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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.08.16

O meu corpo sente


Os teus lábios carnívoros


Desenhando marés de medo


E palavras de silêncio,


O meu corpo sente


As tuas mãos de xisto


Transportando um rio no sorriso


Antes de terminar o dia,


O meu corpo sente


A noite menina


Deitada na praia…


Deitada na ria…


O meu corpo sente


A despedida


De um relógio de bolso…


Quando a cidade adormece,


O meu corpo sente


E estremece


Quando o teu cabelo aprisiona o luar…


E nada pertence à saudade…


O meu corpo sente


As sílabas do poema


Quando a madrugada se despede da cama…


E o meu corpo,


Ausente


 


Sente.


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 1 de Agosto de 2016


15.04.16

Tenho medo. A noite traz os esqueletos da insónia, perfilam-se em frente ao meu quarto, e sei que brevemente haverá uma revolta.


Tenho medo,


À minha volta brincam as flores da Primavera, loucas, loucas como as serpentes bronzeadas dos dias sem escrever,


Das palavras, o silêncio da madrugada que acorda embriagada,


Tonta, alimenta-se das minhas mãos como se alimentam os pássaros dos meus sonhos, medo, tenho medo.


Tenho medo da noite,


Do sifilítico cansaço da espuma do mar,


Dos barcos encalhados junto aos esqueletos, em frente ao meu quarto,


Fujo deste esconderijo,


Fujo desta cidade amaldiçoada pelo vento…


Medo.


Sinto o peso do xisto sobre os meus ombros,


E o bolorento desejo guardado na minha algibeira,


Tenho medo,


Sim,


Sinto a maldição das Calçadas que dormem no rio,


Sim,


Sinto a solidão das manhãs a olhar para o infinito, assim, assim como olham os esqueletos em frente ao meu quarto,


O peso da lua,


O peso do medo abraçado à lua,


Do medo,


Hoje, hoje acordei desconectado das sílabas do prazer,


As flores do meu jardim, tristes,


As bananeiras do meu jardim, contentes,


E os esqueletos que habitam em frente ao meu quarto…


Ausentes,


Diminutos segundos de lentidão,


O medo.


Sinto.


A lentidão dos ossos dos esqueletos em frente ao meu quarto, homens, mulheres, crianças, plantas e alguns animais de estimação,


Um cartão de cidadão grita,


Zurra,


Pimba…


E morre de overdose,


Sei que sim,


Sei que este medo pertence à neblina da minha terra, sei que este medo pertence às desavenças cotidianas, embargadas sonolências das noites em papel,


O medo,


No medo,


Sinto.


Sinto a sombra do meu esqueleto de vidro,


Sinto a sombra do meu cabelo quando chove torrencialmente no meu olhar…


E regressa o medo,


A morte,


A morte de um esqueleto.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 15 de Abril de 2016


20.03.16

Os dias encostados à maré, um sorriso de sémen aprisionado na garganta, sinto o peso do corpo sentado no esplendor da noite, entrelaço as mãos, começo a rezar…, esqueço-me de mim, de ti, dela, e dele, nunca percebi o silêncio das aves, dos pinheiros abandonados entre os rochedos do desejo, abro as pernas, sinto-te em mim, sorris


Amanhã um jazigo de sol entranhar-se-á em ti, à noite regressavam com os guizos da paixão, a borboleta poisada no teu ombro, meu amor, as imagens do nosso sofrimento suspenso nas sombras do esquecimento, estou só, sem o teu peso no meu peso, um dia voltarás a mim,


Sorris, fugimos do caos como fugiram todas as paixões deste areal, um barco morrerá nas tuas mãos, um marinheiro morrerá na minha mão, ele sofre, ele sente… o meu peso?


As ruas desertas, o sexo misturado no luar, os dedos meus encarnados no teu peto, e sorris…


Partir, os dias encostados aos meus dias, imaginas-me dentro de ti, eu, e eu… tão longe da tua palavra, do teu silêncio quando o meu arde na fogueira do adeus, estou só, sozinho neste inferno de morte, a vida desgraçada descendo a calçada, o corpo amarrado aos cortinados do medo, o jazigo da paixão encolhe-se no seu esqueleto, hesito, tenho medo, e volto a fugir, amo-te, amo-te como jangada do poema deambulando os alicerces cromados do circo da alegria, hoje tiraram-me um retracto, ficou mal, estou velho


Velha, cansada deste inferno encostado aos estilhaços da saudade, encosto-me a ti, meu amor, encosto-me a ti sabendo que nunca mais voltarás a minha noite,


Cansado,


Estou velho. Pareço um farrapo engatando gajos antes de cair a noite, sonho, sonho com as viagens ao escuro, a fome, lá fora, vive, mora e morre a fome, meu amor, lá fora as esquinas do sofrimento, as velhas nuas avenidas das orgias em papel, a tinta desta caneta, só, sozinho, esquecido nesta alucinada grandeza dos povoados beijos do Além…


Amanhã, Francisco, amanhã…


Sinto-te, sento-me no teu corpo de velhice, sempre o sono, a amargura, e nada de beijos, meu amor, e nada de beijos, meu amor…


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 20 de Março de 2016


13.02.16

A noite desesperada


No labirinto da palavra


Todas as flores do teu jardim


Assassinadas pelo coração do poema


Absinto


O mínimo tempo consagrado aos insectos


Que poisam no teu olhar


Imaginávamos o silêncio


Nas treliças da saudade


Sempre em desespero


Neste labirinto de espuma


Camuflada pelas mandibulas do cansaço


O louco sorriso


Nas avenidas do sofrimento


Que absorvem a cidade do medo


O teu corpo disperso na escuridão


Descendo do luar


Até à minha mão


(A noite desesperada


No labirinto da palavra


Todas as flores do teu jardim)


Mortas


Trémulas segurando uma velha esferográfica


Escrevia em ti o sentido lapidar da timidez


Como um rochedo de insónia


Navegando no Oceano


A morte


Vivida a cada segundo de luz


A morte


Vivida a cada milímetro de tristeza


E voava nos teus braços


E voava nas tuas coxas


Até adormecer junto ao mar


A noite


O labirinto da palavra


Despedindo-se das uniformidades da sentença escrita


Morte


Até que as lágrimas se transformavam em flores assassinas


O dia inventado nas pequenas limalhas do desejo


Acordávamos sobre os lívidos secretos da angústia


E terminávamos nos limos do corpo


Desejado


Indesejado


Do corpo


No corpo


Do majorado envenenado


Observávamos as gaivotas construídas no papel pelas mãos do pôr-do-sol


E nada mais tínhamos nas veias


Apenas sangue sofrido


E pedacinhos de areia…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sábado, 13 de Fevereiro de 2016


28.12.15

Simplifiquei o cansaço,


Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…


Sou livre de amar,


Sou livre de ser amado,


Ou nada das duas, é-me indiferente,


Simplifiquei o desejo,


E hoje é muito mais fácil desejar…


Ser desejado,


Ou nenhuma das duas,


É-me igual,


Indiferente,


Mortal,


O salto para os teus longínquos e proibidos braços,


Estou só, alguns livros e nada mais,


Simplifiquei tudo…


Só não consigo simplificar o amor,


Tão difícil amar…


Amar aquele que nos ama,


Tão difícil amar…


Aquela que nos ama…


Simplifiquei o cansaço,


As noites mal dormidas


Por motivos de preguiça,


O abraço,


Mortal


O salto para o teu olhar,


Fico cego,


Absorvido pelas insígnias do destino


E afins,


Simplifiquei o cansaço,


Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…


 


Só.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 28 de Novembro de 2015


31.10.15

Diz que disse sem o dizer


Dizendo que eu era um monstruoso esqueleto com asas


Que voava enquanto todos dormiam


E que tinha uma cidade só minha


Diz que disse sem o dizer


Dizendo


Mas disse-o


Esquecendo


Que eu voava nas noites de insónia


Que era monstruoso


Que tinha alergia aos rochedos da solidão


Não o dizendo


Disse-o


Um dia


Nos meus lábios


Emagrecidos


Pobres


Descarnados pelo veneno da madrugada


Que só o Inverno consegue abraçar


Diz que disse sem o dizer


Dizendo


Que um dia


Qualquer dia


Eu


O esqueleto monstruoso com asas


Ia morrer


Sem o saber


Dizia-o


Que disse


Sem o dizer


Inventando-me sonhos que eu não queria


Nem dormia


Com medo das suas garras de chocolate…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Outubro de 2015


18.10.15

desenho_18_10_2015.jpg


Fontinha – Outubro/2015


 


Ontem tinha medo do escuro,


Meu amor,


Hoje tenho medo da paixão,


Dos pássaros mais tristes que habitam o meu jardim,


Ontem, ontem não,


Meu amor,


Hoje tenho medo das pedras, porque não falam,


Porque, também elas, tal como eu,


Não amam,


Nem choram,


Ontem sentia na minha mão o cansaço da vida,


A não alegria de viver,


Fingia a partida,


Fingia amar sem saber que fingia…


Fingir que não sofria,


Hoje, meu amor,


Hoje tenho medo da paixão…


Sofrida,


Vencida,


Porque ontem tinha medo,


Medo do medo,


Mas hoje, meu amor,


Hoje aprisionei o medo num cubo de vidro,


Vejo-o, toco-lhe nas faces…


Mas ele deixou de pertencer aos vivos…


E é apenas uma palavra sem significado.


 


Francisco Luís Fontinha – Algures fora de Alijó


Sábado, 17 de Outubro de 2015


10.08.15

desenho_11_08_2015.png


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


Desta carta escrita


Nada restará


Será pó


Melodia desencantada


Como triste


A madrugada


Como triste a noite magoada


Desta carta…


Nenhuma réstia de silêncio sobejará


A enjoada jangada que transporta a solidão


Cai sobre a sombra desorientada dos meus braços alicerçados à terra


E eu sonharei,


 


Um dia


Uma cidade inventada


Nascerá no meu peito


Com ruas


Casas desabitadas


Gente cansada


Crianças à volta das árvores…


Gritando junto aos barcos em papel,


 


Não tenho medo


Não pertenço a esta melancólica avenida


Irritada


Sangrenta



E desta carta…


 


Pó.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 10 de Agosto de 2015


27.07.15

desenho_27-07-2015_2.png


 (desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó / IPO-Porto, 27/07/2015)


 


Vivo imaginando corvos poisados neste quarto cinzento,


Sinto ao longe os barcos em círculos atravessando a tempestade,


Esta cidade morre como morreram todas as flores do meu jardim,


E mesmo assim…


Não me apetece escrever neste lugar sem nome,


Não vejo as estrelas,


Perdi a noite


E os andaimes da escuridão,


Perdi a paixão,


Deixei de ter o rio nas minhas veias,


As calças cresceram,


Pertencem a outro arbusto,


 


E estou aqui… como um rochedo,


Perdido,


Vestido de medo,


 


Sentado numa cadeira invisível.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Porto, 27/07/2015


21.06.15

Tenho medo de me sentar na esplanada


Junto ao mar,


Tenho medo de me apaixonar,


Pelo mar,


Pela madrugada vestida de mar,


Tenho medo dos sorrisos


E do luar,


Da noite,


Do dia vestido de noite,


Medo,


Medo de caminhar sobre as ervas daninhas e belas,


Medo das ervas menos belas,


E das estrelas


Em forma de velas,


Os barcos cruzam-se nas minhas veias,


Não têm marinheiros,


Mulheres a bordo,


Imagens de cadáveres espelhados


Na sombra da tarde,


Preparo-me,


Sem saber do que tenho medo,


Mas tenho medo do teu olhar…


Vestido de saudade.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 21 de Junho de 2015

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