Que horas são?


Incêndios entre corpos carnívoros pelo cansaço do sexo, é tarde, dizia ela, e o amar entrava sempre sótão adentro,


- Estou longe,


O ausente, camuflado homem das tristes sobrancelhas, rabugento, feliz pelas palavras das abelhas e, todas as marés anoiteciam no falso ouro das grandes avenidas que circundavam o sótão da saúde, tenho medo,


- Amanhã o Inverno será tardio, o feriado, um pouco mais de azul, na poeira que adocica todas as palavras do dicionário, como sempre, a saudade, o amor, a paixão,


- A paixão come-se?


Às vezes, meu amor, às vezes come-se; outras, bebe-se.


 


 


Francisco Luís Fontinha


30/04/2020


16.02.20

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Negrito, negrito,


Grito,


Gato,


To,


Miau.


Negrito,


Passeia-se pelo destino,


Desenha no pavimento,


Um grito,


Ou silêncio de menino.


Negrito, negrito,


Quando o cansaço acorda,


Corda,


No pescoço do periquito.


Negrito, negrito,


Assobio,


Matinal alvoroço,


Em fastio,


O tio,


Demãos no bolso.


Negrito,


Negrito, pois então,


Calma, calma companheiro,


Que ele, o gatito,


Não é difícil de passar a mão.


Ai, negrito,


Então, pois, é negrito…


Finge-se de morto,


Morto morrido,


Gato, gato vadio,


Vadio de ter sentido,


No pulso,


Nas mãos,


A espingarda da loucura,


Dura, negrito, dura,


Sem perceber que há um grito,


Uma palavra na ternura.


Negrito, negrito,


Negrito,


Guito,


Guito.


Negrito.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/02/2020


09.02.20

A rua deserta, imune ao silêncio das pedras,


O cansaço das árvores, quando desce sobre a terra a soldão nocturna das acácias em flor,


Um automóvel vomita lágrimas de fumo,


Uma criança brinca na sombra dentada da tarde,


E, mesmo assim, as flores dormem nos abstractos muros da insónia.


É tarde,


O relógio emagreceu com o tempo,


A tempestade de areia, silenciada pelas pedras em silêncio,


Que a madrugada faz florescer,


Acordam as trombetas,


As árvores, tombam à sua passagem,


Como soldados rebeldes,


Como espingardas revoltadas,


Com os homens,


Como os homens.


A noite alicerça-se aos candeeiros do medo,


Como as pedras do silêncio na manifestação junto ao rio,


A revolta contra a noite,


As nuvens emagrecidas, tontas, derramas as suas lágrimas nos arrozais,


Sem em delírio, sempre em manifestação, os homens, as mulheres,


Contra o silêncio das crianças,


Que brincam,


Que brincam na eira do milho amarelado pelo cacimbo,


O cão lateia, chama pelo dono,


Ao fundo,


A aldeia em chamas, lágrimas de prata,


Quando toda a cidade envenenada pela amargura,


Sente, sofre, a desgraça da ditadura…


Como é lindo ser pedra em silêncio,


Lápide ao cair da noite,


Palavras mortas,


Palavras tontas,


Que o menino escreveu, nas paredes da fragrância, deixando ao acaso, um caderno assassinado pelas quadrículas lamentações.


O tempo se esquece,


O almoço na mesa,


A fome de palavras, dos livros enamorados pela madrugada.


Sinto. Sinto-te neste labirinto de insónias.


Ao deitar, todas as drageias.


Que as areias alimentam.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


09/02/2020

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