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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.04.15

O texto reflectido no espelho da saudade


Subíamos ao cimo da montanha


Perdidos


Saltávamos as pedras e os vultos


Que alimentavam a montanha


A luz iluminava-nos


E ficávamos transparentes


Como a água


Que descia os socalcos do desejo


Tínhamos a noite


Habitada pelo medo


A separação ambígua do silêncio


As armas apontadas aos teus olhos


A caneta em fúria


Disparando palavras


Que só a tua pele conseguia absorver


Não havia entre nós


Muros


Sanzalas de areia


Mar


Caixotes em madeira


O barco


Deslizava nos teus seios de orquídea selvagem


Dormíamos nas campânulas da solidão


Dizíamos que um dia


Um electrão


Apareceria nas nossas mãos


Nem protão


Nem…


O barco


Ferrado no sono da madrugada


Acorrentado às trincheiras da paixão


Que pela manhã


Acordava


Acordavas


Eu acordava


Ele acordava


E não dávamos conta


Que o dia tinha terminado


A morte dos fantasmas


Na sala crucificada pela ausência


A minha


Tua


Os pesadelos viajavam de cidade em cidade


A bagagem secreta dos lábios de prata


Escondida numa ribeira abandonada


A carta


Não regressava


E havia no teu corpo sílabas de chocolate


Inventando homens e mulheres


Brincando no jardim junto ao rio


Nunca percebi o mecanismo dos relógios


E dos aceleradores de partículas


Nunca percebi que amar…


Não percebo


Não sei


O significado das palavras


E dos livros


Sobre a mesa-de-cabeceira


Em lágrimas de crocodilo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015


05.04.15

Não sei a quem pertencem os teus olhos


Esboçando sombreadas canções nos meus braços


A luz incendeia a noite em despedida


Não sei a quem pertencem


Os olhos


As cidades


E os distantes lugares


Dos teus lábios


Lábios


Em chamas


Sinto as nuvens nos meus ombros


E tenho nas pálpebras


As húmidas manhãs de Primavera


Os olhos


Não sei


Como às palavras roubadas


Enquanto os pigmentos da paixão


Alicerçavam as cordas da prisão


O cais


O teu corpo fundeado em mim


Respirando as sílabas do primeiro encontro


O cruzamento


A estrada da vida congestionada


E os olhos


E as palavras


Lábios


Em chamas


Esboçando…


Clarabóias de medo


Nas frestas do silêncio


O amor


A solidão vestida de amor


Lá fora


Os olhos


Numa fotografia de família


Os pais


Os irmãos


E


E os olhos


Lá fora


Nas palavras


Sempre as palavras dos teus seios


Nas rodas dentadas do desejo


A claridade das tuas coxas


Os olhos


A boca


O sémen estampado numa tela


Branca


Negra


A noite


Vens


Desces os socalcos do prazer


Despes-te e danças para o espelho da melancolia


E o amor


Vens


Despes-te


Nos olhos


Dos olhos


O poema brincando na tua pele de madrugada


Acabada de nascer


Apagam-se as personagens dos versos


Ficam na tua roupa


Como cadáveres de espuma


Fingindo orgasmos


E Domingos num parque infantil


Brincando


Nos olhos


Os olhos


Nas palavras


E nos destinos mais escondidos da tua mão…


As cidades respiram


Meu amor?


As cidades sentem no corpo


As melódicas canções do poema


Meu amor?


O papel inanimado sobre a secretária do pensamento


Os fósforos pontapeando pedaços de lágrimas


Contra o copo de uísque


Sem nome


O corpo da cidade


Dói-lhe


Menina?


Os livros acorrentados ao teu cabelo


E as serpentes do luar


Dentro de quatro paredes


As janelas onde poisas o queixo


No meu colo


A tua cabeça de diamante


Não lapidado


O sorriso


O sorriso apaixonado de uma vogal


E da cidade


As tristes âncoras da morte


És


Meu amor…


O triste silêncio das âncoras de prata…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 5 de Abril de 2015


10.03.15

Em farrapos


as palavras desenhadas no teu corpo


entranham-se na tua pele


os cubos e os círculos do desejo


tens no olhar o espelho da saudade


saudade de...


em farrapos


as palavras


e a cidade


que morrem na clandestinidade


as ruas dormem docemente nas tuas pálpebras cinzentas


como pássaros embriagados pela madrugada


 


não oiço o sino da Igreja


porque o teu sorriso


deixa-me surdo


cego...


sem... sem palavras... cansado


em farrapos


de ninguém


ao acordar


o pequeno-almoço dispensa-me


fui despedido pela boca do sono


e alimento-me de cigarros


e palavras... em farrapos... a arder...


 


as migalhas inventadas por um livro de poesia


o livro de poesia poisa sobre a secretária


e o teu corpo nos meus braços


baloiça


dança


e sinto


a Primavera e a esperança


e a esperança


esperança...


esperança...


nos lábios das andorinhas


em flor... em cio... antes de partir o dia.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 10 de Março de 2015


02.03.15

Acrílico 40x50.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Sentia-me opaco


indigente


afogado nos silêncios da geometria


sentia-me um texto


um... um transeunte


calcinado pelo desassossego da luz


e dos esqueletos vestidos de luz...


sempre que acordava


pensava que me tinha esquecido de acordar


as palavras


e o vento


levando os meus braços para o mar


Março


e cá estamos


desesperados


e velhos


no cansaço inventado pela Primavera


quase lá


as gaivotas em telepatia com os meus sonhos


os barcos ancorados no meu peito


e um debilitado relógio de pulso


em saltos


na calçada do “Adeus”


porque a morte é cega


porque o vício é o vício


dos livros


e dos desenhos


à mercê dos morcegos


e dos murganhos...


a eira em chamas


e os cigarros enlouquecidos nos lábios de uma aranha


acreditam?


em saltos


na calçada do “Adeus”


porque a morte é cega


e eu... e eu... sentia-me opaco.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 2 de Março de 2015


 


31.01.15

Pintura_55_A1_Nova.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Roubaste-me o sorriso nocturno dos beijos em flor


pegaste nas minhas palavras e transformaste-as em solitárias andorinhas


depois


trouxeste a Primavera


e o amor


do poema


de amar o poema


e sentir no peito as equações do destino...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Janeiro de 2015


 


02.11.14

Os corpos incandescentes vivem na caverna espelhada


o amor cessa


porque um olhar se acorrenta às arcadas nocturnas da insónia


os corpos transparentes voam


e não regressam mais...


 


O difícil é partir


sem regressar


esconder-se nos claustros invisíveis do amanhecer


deixar sobre a mesa-de-cabeceira um simples bilhete...


parto e nunca mais regressarei,


 


Regressar porquê?


se ninguém notará a minha ausência...!


o amor cessa


e das palavras regressarão os abismos de um Oceano habitado por cadáveres


e em cada cadáver uma flor na lapela...


 


Os corpos...


fogem das ruas inanimadas com odor a Primavera


o amor cessa


como cessaram todas as andorinhas


e todas as gaivotas que conheci...


 


A caverna espelhada transpira solidão e embriaguez alicerçada aos barcos de papel


o menino de calções desenha nas sombras do entardecer


corações e triângulos que um adulto qualquer vai fotografar


e mais tarde...


queimar na fogueira do desejo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 2 de Novembro de 2014


28.06.14

(para a amiga Sónia Lázaro)


 


O sol que constrói sorrisos,


o sorriso que desperta madrugadas,


o corpo que fascina os poetas...


um livro por escrever,


nas palavras inventadas,


 


A cidade incandescente,


a fogueira que arde,


e sente,


o cansaço do amanhecer,


 


O sol que constrói sorrisos,


o olhar que alicerça poemas,


os lençóis da insónia...


quando o mar alimenta o desejo de partir,


 


O sol... das pálpebras em movimento,


o sorriso solitário dos Invernos com sabor a Primavera,


o Sol... e os sorrisos,


e o amar suspenso nas mãos de uma gaivota,


… a gaivota saudade.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Junho de 2014


30.05.14

Do teu silêncio vulcânico,


pequenos milímetros de saudade,


pedacinhos de beijos suspensos nas andorinhas,


estrelas há, mas um cortinado opaco ofuscam o teu olhar...


sereno,


uma sentinela fuma vagarosamente o seu cigarro de sombras alcalinas,


e tu, tu pertencente ao círculo trigonométrico, embrulhas-te no cosseno do desejo,


havendo sobre ti alguns sobejantes sorrisos de Luar,


 


Ou...


talvez, ou talvez não pertenças tu às noites sonolentas das camas de veludo,


do teu silêncio...


as gargalhadas dos telhados cabelos que voam sobre a cidade,


 


A musicalidade das tuas pálpebras quando se escancara uma janela de acesso ao mar,


o barco do sémen encalhado nas tuas coxas de vidro,


uma jarra de hortênsias envergonhada, suicida-se,


e no pavimento da inocências alguns pingos de espuma do colorido amanhecer,


do teu...


… o silêncio vulcânico insemina-se e cresce sobre os teus seios de Primavera,


louca,


a sanzala saltita entre charcos e os desnudos pássaros com sabor a viagem...


 


Ou...


talvez, ou talvez pertenças tu a um sonho impossível,


semeada no jardim da solidão...


ou... ou do teu silêncio vulcânico... acordem as cinzas da madrugada.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Maio de 2014


01.05.14



foto de: A&M ART and Photos


 


não o sei


às vezes desce sobre mim a voz do silêncio


o rio com mãos de porcelana


acorda


deita-se na nossa cama


chora...


olha-se ao espelho e grita


não o sei


e às vezes


pergunto-me porque há barcos em papel com coloridas manhãs de Primavera


e às vezes


não o sei


 


os sonhos sonhados quando a noite deixa de nos pertencer


as palavras escritas amadas e desamadas


e o palheiro da madrugada invadido pelos odores do jardim anónimo


não o sei


acorda


e às vezes


tantas vezes... meu Deus


percebo que há andorinhas com fome


e fome vestida de gaivotas


chora...


não o sei


porque vives escondida no meu peito.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 1 de Maio de 2014



11.04.14

Viajo pelos cinzeiros envenenados das manhãs de Primavera,


sinto a sombra deles impregnada na minha janela,


oiço-os e vejo-os nas palmeiras do quintal contíguo ao meu,


a manhã levanta-se e começa a cambalear nas tuas mãos de desejo adormecido,


viajo e sei que existem pálpebras encharcadas na neblina inventada,


à lápide o teu retrato, à lápide... o teu nome reescrito e escrito pelas estrelas da saudade,


sou um cadáver imaginário que habita na loucura,


corredores sem portas,


e tectos...


tectos descendo até não poderem mais,


cansados,


tão cansados que pedem licença ao rodapé...


 


(por favor... ajudem-nos)


 


e o rodapé de livro na mão...


 


(quero lá saber... do pavimento não passarão)


 


viajo dentro dos teus fluidos depois de te levantares do meu corpo,


sei que está um crucifixo a observar-nos... mas nada nos diz,


e apenas nos olha,


olha-nos como se fossemos dois pedaços de madeira em combustão.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 11 de Março de 2014

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