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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


12.05.11

Dentro dele um electrão percorre-lhe o corpo e esconde-se no peito juntinho ao coração, sente uma picadinha, não dor, caminha até à pedreira, deita-se no chão e adormece.


 


A casa transpira e vê-se o suor impresso nas janelas, e nas cortinas, as cortinas sem fôlego com uma mão a segurar-se ao tecido para se proteger das ondas, quando nas rochas ele em criança quase a afogar-se, escorrega lentamente e desaparece no olhar de um petroleiro que passa lá longe, muito longe, dentro do corredor estreito e infinito, e das imensas portas, umas do lado direito, outras, do lado esquerdo, os olhos abrem-se.


 


Fechar os olhos, chamar os braços que andam em círculo junto ao rio e enrolar-se na tarde que começa a acordar, juntar os joelhos ao peito, dormir eternamente, e o electrão após várias tentativas de fuga começa a erguer-se até às nuvens, e as nuvens lá, construídas de silêncios de algodão e sorrisos de linho, a tarde desprende-se do corredor onde portas caminham junto ao rodapé, e do pai emerge a voz que em pedacinhos de palavras o chama, mas ele não acorda, dorme, sonha,


 


- eu deitado na areia, eu já sem corpo, eu sem nada, eu deitado na areia a sorrir aos albatrozes que caminham apressados pelas ruas da cidade, fumam cigarros compulsivamente, passam por mim, passam por mim como se eu fosse um contentor de lixo, e talvez eu um contentor de lixo esquecido na praia, eu deitado, eu a sonhar.


 


Ele dorme eternamente e sonha, ele a casa que transpira e nas janelas o suor impresso, as cortinas sem fôlego com uma mão a segurar-se ao tecido para se proteger das ondas, e a mão começa a dançar, e a mão deixa de se ver, mistura-se com as ondas, e desaparece do olhar, o corredor vazio, e na casa, na casa apenas as janelas com saudades do electrão…


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


12 de Maio de 2011


Alijó


06.05.11

Nas tuas mãos líquidas de esperma, uma rosa saltita de alegria, contente, nas tuas mãos líquidas, o silêncio da alvorada travestido de nada, coloca na mesinha de cabeceira toda a sua história de vida, todo o seu passado, o projecto para o futuro, alguém, é indiferente, alguém abre uma janela da escuridão, e eis que todos os papéis, inclusiva o projecto para o futuro, voam literalmente, despedem-se uns dos outros, agarram-se ao cansaço de quando o muito era pouco, era nada, nas tuas mão liquidas, um sorriso agarra-se ao meu pescoço, com cio, que me faz corar de vergonha…


E o silêncio da alvorada fica com nada, perde tudo em segundos, tudo se pode perder em segundos, e fica refém do vento, será levado na tempestade, porta fora, e sempre na alçada do relógio que há muito deixou de dar horas, nas tuas mãos líquidas, a sombra, a minha sombra, não quer saber dos papéis que acabam de sair janela fora, indiferente, não quero saber, tens medo de mim, claro que não, porque devia ter medo de ti, sei lá…,


O medo faz parte do ser humano, talvez do ser vivo, essa não acredito, de que terá medo uma árvore, uma lindíssima flor do teu jardim, ou… as minhas mãos liquidas de esperma, não têm medo, provavelmente não, provavelmente sim, e o medo alimenta-se da dor, do sofrimento, quando uma criança chora porque tem fome, e eu caceio-me com o fumo do meu cachimbo, indiferente às tuas mãos liquidas, eu, indiferente. Quero lá saber.


As tuas mãos líquidas cheiram mal, cheiram a sexo de ocasião, faço desconto, pode pagar em suaves prestações, e o silêncio da alvorada fica contente, não tem nada, é feliz, para que quero alguma coisa, tenho tudo, estar vivo… é tudo. Enquanto as tuas mãos líquidas se despedem do meu rosto, escondo a minha tristeza no teu armário, um simples pretexto para voltar novamente às tuas mãos, regressar.


Regresso a ti, todo-poderoso, criador do céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis, mesmo dos neutrinos, sim, mesmo desses, regresso ao ponto de partida, quilómetros feitos, para nada, para voltar ao mesmo ponto, um qualquer referencial, em X ou em Z, tanto faz, regresso às tardes tristes de inverno, à lareira, à leitura, à escrita, regresso ao medo que tens de me perder, e já me perdeste, andas distraída, ou num qualquer referencial em Y, tanto faz, é-me indiferente que as tuas mãos líquidas tenham medo de mim, da minha sombra dispersa na janela do teu quarto, onde repousam as tuas mãos líquidas de esperma.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


Alijó


21.04.11

Em mim as tuas mãos de seda


Poisam no meu rosto em flor


As tuas mãos de abelha


No meu corpo em dor


 


Do meu corpo em silêncio


Despedido na madrugada


Em mim as tuas mãos de seda


Das tuas mãos de nada.


 


 


FLRF


21 de Abril de 2011


Alijó

...


12.04.11

Da luz reflectida nele, ela sonhava abraça-lo, brincar com as suas mãos, levá-lo talvez a passear onde ela se escondia à tardinha, depois de o silêncio adormecer na tarde, depois de ela cansada, quase noite, ela a despedir-se do dia, ela a desejar o luar. E ele, desejoso de alcançar o mar, e ao fundo, a foz, o fim. Um petroleiro indiferente, e de soslaio, refugia-se na âncora que o prende ao fundo, aprisiona-o, e de olhos abertos, uma mão acena para ele.


03.04.11

As minhas mãos, um líquido esquisito,


Que do rio, aos poucos, acordam,


As minhas mãos, enxovalhadas de sangue,


A saliva do marinheiro,


 


O cansaço de deus.


As minhas mãos, o cérebro do nada,


Plumas nos meus ombros nas noites de loucura,


Ele, eu, nós adormecidos num só corpo


 


Filhos do rio


Enteados do silêncio,


Amantes do mesmo corpo desvairado,


Louco, cheiramos a sexo,


 


Nos nossos corpos o líquido das minhas mãos,


O plasma que dentro das veias se enfurece


Com o pôr-do-sol…


A janela que depois de aberta… se cansa


 


E os nossos corpos seminus deitados no cansaço


Coberto pelo líquido das minhas mãos,


As minhas mãos, um líquido esquisito,


Que do rio, aos poucos, acordam,


 


Que no rio, aos poucos, se afundam…


 


 


FLRF


3 de Abril de 2011


Alijó


31.03.11

Amanhã as tuas mãos hoje de seda


São húmus dilacerado


São sonhos de infância


Amanhã.


 


Amanhã as tuas mãos hoje de seda


São o meu cansaço


A Galáxia onde nasci


E hoje


Tão distante estou…


Amanhã


São o infinito


São electrões, positrões, e tudo que termine em ões…


 


Amanhã.


 


Amanhã as tuas mãos hoje de seda


São o Outono


Triste


Cansado…


 


E será que amanhã


Estarei vivo


Para ver as tuas mão hoje de seda


Serem húmus dilacerado?


 


Possivelmente, não…


 


 


Luís Fontinha


Alijó

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