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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.08.11

Palavras que acordam à mesa das palavras


Palavras suspensas nas nuvens do céu


Em silabas e vogais e chovem palavras


Nos jornais


Em livros que ninguém lê


Palavras com véu


Na porta da igreja


Palavras das cartas ao léu


Quando do Pacheco morrem de inveja


Palavras no meu jardim


Em pétalas de rosa


Em suspiros de alecrim


Com prosa sem prosa


Palavras que acordam à mesa das palavras


Palavras suspensas nas nuvens do céu


Triem-me a vida


Tirem-me os sonhos


E não preciso de nada


Mas nunca nunca me tirem as palavras


Palavras que dão nome à rua sem saída


Palavras agachadas na calçada


Quando junto ao tejo


Me sentava


E olhava as palavras no sorriso das gaivotas…


Um cacilheiro às voltas


Das palavras que acordam à mesa das palavras.


06.08.11

Um dos meus solhos era senta-me à mesa com AL Berto, Luiz Pacheco, José Saramago e António Lobo Antunes, infelizmente os três primeiros morreram e não os conheci pessoalmente, felizmente que A. Lobo Antunes está vivo e espero que por muitos anos,


E se me fosse possível dizer alguma coisa ao António, e quantas que coisas que fico sem jeito, apenas lhe dizia Obrigado, António, por tudo e pela companhia nas noites de inferno e sem dormir e que às vezes acredito que o mundo desaba sobre mim…


28.03.11

Eu nas ruas da cidade


Mal tratado pelos paralelos da calçada


No candeeiro do jardim


Um pássaro olha-me


E defeca sobre a minha cabeça


Passo a mão


E na minha mão o presente envenenado


A tão desejada “merda”


 


Nas ruas da cidade


Quando o mar fica furioso comigo


Eu mal tratado


Eu sem abrigo


 


Eu cheirando a “merda”


Eu sou a “merda”.


Nas ruas da cidade


Eu saltitando de rua em rua


De tasca em tasca


De “puta” em “puta”


E “puta” nenhuma


Nenhuma na esquina da pensão


 


Quando o mar entra pela janela


E na minha cama a tão desejada “merda”


Eu mesmo…


Deitado seminu e sonâmbulo


Com três cabeças


E cinco pares de asas


 


E de mim acorda o fedor


Deixei de tomar banho


Não desfaço a barba


E vou dar lustro ao cabelo


 


Nas ruas da cidade


Eu saudade


Eu à espera de petroleiros


Que me olham como “paneleiros”


Eu engasgado


Nos paralelos que me comem aos pedacinhos


 


Me engolem devagarinho.


 


Eu com cinco euros


Dois maços de cigarros,


Digam-me senhores e senhoras


Rapazes e raparigas da esquina


Digam o que me interessa a mim o FMI


Vão tirar-me o subsídio de férias?


Vão tirar-me o subsídio de Natal?


Quero tanto rir-me… eu nem vencimento tenho


 


Venham esses “filhos da puta”


Quero lá saber.


 


Eu nas ruas da cidade


E a cidade aos poucos cospe em mim


A cidade revoltada com o meu cheiro intenso a “merda”


Mas eu tenho direito a voto


Não pago impostos


Não recebo subsídios de “merda” nenhuma


 


Sou muito feliz


E sou Libertino.


 


(Ao grande Luiz Pacheco)


 


 


FLRF


28 de Março de 2011


Alijó


28.03.11

Hoje um péssimo dia. Palmilhei as ruas pedinchando e nada, nem uma moedinha, nem um cigarrinho, nada, nem um pratinho de sopa. Hoje péssimo dia. Há dias assim.


Dói-me o estômago, e a fome toma conta dos meus braços, sinto-me levemente nas ruas da cidade, e começo a ficar desprovido de peso, a roupa dança-me no corpo a valsa da fraqueza e os sapatos parecem pertencer a um defunto esquecido num banco de jardim.


Dói-me o estômago e hoje apenas me alimentei de um texto de Luiz Pacheco, o gajo é maluco, mas é melhor que nada, e percebo porque há pouco enquanto defecava pela calçada começaram a correr palavras do Libertino e das Cartas ao Léu, mas se a comida é pouca a defecação também não poderá ser muita…


Hoje um péssimo dia. Palmilhei as ruas pedinchando e nada, nem uma moedinha, nem um cigarrinho, nada, e dou conta que a cama em papas, os papelões encharcados pela chuva, o pobre quando anda em maré de azar até os cães lhe mijam nas botas, e o pançudo do meu cão agora cismou que quer ser deputado, e começou a aprender a escrever,


- já escrevo o meu nome,


Aos poucos e devagarinho aprender a ler,


- juro pela minha honra…


E qual honra qual carapuça,


E por fim aprender a contar, um dois três,


- três mil euros mensais,


Dói-me o estômago e hoje apenas me alimentei de um texto de Luiz Pacheco, o gajo é maluco, mas quando a fome aperta tudo serve para dar corda aos sapatos…


 


 


 


(texto de quase ficção)


FLRF


28 de Março de 2011


Alijó

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