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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.12.14

A lentidão do desejo sonífero


que mergulha nos teus abraços sem sentido


o espelho da insignificância em pedaços de papel


que do vento regressam os fios loucos do teu cabelo iluminado pelo luar


trazem alegria


trazem poesia...


e tu pareces não perceber


que a lentidão do desejo


é uma digital fotografia


que arde


e que grita


a cada novo dia...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 4 de Novembro de 2014


29.11.14

A astronomia loucura do profeta


as paredes encarceradas do guerreiro desconhecido


à força e pela força


o cansaço espaço de luz nos confins rochedos da melancolia


a astronomia


embriagada pelos momentos sem pressa


numa carta de despedida


sem palavras


ou... ou remetente


uma aventura na escuridão da cama do sonambulismo


os cigarros absorvidos pela morte do fumo colorido...


e um caixão de espuma poisado nos alicerces da canção de revolta


 


cessem este destino


e o silêncio


da atmosfera encarnada em comestíveis soluços de desejo


a astronomia loucura do profeta


sentado em frente ao espelho da agonia


sem sentido


sem... sem melodia


antes de acordar o dia


 


o vento sofrido


o corpo mordido pelos meus dedos


o odor embalsamado do prazer


em finíssimos gemidos


e uivos...


e no entanto


não existem ruas na minha mão


casas


flores


nada


apenas... um rio adormecido numa fotografia


e um Domingo desorganizado e despido...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 29 de Novembro de 2014


05.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perspectivo-me sobre a sombra lâmina do teu sorriso de gaivota sem poiso


há uma linha transversal que nos separa e aproxima


como uma fotografia sem nome na mão do louco muro em xisto


desço às fronteiriças margens do desejo


desço até que sou engolido pelo cosseno de trinta e cinco graus dos teus lábios...


desejarás-me ainda depois das equações diferenciais dormirem dentro dos quadriculados cadernos?


Invejo-te a liberdade


e os voos nocturnos quando se esquecem de ti e tu


e eu


suspensos no estendal das sílabas poéticas que o veneno da tua boca alicerçou na tempestade


há em nós uma circunferência de luz com braços de areia


húmidas todas as palavras dos anzóis do medo das sanzalas com vozes de zinco


com olhos de fome...


e chove


chove sobre o teu corpo de nylon onde se abraçam os barcos desvairados quando o vento se entranha no amor e nos transporta para o infinito


e lá ao fundo... a sombra lâmina do teu sorriso de gaivota sem poiso.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 5 de Janeiro de 2014



16.04.13




As mãos,


Vejo-as sobre a fina areia que o silêncio golpeia nos cascos moribundos de barcos ensonados, são vermelhas, as mãos, as mãos que o vento trouxe e semeou ao longo de um triângulo de luz, sem braços, cabeça, onde vejo apenas os tristes lábios de insónia, cruzo os braços, tal como eles o fizeram, e entrelaço as minhas mãos, para não as perder, para não me esquecer que tenho mãos, ou que um dia tive mãos, macias, de Cinderela, sumarentas comas as pétalas, como os vidros das janelas antes de ela os acariciar, as minhas mãos, escrevem, não tocam, mas inventam palavras nos muros de xisto,


Vejo-as e sinto-as,


No meu rosto coberto pelas tempestades de pólen que as abelhas transportam, de longe para longe, elas, as mãos infindáveis das tardes de Primavera parecem, aparecem, e


Desaparecem,


E deitam-se como se fossem palavras espalhadas sobre o papel branco, penumbro, e aos poucos, vou construindo o desejo, e aos poucos, eu e ela, vamos desenhando o prazer nas dunas sapientes dos distantes luares que nascem em África e vêm morrer na Europa com um Passaporte travestido de um outro transeunte, em migalhas, poucas, das velas dos veleiros doentes, elas, as mãos, poisam-se-me na face ácida, em chapa inoxidável e robusta, desaparecem


Vejo


Vejo-as,


As manhãs com ondas e espuma, oiço-as, a todas elas, espalhadas pela longínqua areia que os sonhos trazem, ou trouxeram de longe, e vão para longe, como voando à boleia do vento sem asas, livremente dentro de uma fotografia, a fotografia sem mãos, sem pernas, sem cabeça, apenas


Com rosas vermelhas, disfarçadas de mãos, as mãos do desejo em decomposição, putrefacto, o medo, o tédio, o nada, o nada quando elas, as mãos vestidas de botões de rosa, vagueiam, amam, desejam-se, como se desejam os homens, como se desejam as mulheres, as plantas e os animais, e Deus?


É esta a tua partida depois de morreres?


E da espuma há neblinas que cobrem as cidades, embrulham-se nos edifícios esfomeados e de alicerces apodrecidos, há jardins com bancos de madeira onde se sentam os amantes, trocam palavras – Amo-te muito, meu querido! - do mar um som em forma de farrapo percorre distâncias inseparáveis e atinge o jardim dos amantes – Eu também, eu também! - e ambos sabemos que numa fotografia sem mãos, pulsam os nossos corações, e a minha pele sobeja da pele dela, e na boca, em ambas as bocas do jardim dos amantes, um desequilíbrio de espuma escorre pelo canto da boca, molha os lábios e


Nasce o desejado beijo,


O beijo da fotografia sem mãos.





@Francisco Luís Fontinha


(Texto escrito para o desafio de: Maria Mendes: Alguém consegue escrever um texto para esta linda fotografia?)


http://cachimbodeagua.blogs.sapo.ao/


(Alijó)



28.03.13



foto: A&M ART and Photos


 


Imagens, solstícios de imagens descem metodicamente do tecto do impostor prazer que a luz provoca nos corpos negros, absorvidos pelos espelhos e pelos cortinados de espuma, onde te ajoelhas, onde te deitas, onde


(me masturbo)


Imersas minhas mãos nos solavancos que os vidros de areia escrevem nas paredes de barro depois das chuvas dos finais de tarde, lamento informá-lo mas


(ela morreu de tédio, desassossego, ou)


Mas ficou-nos sobre a mesa-de-cabeceira as fingidas pétalas dos perfumes embriagadas depois de caírem sobre as lajes de granito os melancólicos ossos da paixão dos peixes, havíamos construído e declarado guerra aos apaixonados cansaços vestidos de sobretudo encarnado, circulavam pela cidade, durante a noite, em busca de imagens, comida e simples jornais desvairados que alguém tinha deixado nos caixotes do lixo, um dos títulos anunciava a possibilidade da queda do governo, e se ele cair, que caia, mas que não se aleije, salvo seja, senhores das imagens que entram pelos meus olhos, eu nua, eu com uma câmara fotográfica em busca de um passado desperdiçado nas clareiras águas salgadas das praias com varanda para as traseiras, íamos à janela, e suspendíamos os seios no peitoril cinzento com saliva esverdeada, perguntávamos-lhe o que tinha, e ela respondia-nos


Fígado,


(ela morreu de tédio, desassossego, ou)


(me masturbo)


Imagens, muitas, loucas e loucos, como as árvores do Outono mergulhadas em rochas de iodo, e tédio, e cansaço... todos, temos, lamento informá-lo mas... cessaram as imagens a preto-e-branco, e se eles caírem, paciência, uns vão dizer que vamos melhorar, outros que nada mudará, eu nem sei o que lhe dizer Dona Menina Amélia... olhe


Seja o que Deus quiser,


E se ele não quiser, paciência, venham as imagens esquecidas, venham os bancos de jardim com ripas de madeira, venham eles e elas, todos e todas, a luz e a escuridão, o silêncio e a algazarra, o branco e o negro, e as pedras, e


(os barcos de papel com melodias entrelaçadas nos dedos)


E as flores, todas as flores, não falando nas algibeiras com a laje apodrecida, as moedas, poucas, caem até se estatelarem na cave, sombria, e sem janelas e sem abraços, coitadas, infelizes, aqueles e aquelas, pobres miúdos de porcelana com sorriso de nuvem embebida no sono longínquo das amendoeiras em flor, e se eles caírem?


(Imagens, muitas, loucas e loucos, como as árvores do Outono mergulhadas em rochas de iodo, e tédio, e cansaço... todos, temos, lamento informá-lo mas... cessaram as imagens a preto-e-branco, e se eles caírem, paciência, uns vão dizer que vamos melhorar, outros que nada mudará, eu nem sei o que lhe dizer Dona Menina Amélia... olhe), um dia perceberás a minha cabeça, um dia perceberás que sou tão normal como todas as outras pessoas que circulam à nossa volta, como são as moscas, como são as abelhas, como são todas as imagens, e todas as palavras


Normais,


Sou normal como qualquer árvore do jardim de Luanda, ou como qualquer machimbombo ou como o Mussulo, normal, sou, como a estrada para o Grafanil, ou


Normais,


Ou o cheiro da terra depois da chuva, e um dia, um dia perceberás que apenas a mulher da máquina fotográfica, essa sim, louca como os comboios em direcção ao Tua


(pare, escute, olhe... atenção aos comboios)


Proibido fumar, peço desculpe PROIBIDO O TRÂNSITO PELA LINHA,


E o Tua morto,


É como lhe digo Dona Menina Amélia, se cair


Caiu como vão cair os finos fios de luz das mandíbulas empobrecidas, loucas, loucas, loucas como uma montanha de areia, com braços de aço e olhos de plástico, simplesmente, se caírem que não o façam sobre mim,


(É como lhe digo Dona Menina Amélia, se cair)


O importante são as imagens, e por muito que eu o descreva, acredite em mim, só vendo, consegue vossemecê imaginar uma mulher nua dentro de um quarto escura a fotografar sombras? E junto à mulher um escadote com acesso ao infinito? Consegue?


É claro que não, Fígado,


(ela morreu de tédio, desassossego, ou)


(me masturbo),


Ou por falta de luz...


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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