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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


07.12.14

Oiço as tuas palavras mastigadas em prazer,


sinto o círculo das tuas coxas alicerçado ao centro geométrico do meu corpo,


somos apenas um ponto perdido no espaço...


traçamos parábolas na cintilante areia do Mussulo,


e há na tua pele de neblina adormecida... flores,


gaivotas,


revoltas,


palavras gritadas em vão...


e gemidos rochedos ao pôr-do-sol,


não habito em ti... mas há barcos nas nossas veias,


cansados de amar...


marinheiros sem pátria,


toda a gente nos apedreja com silêncios


e medos desgovernados,


somos um ponto em movimento,


temos coordenadas,


e... massa,


a luz que nos ilumina esconde-se entre a chuva miudinha do fim de tarde,


e toda a gente,


em delírio...


chicoteando as nossas sombras,


em pedaços de fotografias embriagadas pelo suicídio...


oiço as tuas palavras mastigadas em prazer,


nesta cidade em ruínas...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 7 de Dezembro de 2014


28.11.14

Os teus olhos pincelados de verniz


camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia


a tarde sem destino


e o menino...


embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz


que só o luar consegue apagar


e destruir


o barco vai partir


sem conhecer a direcção...


ou... ou o cais para ancorar


e há uma corda suspensa nos lábios da solidão


que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,


o desengano


do desassossego vestido de beijo enfeitiçado


a menina dança?


os teus olhos que só os pássaros percebem


o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...


um grito de revolta


alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas


a embriaguez estonteante das madrugadas


quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado


e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...


… morre lentamente na fogueira da paixão


como a perdiz


nas garras do amanhecer


e nesta vida de viver...


os teus olhos são cerejas de sofrer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014


05.08.14

(À minha amiga Isa V.)


 


 


No acrílico corpo esconde-se a madrugada,


escrevê-lo parece impossível, acariciá-lo... o acrílico corpo voando nos meus braços de papel,


entre flores doiradas e alicerces de suor,


sentir na tua pele a humidade do silêncio,


entranhar-me em ti... eu a gaivota do amanhecer,


no acrílico corpo, as coxas montanhas recheadas de luares de incenso,


os rochedos do medo evaporando-se em pedaços de gemidos...


os cortinados da manhã esganiçados contra a janela do prazer,


e do teu acrílico corpo, uma maré de sílabas invadindo o teu sorriso,


escrevê-lo... parece impossível,


numa cama de luz o teu acrílico corpo nu...


esperando os meus desenhos vestidos de palavras!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 5 de Agosto de 2014


01.08.14

Ao longe, as tuas mágoas de acetileno caminhando rochedos abaixo,


não existem abraços, nada te toca, e tudo... e tudo te silencia,


o morganho subindo as escadas dos tristes telhados de zinco,


o azoto evapora-se nos lábios tenros da madrugada,


uma enxada, uma enxada estremece quando penetra a terra cansada do teu corpo,


ficas imóvel, desenhas-te no espelho da saudade... como se fosses uma flor de carne,


há em ti o olhar triste dos dias sem prazer,


há em ti o desejo louco de me tocar... mas... mas eu, mas eu sou apenas um pedaço de aço,


enferrujado,


tão enferrujado como o barco que nos espera, como o barco encalhado nos teus seios...


ao longe, as tuas coxas de areia,


mergulhadas nas tâmaras sílabas da paixão.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014


01.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Da noite percebia-se o olhar felino de Madame Silêncio, havia um cortinado de fumo que nos separava, ela, ela escondia-se sob o perfume camuflado das areias em flor, havia em nós pergaminhos por descrever, palavras inaudíveis que preferíamos não pronunciar, medos, desejos prometidos e não realizados, sonhos desfeitos, como as folhas que o Outono assassina, da noite a noite, só, sem mais nada, do rádio sentia-se a voz trémula de um poema por escrever, alimentado por desenhos insignificantes, tristes talvez, e sabíamos que tudo não passava de uma noite inventada pelos olhos de uma abelha,


Não entendo o sisudo espelho do nosso quarto, dizia-me quando nos preparávamos para dormir, o corpo dela deixou de fazer sentido, inexistente, apenas uma imagem esquecida num edifício caduco, e quase que do outro lado da rua conseguíamos as âncoras do destino, via-se nos seus seios o peso desmesurado da solidão, e às vezes, eu, fingia dormir, e não dormia, e não sabia o significado de dormir, de sonhar, e eu, eu não sabia porque choram os pássaros em Carvalhais, porque me sentava nas margens do Tejo a imaginar palavras no sombreado da preia-mar,


Da noite em ti,


Eu só, ao teu lado, eu só, sem ti, porque o teu corpo era uma réstia de luz que quando abria a janela..., ele desaparecia, o fumo separava-nos, e éramos todas as noites invadidos por sussurros gritos da vizinha do segundo esquerdo,


Os nossos vizinhos constantemente a fazer amor, dizia-me, eu calado, eu


Silêncio,


E sabíamos que tudo não passava de uma noite inventada pelos olhos de uma abelha, e que essa abelha nunca, nunca nos pertenceu, algures tínhamos deixado as mãos no rosto de um gladíolo, havia cheiros, barcos em movimento, corpos transversos, e que nunca percebemos a razão de existirem,


Silêncio,


Eu calado, eu uma rocha ancorada ao púbis dos inanimados marinheiros quando saíam dos bares de Alcântara, os pedacinhos de sono estampados no paralelo agoniado, a cerveja e a vodka davam para alimentar meia dúzia de veleiros, sofríamos a angustia das varandas como fotografias a preto-e-branco, e em nós o sexo penetrava-nos como se fossemos mercadores ambulantes, beijava-se, e amavam-se, e


Madame Silêncio, ela embrulhada num esqueleto esquizofrénico, e havia um cortinado de fumo que nos separava, ela, ela escondia-se sob o perfume camuflado das areias em flor, havia em nós pergaminhos por descrever, palavras inaudíveis que preferíamos não pronunciar, medos, desejos prometidos e não realizados, sonhos desfeitos, como as folhas que o Outono assassina,


Desejosa de


Partir?


E partiu sem deixar um sorriso,


E desejosa, ela, que todas as folhas que o Outono assassina deixassem de ser folhas assassinadas, livres, como dever ser o mar e a paixão.


 


 


(não revisto – ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 1 de Março de 2014



10.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


inventas mentiras com dentes de marfim


escreves falsas palavras nos lábios do rio apaixonado


dizes que sou louco porque tenho sonhos com gaiolas de vidro e sapatos de granito


inventas coisas a meu respeito


que amanhã serei submergido como um navio profanado


uma imagem branqueada


límpida


alegre ou triste


como as tuas mentiras


com dentes...


jacarés em mpingo inoxidável


voando sobre as arcadas da solidão


 


inventas flores com sabor a orgasmo silabando e desfiado pela mão do drogado


sabes que os poemas escritos no teu corpo são uma lareira de prazer


e nunca mais desaparecerão da tua pele flácida


mole...


mole e cintilante como diamantes num leito abandonado


inventas carcaças de baleia que trazem a nós o cheiro nauseabundo do teu sémen com... dentes de marfim


e o drogado de mão estendida... sonha como eu sonhava


com gaiolas de vidro e sapatos de granito


(se é lá possível... gaiolas de vidro e sapatos de granito)


louco ele


varrido


como as folhas do velho plátano na madrugada das aflições intermináveis...


e acreditava que tinhas nos seios as pétalas embebidas na penumbra neblina do silêncio


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 10 de Dezembro de 2013



16.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer


não sendo eu um homem como os homens das bandeiras embriagadas


porque me procuram nas entranhas manhãs de cacimbo


eu escondido no zinco telhado do musseque alvorado


porque sou assim


um casebre sem esqueleto e ignorado


um imbecil que em tudo acredita


e que procuram como se fosse um objecto para reciclagem


usa-se


deita-se fora


e nasce em ti o dia ensanguentado das tristezas noites junto ao Mussulo


porque sou um um monstro vestido de negro


 


(como o dizem quando me chamam


e acordam


em todos os silêncios do medo...)


 


porque finjo que sou amado


porque acredito eu no amor


quando o amor é uma caravela à deriva no triste Oceano


porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer


porque sou um canino disfarçado de desenho animado


porque me dizem que sou um poema odiado


palavras da merda escritas por um gajo de merda


porque acredito


se nunca deveria acreditar nas manhãs sem nuvens


porque são falsas


e logo em seguida


ejaculam as gotinhas amargas da chuvinha colorida...


 


(como o dizem quando me chamam


e acordam


em todos os silêncios do medo...)


 


sou um gajo porreiro como o são todos os cadáveres da morgue do púbis amanhecer


porque sou um imbecil sentado num banco de jardim


espero as ripas madres em madeira apodrecida


finjo que sou amado


e todos o sabemos que não o sou


porque apenas pertenço aos corpos dilacerados


dos musseques adormecidos


doridos


mórbidos entre as espadas dos livros em poesia


e as palavras semeadas nas tuas coxas de terra fértil...


esperam as sementes da alegria


como se fossemos apenas vozes entrelaçadas como dedos em vaginas acorrentadas às sílabas inanimadas...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 16 de Novembro de 2013



14.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


prometidas equações de prata nos olhos da cidade agoniada


da boca os sinceros mergulhos de solidão


como simples quadrados traçados no térreo pavimento do desejo


há nela uma janela com vidros de sémen


que caminham


e vivem no Mosteiro da insónia


prometidas coisas


sem sentido sem sentido...


simples


simples anexos de chita


sobre o nu travesti que as coxas do silêncio absorvem antes de terminar o dia


e prometidas linhas de fino ouro que atravessam as ruelas dos sonhos


e infestam de palavras as mãos ensanguentadas das mulheres-sombra


alimentam-se de pedaços papel e singelas migalhas de areia da algibeira da agonia


sentíamos os velozes corpos transatlânticos vestidos de aço como líquido esquelético dos alicerces de vidro


e amávamos-nos quando nos embrulhávamos nas montanhas das gaivotas em cio


prometidas equações que o teu corpo seduz como a Professora quando do aluno fantasma


ossos e pregos e madeira ressequida saltitam no recreio da escola


há árvores sobre os diques do prazer quando ejaculam as searas os palhaços de trapos de cetim


e amávamos-nos sobre quatro rodas em movimento curvilíneo


um pêndulo e um cordel


e tudo o que nos restou da tempestade de zinco aos telhados engrenados no teu ventre


chovia enquanto desenhávamos sexo nas frestas do gesso


às paredes argamassadas das esquinas iluminadas pelo teu olhar de manteiga...


 


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013



13.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


percebo quando as tuas mãos de papiro invisível


encontram as minhas flácidas coxas de argamassa clandestina


percebo que em ti vivem as canções do prazer


e as gaivotas dos moinhos de vento


percebo que és a montanha


e a tempestade que castiga o meu corpo entre os teus dedos


percebo que me absorves como uma semente abandonada


que o teu corpo acolhe


cuida


e do salivar poema de xisto carcomido pelo teu sémen sabático


dormem


e fogem as andorinhas de olhar esverdeado...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013



11.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


dentro do habitáculo do desejo


a bailarina Caliente voa sobre as gaivotas em flor


uma moeda insere-se na ranhura do piano embriagado


ouvem-se sons dispersos nas coxas dele


ele geme


ela sente cada milímetro quadrado dos gemidos dele


o piano enlouquece


o piano derrama a fina pauta de sémen sobre a geada da alvorada


sinto a lareira do ciume nas planícies do abismo coração solitário


e dentro do habitáculo


ela


ela ri-se e dos lábios sobejam as finas pétalas do prazer...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013


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