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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.05.16

Os comboios só apitam durante a noite para assustarem as estrelas,


As rectas paralelas em aço estendem-se até ao infinito, chegando lá, o comboio desaparece, entranha-se na noite e morre.


Encurvado nos socalcos levo comigo as curvas do Douro, lanço-me à água… estou farto das palavras que escrevo, estou fartos dos meus desenhos, como a vida que gira e não se cansa de cessar, parar sobre a ponte e suicidar-se sobre os rochedos da insónia.


Oiço o grito da aranha no cansaço da madrugada,


Sei que habita um rosto no espelho do meu quarto e certamente que não é o meu, porque nunca o vi, apenas em pequenos tragos de saliva ao pôr-do-sol,


Quero expulsá-lo de lá…, mas não tenho força para tal; parto o espelho?


Quebro-o até que o rosto se transforme em mim? Ou este será o meu rosto depois da minha morte?


Os comboios só apitam durante a noite, fiz muitas viagens, muitas noites sem dormir, entre apitos e soluços, entre estações e apeadeiros desconhecidos, entre gritos e gemidos, até desaguar em Santa Apolónia pelas sete horas da manhã, as ruas acabavam de acordar, os sem-abrigo levantavam-se para o invisível pequeno-almoço, e eu, e eu fumando cigarros para não adormecer,


Mas acabava sempre por cerrar os olhos e passar o dia entre os cortinados da escuridão e os sons melódicos do trânsito, a loucura, cruzava os braços e punha-me a contar os automóveis que passavam por mim, depois separava os que eram homens e os que eram mulheres, as crianças à parte… e assim passava o dia.


Regressava a noite e eu tinha vendido o sono ao Diabo, saía na companhia de desconhecidos, entrava em todos os bares até adormecer sobre qualquer banco de jardim, e enquanto dormia, sentia, sentia os apitos do comboio…


Tudo isto está escrito e sepultado em três caixotes de cartão,


Confesso que nunca mais os abri, não tenho coragem para os abrir…


Papeis, fotografias, poemas, e fantasias…, mas para quê remexer o passado e este está morto, e enterrado no meu peito.


Os perfumes intactos, uma velha rosa dentro de um livro, intacta, e a minha vida pedaços de farrapos em construção, hoje uma pequena vitória, amanhã uma grande derrota…


 


Amanhã faz vinte e dois anos que deixei a heroína…


Uma grande vitória.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 8 de Maio de 2016


07.05.16

Era forçado pela pressa das coisas. O silêncio imaginário da manhã quando pegavas na minha mão ao desaparecer no meio dos transeuntes da cidade perdida,


Escondia-me das sombras dos aciprestes,


Porque assim, pensava eu, estaria mais protegido das estrelas, mas não estava.


A noite era uma aventura,


Eu preferia ler, e tu, e tu preferias passear, que confesso, que confesso não me apetece nada caminhar apenas por caminhar,


Se ao menos caminhasse em direcção ao Luar… era forçado pela pressa das coisas,


Tens de fazer isto, amanhã tens de fazer aquilo…


Chega. Detesto receber ordens de arbustos e munto menos de ti.


Sou feliz assim, confesso.


Não dou nem recebo ordens,


Sou livre, voo na companhia das gaivotas ao final da tarde junto ao Tejo,


Depois poiso em Belém,


Acorrento-me às amarras invisíveis da maré,


Olho os veleiros em atropelos sem que ninguém lhes valha…


Como a mim,


Nem palavras nem poesia,


Nem os livros me deixam adormecer quando tu, depois de caminhares em círculos, cansada, dormes, eu olho-te e finjo não te ouvir, prefiro ausentar-me na noite, e regressar quando já o dia bate na janela do nosso quarto,


Descerro a lápide do desassossego, não encontro nela o meu nome…


Deixei de pertencer aos humanos visíveis das avenidas laminadas pela escuridão,


Tenho no peito um fantasma, um falso coração que em vez de amar…


Bate, bate sem parar…


E um dia vai parar,


E nesse instante serei o homem mais feliz do Universo,


A minha morte; as coisas cessam, e deixam de ter pressa,


E deixam de ter graça.


E eu, e eu serei apenas eu…


Uma carcaça.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 7 de Maio de 2016


23.04.16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.


Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,


Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,


Perdidos.


Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,


Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,


Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,


Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.


Como eu,


Triste


Nos poemas perdidos,


Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,


Triste,


Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,


As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…


Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…


O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,


Despeço-me dos poemas perdidos,


Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,


Os poemas perdidos,


Despeço-me,


Deles, delas…


 


Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 23 de Abril de 2016


08.04.16

ela partiu numa manhã de neblina


levava na bagagem a solidão dos dias e das noites acorrentada à minha mão


olhou-me pela última vez


(alguma vez te disseram que tens o coiso grande?)


Disse-me adeus


E quando alguém nos diz adeus é para sempre


Aos poucos desapareceu na neblina


Sentei-me num banco de pedra


Cruzei os braços


Puxei de um cigarro na esperança que alguém me oferecesse lume…


Pequei num livro que ela me tinha oferecido no dos outros encontros furtivos


Sempre em esconderijos


E vi o mar deitado a meus pés


Que mais eu poderia querer?


neblina


sentado


um livro


e uma ausência programada


a falsa partida


o dia mais feliz da minha vida


saltava


dançava de alegria


esta finalmente livre…


e foi a manhã mais linda de Lisboa


num qualquer Novembro cinzento e escuro


as gaivotas poisaram sobre mim


transeuntes sorriam-me e eu sorria-lhes


a felicidade era tanta que tinha medo de ser mentira


felizmente


não o era


tinha-me libertado da menina mimada


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 8 de Abril de 2016


26.01.16

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,


Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?


E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…


Menos tabaco, amigo, menos tabaco,


Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes


Menos tabaco, menos,


Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,


Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho


Sim, pai?


Lembras-te do Mussulo?


Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,


Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,


Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,


Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,


E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…


Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,


Menos tabacos nesses cigarros, menos


Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos,


Os homens, os meus e os teus, quadriculados beijos entre equações de amor…


Só queria ter uma cabana no cimo do monte, uma mulher que falasse Russo e uma montanha embalsamada no meu corpo, a aventura, o silêncio na procura do abismo, o Natal, prendas, e que se “fodam” as prendas,


E o Natal!


Sabíamos que amanhã não haveria saudade, sabíamos que amanhã não gaivotas poisadas no Tejo, estou muito doente


E o Natal?


Tive um amigo que morreu de silêncio,


Paz à sua alma,


Tive um amigo que se cansou da melancolia dos dias, das noites, das noites sem noites depois das noites, vivia acorrentado a uma árvore, eu, acreditava na inocência dos seus lábios, encardidos pelo temporal, desgastos pela insignificante margem do rio onde brincavam gaivotas e marinheiros, e sucata de mim


Ontem fui a um bar em Cais do Sodré, sentei-me, viajei até mil novecentos e oitenta e sete, era dia, corríamos embriagados em direcção ao medo, havia conquilhas e cerveja à mistura, como sempre, este amigo, embriagado pelas minhas palavras,


Amo-te, dizia ele, quando percebia que a escuridão se entranhava nos meus ossos de veludo, que eu, semeado na seara do vento, tinha medo, sentia a solidão sobre o meu peito, havia noites de tortura, havia noites de desequilíbrio mental, a loucura, o Tejo no meu quintal,


E sucata de mim,


Que boiava nos teus cabelos, meu amor, e sucata de mim espalhada pelos sítios mais incógnitos da nossa casa, um palheiro, simples, e felizes, assim,


Acorrentado, tu, meu amor, nesta cidade de Cais sem destino, de barcos sem comandantes, ou cordas de nylon invisíveis, e mesmo assim, recordo-te, amar-te talvez, um dia, amanhã, depois de amanhã… ou ligo, talvez, talvez meu amor,


No meu quintal,


Uma sanduiche de sódio baloiçava nas minhas veias, sentia a morte, o fim, a despedida, não faz mal, meu amor, amanhã, talvez, no meu quintal, eu, em Cais do Sodré, abraçado a ti, sem ninguém, amanhã


Tive um amigo que morreu de silêncio, frequentava a minha poesia, uns dias aparecia outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro,


Se tu me amas, se tu, se tu me recordas como recordas as tristes alvoradas em frente ao Tejo,


Outros, e mais outros, não sabiam que o amor é um cubo de chocolate, só, triste e só, como eu


Tejo?


Outros…


Amanhã, não saberei se tu,


Outros… uma cancela de vidro, um comboio em aço desgovernado subindo a Calçada da Ajuda, e


Ajuda nenhuma, sempre só, meu amor, sempre, sempre só nos teus braços, nos teus fantasmas, nas tuas coxas de silício mergulhadas na corrente eléctrica do sofrimento, Tejo?


Talvez, meu amor, talvez…


Tive um amigo.


Tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, isso é grave, Doutor? Que sim, que nunca mais vou ver o Rio nem as montanhas nem as prendas, nem…


O Natal?


Quero lá saber dele, nunca goitei dele, prendas, e que se “fodam” as prendas, e todos os dias vinte e cinco de cada mês… estou muito doente, tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, gravíssimo meu Caro, gravíssimo meu Caro, pronto, estou “fodido” a caminho dos cinquenta tudo aparece, é o Natal, é a Tara, é a porra da idade, e nem o Caracol me consegue valer, sobe, sobe… e puf… parede abaixo, capotou mesmo em cima da mulher que sabia falar Russo, tristeza, a Tara… e eu só queria ter uma cabana no cimo do monte, uma mulher que falasse Russo e uma montanha embalsamada no meu corpo, a aventura, o silêncio na procura do abismo, o Natal, prendas, e que se “fodam” as prendas, prendas,


Tínhamos prometido separarmo-nos naquela noite, inventamos partes da Teoria de Einstein para recordarmos o que era impossível de recordar, a separação, o fim, e o adeus


Ontem recebi carta dela, está tudo bem, os arrozais ainda dormem, os coqueiros soluçam entre os finos cortinados de tristeza e a claridade do fim de tarde,


Adeus, ontem recebi, a carta vinha amarrotada, cansada, e embalsamada como as rosas no interior de um livro, o parvalhão de um livro,


Se algum dia eu abraçava uma rosa embalsamada…


De um livro, muitos anos, Einstein para recordarmos o que era impossível de recordar, a separação, o fim, e o adeus das gaivotas a cada encerrar de uma janela que só a dor consegue fazer sobreviver,


Tínhamos,


Inventamos o amor “transtemporal” os catetos, a hipotenusa, a verruga, o cinzeiro a abarrotar de conversas sem nexo, nunca tive um sonho, morri sempre na praia, nunca, se algum dia eu abraçava uma rosa embalsamada…, nem eu, ouvia-a


Tínhamos, não sonhos, não sorrisos, não beijos, nem um simples calendário suspenso na cozinha, nunca sabíamos a quanto andávamos, se era terça-feira, sexta-feira… tanto faz, ouvia-a, irritava-me com a sua ausência, mas sempre que podia


Partia, levava todas as roupas e todos os livros, até as velhas cartas transportava na bagageira, e nunca me disse adeus,


Amanhã,


Me disse adeus, até amanhã, amo-te, nada, nada


Como hoje


Nada.


 


Francisco Luís Fontinha


in – “Amargos Lábios do Poema”


19.12.15

Conhecia-a numa noite de Inverno, no planalto do desassossego habitavam as planícies da solidão, dias a fio encurralado numa jaula, à janela tinha a companhia da Gaivota Desejo, conheci-a numa noite de Inverno enquanto acendia a lareia, confesso, nunca tive, não tenho… apetências para lareiras, o meu caso é mais de insónias, tardes confusas


Confusas?


Sim, confundo o triste olhar do céu com os beijos da geada, sim, confundo os plátanos nus com a tua nudez… e que desperdício, o desgosto de acordar tarde, e tu


Sofrias de sinusite aguda, durante a noite não dormias, já dormes, meu querido? Não, não durmo, e de sinusite aguda transformou-se numa loba, tinha asas e voava sobre o Tejo,


E tu, e tu acreditavas que eu era marinheiro de profissão, tinha dois filhos e morava num cubículo recheado de velharias, alguns livros, dois ou três pratos e uma colher, a sopa infestada de sono, a sopa entranhada entre o ontem e o amanhã, não, não meu querido, não acredito numa só palavra tua,


Confusas?


Distantes e abstractas todas as minhas manhãs, conheci-a numa noite de Inverno, algas mortas, as profundezas da palavra acorrentada à lareira, bêbado, sou bêbado… cambaleava sobre a areia fina do destino, tinha dois filhos e morava num cubículo recheado de velharias, alguns livros, dois ou três pratos e uma colher, a sopa infestada de sono, o sono enfestado de sopa, e nunca vi o mar, meu querido, o mar…


Durmo!


À meia-noite regressava o eléctrico, descalça com os sapatos de salto alto suspensos no cansaço, vomitavas as dores do teu camuflado esqueleto pela manhã, vomitavas


Ela já foi dormir…


Vomitavas todos os gemidos da Sinfonia da paixão, acreditas, meu querido?


Fui despedido


Durmo! Ela foi dormir, ela quase nem me olhou


Boa noite…


Fui despedido e agora vou viver de esmolas e serviçais serviços, boa noite, ela já foi dormir, fui despedido como são despedidos todos os poetas, dizem que as mulheres têm o prazer de despedir poetas,


Foda-se o poema,


Boa noite…, nada mais, boa noite e partiu sem deixar rasto, algumas roupas, uma pequena pasta com alguns papeis e uma esferográfica, talvez comece a escrever, escrever-me definitivamente com o meu nome, endereço e rua,


Ela partiu, boa noite, cansaço o caraças…,


Um par de cornos


O caraças, tu andas é com algum Mânio, iletrado, dormir, fui despedido acreditando que levaria a vida de escritor,


Uma merda, escrevo uma merda e merda


Um par de cornos, um avental e uma faca do tamanho de um beijo, uma merda, a minha vida, a dela e a vida de quem não dorme…


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sábado, 19 de Dezembro de 2015


13.12.15

A lua com todo o seu esplendor


Poisada sobre o desejo da melancolia


A vida parece uma cidade em ruinas


Sem habitantes


Na penumbra do silêncio


Inventando pedacinhos de alegria


E beijos em papel colorido


O amor sofrido


Querido


Na sombra das árvores sem destino


O menino


Agachado nas pedras da infância


A lua dorme


Tu


Tu dormes nos braços da lua


E não sei quando acordarás…


Ou se algum dia vais acordar


Dos sonhos sem projecto


Nos momentos recheados de insónia


Poisada


Sobre o desejo


A lua com todo o seu esplendor


Nas tristes palavras de amor


Esquecida nas marés do mar


Sentindo o peso da minha mão


Empunhando uma caneta


Torta


Feia


E triste


A corda do enforcado envolvendo o meu pescoço


Tenho um frágil esqueleto


Que mais parede em porcelana


Da fina


Pura


Ínfima


Minerais acesos nos meus lábios incinerados


Sobre a cama


Todo o dia


Toda a semana


Tu enforcas-te


Eu enforco-me…


Ele não se enforcou


Alegre


Feliz


Desiste


Assiste ao desmoronar dos edifícios negros


Em queda livre


Com direcção ao mar


Como é triste amar!


Como é triste ser amado…!


Como é triste ver a lua com todo o seu esplendor poisada nos teus seios sem os acariciar…


Como é triste…


Como é triste amar!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 13 de Dezembro de 2015


09.12.15

Entranhei as mãos no teu corpo de porcelana


Parecíamos dois pontos de luz em direcção à morte


Sem passaporte


Clandestinos destinos


Das madrugadas infelizes


Tínhamos no sorriso todas as fotografias da infância


Ai… ai meu amor


A tua partida


O abismo das tardes sem ouvir a tua voz


Que a janela da biblioteca absorvia


As coisas parvas que recordávamos


Sítios


Costumes


E palavras não ditas


Suspirava quando te via


Estranhava a palpitação do meu coração


Uma máquina absorta


Nas montras da velha cidade


Os apitos dos teus seios


Chamando-me para o desembarque


Os marinheiros aflitos


Embriagados


Sonolentos


Quando nos teus lábios acordavam beijos


E lamentos


Entranhei as mãos


Na caneta de tinta permanente


Escrevi no teu corpo todos os poemas da noite


(sempre te amei na noite)


Escrevia no teu corpo como se brincasse nas planícies do sofrimento


Deixei de estar presente no teu ventre


Desenhei pássaros na tua face rosada


E bebíamos como se o amanhã não existisse mais


Amava-te


Como amo as sombras desta casa


A lareira embriagada nos trilhos das montanhas da paixão


Novamente o abismo da escrita


O sexo suspenso na clarabóia do luar


Os gemidos invisíveis das noites com geada


Os términos suspiros das alvoradas


Amava-te


E tinha medo do teu cabelo


Como ainda hoje tenho medo do teu cabelo


Veio o sonho


Trouxe a morte


E acordaram todos os vampiros da madrugada


As motorizadas dos caquécticos transeuntes


Contra o medo dos dias


Tinha-me esquecido de acordar


Tinha no quarto uma fenda no espelho


Eu parecia um monstro


Uma ribeira em direcção ao púbis do Rio


Depois acordava o mar


Depois acordava o amor


A paixão


E a desilusão de não te amar


Os lençóis quase em brasa


O suor acorrentado à tua pele de cereja


Ai… ai meu amor


Que inveja


Que saudade


São dóceis as brincadeiras do teu olhar


São dóceis os sofridos orgasmos das tuas lágrimas


E tão longe


O mar


E tão longe


O mar de papel que habita nas tuas coxas…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015


08.12.15

O tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Converso com um invisível copo de uísque


Recordamos os momentos passados junto ao Tejo


O embriagado soldado


Subindo a Calçada da Ajuda


Com o Doutor Vijago debaixo do braço


Não sei se o tempo me quer


Ou se eu quero o tempo


Estou só


Aqui


Neste convés sem janelas


Neste mísero abraço


Aqui


Estou só


Converso com todos os fantasmas da noite


Reparo que um deles odeia-me


É tão fácil odiarem-me


Aqui


Olhando o sonífero luar nos términos da insónia


Sou pobre


Nada telho para te oferecer…


Apenas beijos e livros


Coisas insignificantes


Sem destino


Quando menino dormindo na sombra das mangueiras


O musseque fervilhava de paixão


Havia sexo


Orgias


Orgasmos


E gemidos


África é um Paraíso


Sem nome


Sem morada física


Como eu


Aqui


E só


Escrevendo parvoíces


Coisas que ninguém lê


Palavras


Palavras


Palavras do Diabo


Sem dono


Sem ser amado


A felicidade acorda nos teus lábios


Framboesa das manhãs sonolentas


Dos castiçais amedrontados do templo do amor


As aventuras das crianças pretas meus irmãos também


A morte regressava-lhes de vez em quando


E sorriam


Cantavam


Beijavam-me como se beijam os Coqueiros nas fotografias


E o tempo cessou de vomitar


As horas os minutos e os segundos


Estou só


Aqui


Só…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 8 de Novembro de 2015


07.12.15

A morte desliga-se do corpo


Interrupção da vida entre momentos e obscuros silêncios


Oiço a tua voz poisada no espelho do guarda-fatos


Sentes no cabelo a tempestade dos órfãos parágrafos


Apenas palavras, meu amor, palavras sem nexo


Para pessoas sem nexo


Como tu


Como eu


Sempre no esquecimento de viver sem perceber o significado da vida


Uma passagem


Uma pequena passagem…


Para o húmus


A terra incendiada pelos teus gemidos


O borrão da caneta de pinta permanente sobre as sanzalas da tua adolescência


Foste feliz, meu amor,


O homem mais feliz de todos os homens felizes


Que eu conheci


Tinhas um crocodilo em pão-preto


Algumas fotografias a preto e branco


Um carrossel de cartão


E eu era feliz nos teus braços


A morte desliga-se


Foge


Covardemente


Foge


Sem deixar rasto


Endereço


Número de polícia


Rua ou calçada


Tanto faz


Não existes


Deixaste de pertencer às manhãs televisivas


Sentavas-te no sofá


Incrédulo


Rabugento


Nas finíssimas lágrimas da tristeza


Que o teu rosto transportava


O engano


A mentira


O sofrimento do Adeus quando a presença é desconhecida


De mim


De ti


De nós…


Às vezes acreditava que conseguias voar


Mas logo percebi que era impossível voares…


Apenas os pássaros o sabem fazer tão bem


Que


Que sempre duvidei que o conseguirias


Felizmente


Não o conseguiste


Eu não o consegui


Que


Amanhã perceba porque não o consegui


Escrevo-te sem saber porque o faço


Não me importa a solidão


E as noites sem ninguém


Não me importo com o amor


A paixão


E a ressurreição dos panos de linho


Não me importo, meu amor, não me importo com as coisas simples da vida


Os livros


Sentado numa esplanada com sabor a Tejo


Uma cerveja, um prato de caracóis, e nada mais…


Amava a tua alegria


Amava os teus braços na minha face…


E nunca me disseste que ias partir!


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

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