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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


Sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia


sobre os meus ombros de xisto


tenho nos versos a enxada do silêncio


e no peito a espada do cansaço


sinto as tuas lágrimas de estanho


descendo a calçada


como uma fotografia


morta


rasgada


e a noite constrói-se no teu cabelo


sempre que um relógio engasgado


adormece no pulso da insónia,


não existem imagens nas minhas mãos


tenho medo da cidade depois de se erguer a madrugada


sinto as tuas finíssimas lâminas de agonia


sinto as tuas lágrimas de estanho


nesta triste parede embriagada


pelo medo


pelo tédio...


morta


rasgada


uma algibeira sem nome


perdida na estrada


sem nome... esquecida na perpétua estátua da liberdade.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 14 de Dezembro de 2014



17.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Aqui sei que me esperas como janelas envenenadas


aqui sei que me amas


e desejas


sempre que o cortinado tomba e dele se derrama o líquido chamado de solidão...


aqui tenho-te dentro de mim


aqui sou eu


aqui... aqui somos livres de amar


desejar


possuir esqueletos com asas em papel


e és gira com vestidos de napa


derretida nos límpidos tecidos do teu insignificante corpo encurvado


ao leme o velho monstro de quatro cabeças...


 


Confessas-me que tens velas de seda


… e desejas tanto o vento como a sombra da minha mão...


vaidosa


pareces uma pomba com sandálias de porcelana


Princesa


invejosa...


 


Aqui confundo-me com as árvores envelhecidas


onde poisam pássaros recheados de reumatismo


e bicos de papagaio...


aqui sou feliz


aqui


aqui vivo percebendo que a vida é uma roldana


uma velha roda dentada


gasta


sem dentes


sem nada


aqui sei que me esperas como janelas envenenadas


e quando desce a lua sobre os teus seios... apenas oiço o suspiro das calçadas


 


Aqui já fui o Príncipe das Avenidas gastas


o velho escorpião dos bares nocturnos do prazer


aqui fui o velho marinheiro


o cachimbo de água do confuso poeta escritor aldrabão e impostor...


aqui vivo


e aqui morrerei como uma serpente enrolada no pescoço da saudade


 


Aqui


aqui... serei o teu cadáver depois de travestido em fúnebre jarra parda com flores plastificadas


cansadas e tristes e aqui...


aqui... perdi-me de ti enquanto voavam as gaivotas dos círios cabelos castanhos da montanha.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 17 de Dezembro de 2013



28.07.13



foto de: Francisco Luís Fontinha


 


Um silêncio de espuma com sabor a areia branca, o mar, as gaivotas poisadas em mastros invisíveis, brincando, correndo, sentado, inventando..., sonhando com um ferrugento triciclo com assento em madeira, pobre, apodrecida, um silêncio de espuma, saltitando os círculos da infância, com sabor a areia branca,


Mentiras descendo a calçada, abraços, como velhos guindastes de aço, perdidos entre a cidade dos vidros, mentiras, correndo, dançando, brincando como as crianças, que somos, ontem, que fomos, hoje, doces, vaidades imperfeitas, de espuma, os olhos brilhando entre mim e a minha pobre sombra, a criança, eu, imagino papagaios em papel descendo a calçada


As mentiras?


Também, como eles, chegando até mim, cansados, fartos de me ver pendurado na nuvem número cinco do primeiro andar esquerdo, as escadas, muitas, cansadas, assobiavam como quando eu imaginava acariciar-te a pele de luminosidade sonsa, insossa, acabada de transcrever as últimas palavras de ti, o teclado preso nas minhas mãos, o papel prendia-se-me nos dedos, e eu


Nada fazia, em vez de tentar libertar-me..., sonhava beijar-te debaixo das acácias em flor, e eu, nada, fértil, as palavras deambulando sobre a velhíssima máquina de escrever, o teu corpo transpirava de prazer, a fita prendia-se nos teus seios, brotava pingos de tinta, o preto e o vermelho, misturavam-se nas janelas do palheiro de Carvalhais, ouvíamos um som esquisito, tonto, como as pedras descendo violentamente a montanha do Adeus, eu, eu desejava-te no meio de toda aquela canalhada porcaria de velharias, máquina de escrever sobre o teu peito, o zurrar da Singer comendo pedaços de tecido, os livros, esses, chorando como crianças, que fomos e que éramos, um dia seremos como os cacos cerâmicos que brincam na nossa sala de jantar, um dia, um dia


Tu e eu,


Seremos os espelhos desprovidos de quaisquer imagem nocturna, o preto e o vermelho, sobre o teu corpo, a fita desenrolada da máquina de escrever, o teclado, esse, mais pezorro do que as tuas coxas de rosa perfumada, deixavas o papel entalado na ranhura, batíamos as teclas como se estivéssemos a destruir a espessa e dura casca da amêndoa encontrada no sótão da casa que tínhamos inventado dentro de nós,


Tu e eu?


Nunca,


Tu e eu, dentro do silêncio de espuma com sabor a areia branca, o mar, as gaivotas poisadas em mastros invisíveis, brincando, correndo, sentado, inventando..., sonhando com um ferrugento triciclo com assento em madeira, pobre, apodrecida, um silêncio de espuma, saltitando os círculos da infância, com sabor a areia branca, eu, a criança brincando com a máquina de escrever que mais tarde, muitos anos depois, me foi oferecida, o teclado teus seios rangiam durante a ténue luz do quarto nu embebido no divã com a colcha azul com flores em sorrisos doirado, o papel, na ranhura, amarrotado, como hoje, a pele do teu corpo, deitado, sobre uma das prateleiras da biblioteca, estás misturada em três partes de ti e uma de livro, pareces o inferno quando corríamos calçada abaixo, quando o teclado de ti escrevia palavras lindas, como imagens a preto-e-branco, sempre, sempre antes de acordar o pôr-do-sol...


Tu, e, eu,


Nunca.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



24.07.13



Desenho de: Francisco Luís Fontinha


 


Há uma cidade com janelas de vidro


tem ruas e pessoas


há uma cidade com jardins invisíveis


e marés transparentes... que nem todas as pessoas


as pessoas dessa cidade


… há uma cidade


que nem todas as conseguem olhar


como persianas marteladas em papel hortelã,


 


Há marinheiros


filhos da cidade


vagabundos dos mares inavegáveis como rochas íngremes nas estradas de brincar...


há uma pobre cidade com braços de porcelana


e palmeiras


e pássaros...


há uma cidade em penumbras madrugadas


uma cidade embriagada,


 


Há uma cidade que renasceu do teu olhar sobre a ponte inoxidável...


uma cidade com seios prateados e coxas de plátano...


há conversas perdidas nas sombras desta cidade


uma cidade com beijos de lábios em néon imaginário


e pássaros


e palmeiras


há uma cidade com janelas de vidro


e toalhas de linho... sobre a mesa nocturna dos sexos débeis das flores perdidas na calçada...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



23.05.11

Chove torrencialmente e na rua as pedras transpiram pelas frestas da calçada, um roedor espreita-me de relance à entrada da sarjeta e tira-me as medidas, 1,75 m e 72 kg, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, o roedor fixou-se em mim, não me admira, às vezes pergunto-me se eu terei mel porque as abelhas sempre à minha volta, e eu não flor, eu não mel, eu uma árvore onde poisam pássaros e cagam nos meus braços, sempre fui assim, os pássaros sempre adoraram cagar sobre as folhas que cobrem o meu tronco, já fizeste alguma coisa hoje, não nada, isto tá fodido é a crise, eu bem estendo as mãos mas as mãos sempre vazias, qualquer coisinha para comer, vai trabalhar pá, amigo ao menos um cigarrinho, vai-te foder, e eu vou à procura do abrigo das platibandas, e enquanto vou eu fornicado, perco os clientes que correm apressadamente e fogem dos pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio, isto tá mesmo fodido hoje só cinco euros, e não dá para nada…


 


Chove, chove e eu não me dou conta, eu tão magro que os pingos atravessam o meu corpo como se eu fosse um passe-vite enferrujado e pendurado nas paredes da cozinha comidas pelo tempo, a cozinha vazia, não cozinha, a cozinha à minha espera, e eu entro em casa e vou directo ao quarto, deito-me sobre a cama, o meu corpo parece um objecto que acaba de sair da água, o meu corpo suspenso nos olhos do roedor, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, e nas pedras da rua vejo o silêncio do meu corpo e a ausência das minhas mãos, hoje tá fodido, é a crise, só ainda fiz cinco euros, e eu nem isso amigo, hoje nem isso…hoje os pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


23 de Maio de 2011


Alijó


07.04.11

O peso do meu corpo evapora-se por entre o fumo do meu cigarro, sinto-me aos poucos levitar por entre as águas de um velho com lágrimas, e no seu rosto poisa a minha mão, peço-lhe ajuda, e na calçada a minha sombra percorrendo as tasquinhas pedindo esmola, eu descalço, eu sem roupa vagueando junto ao Tejo, chamam-me do rio que desaparece ao fundo da calçada, na esquina o meu corpo transformado em vapor, suores numa madrugada de Agosto, o frio entra-me nos ossos e adormece os meus olhos, e perco a noção de beleza.


Odeio as flores.


Odeio o mar.


Odeio o rio que aos poucos me viu nascer e ainda hoje espera por mim junto à calçada.


Odeio as gaivotas e os livros e odeio a poesia e a literatura.


O peso do meu corpo evapora-se por entre o fumo do meu cigarro, sinto-me aos poucos levitar na mão de um mendigo, percorro as tasquinhas pedindo esmola, e da ajuda apenas me vem à lembrança os paralelos da calçada e um candeeiro na esquina junto ao museu dos coches.


Odeio as flores.


 


 


(texto de ficção)


FLRF


7 de Abril de 2011


Alijó

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