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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.12.23

Que se erga o diabo do teu corpo

Que me abrace

Do teu corpo o diabo

Que faça amor comigo

O diabo

Do teu corpo

Que se erga esta sanzala de pão

Pois então

Ao largo de Peniche

Que se erga

Que se erga o sábado e o domingo

Que se deite a sexta-feira

E que se erga da tua mão

A montanha mais pesada da lua

E o resto que se lixe.

 

Que se erga o teu corpo

Nu só e nas mãos do diabo

Que se erga a palavra

Contra a palavra

Que se escreva

E que se erga

A madrugada.

 

Que se erga

Quando chega

O fino clitóris dos teus olhos

Que se erga o mar dos teus olhos

E o mel dos teus lábios

Que se erga a paixão

Que se erga o final de tarde

No finíssimo tubo de experiencias dominicais

Que se erga a morte

Que se deitem as notícias nos jornais

Que se erga a vontade

Na funda pensão de erguer

Que se erga o foder

Que se erga o haxixe

Quando a mão está a beber

E a tremer.

 

Que se erga a primeira lágrima da manhã do teu lindo cabelo

Que se erga a mão que alisa o teu lindo cabelo

Em cabelo que se erga

Que se erga tudo aquilo que não consegue erguer-se

Que se erga a noite contra a tua vagina

Que se ergam os teus seios

Contra o meu peito

Que se erga tudo isto

E tudo aquilo

Que se erga Álvaro de Campos

E Cesariny

Que se erga o AL Berto

Tudo se erga

Até aquilo que está perto.

 

Que se ergam as donzelas

E as putas donzelas

Que se erga Cais do Sodré

Que se erga o António e o Tomé

Que se erga o Tejo

E os magalas do Tejo

Que se erga a tua voz

Na tua voz de galinha

Choca

Menina

Que se erga Nossa Senhora

Seu filho e sua mãe

Que se erga a cultura

A palavra

E o sono também.

 

Que se ergam as mandibulas do criador

Meu criado

Meu senhor

Sempre ao dispor

Que se erga Deus

E que Deus tenha juízo

Que se erga quem está sentado

E quem procura o diabo

Que se ergam do teu corpo todas as ervas daninhas

Que se erga o feitiço

Da Pirâmide do Egipto

Que se erga

 

João então coração pão pistola de sabão

Que se erga Mário de Sá-Carneiro

Que se erga pum pum pum

E que se ergam também seus miolos.

 

Que se erga Apolo

Anjo quebrado

Civilizado

Que se erga o tio e a tia

Que se erga o pequenino menino sobrinho

Coitadinho

Que se erga

Que se erga a masturbação

Que se erga a flauta-mágica

Que se erga a meia-noite

E as drageias do meio-dia.

 

Que se erga o poema e a poesia

Que se erga o meu cigarro contra a tua teimosia

Que se erga o silêncio do teu olhar

Contra a insónia

Do meu olhar

 

Que se erga a noite

Que se ergam os sonhos

Que se ergam os bombos da fanfarra

Que se erga Alberto

Que se erga

E abra

As coxas do Roberto.

 

Que se erga Pedro e São Paulo

Que se erga o esterco

E o mexilhão

Que se erga a partitura

Que se erga a minha mão

Contra a tua mão

 

Que se ergam os misos teres ai

Ui

Que se erga o teu nome

Na fome

Que se erga o levante

E as flores de levar

Que se ergam os pinheiros

As pinhas

E as caixas de fósforos

Que se ergam

Quando o quiserem

As cinzas do meu corpo.

 

 

 

31/12/2023


31.12.23

Poema cabelo amanhecer

Ergue-te estátua deste jardim sem nome

Quando o pão é fome

Quando a fome é de prever.

 

Poema cabelo vento

Barco renegado

Pensamento

Gado.

 

Coração dilatado

Poema cabelo flor

Fuma o drogado

E fuma a dor.

 

Poema cabelo fogueira

Montanha na mão montanha no luar

Poema cabelo ribeira

Quando ao longe está o mar.

 

Quando ao perto

Poema cabelo clitóris da madrugada

Quando o quase certo

Parece o quase anda.

 

 

31/12/2023


31.12.23

Ainda bem

Que ontem parti a cabeça

Ainda bem

Ainda bem que o sol é redondo

E a lua também

Ainda bem

Que a mão é de aço

E o abraço

Também

Ainda bem

 

Ainda bem

Que a noite é escura

Que é às vezes é secura

Ainda bem

 

Ainda bem

Que ontem parti a cabeça

E estava tudo bem

Ainda bem

 

Ainda bem

Que muito bem

O cabelo é o centeio

E o mar

Também

Ainda bem.

 

 

31/12/2023


31.12.23

Lembro-me de ti

Claro que nunca vou esquecer as tuas mãos no meu rosto

Lembro-me de ti e dos papagaios em papel que fazias

E brincavas

E brincavas

E dizias

Que nunca mis de ti me lembraria

 

Se até me lembro do primeiro livro que li

Como podia esquecer o teu rosto

Ao esquecer-me de ti

Lembro-me de ti

Lembro

Muito

Das mangas em quede livre

Como um foguetão

Em direcção às tuas mãos

 

Lembro de ti

Apavorada

Quando o mar me puxava

Invisivelmente para as suas mãos cinzentas

Lembro-me

Muito

Mãe

Lembro-me de ti

E lembro-me do teu cabelo em noite de tempestade.

 

 

31/12/2023


31.12.23

Vou amar-te

Até que termine a noite

Até que o som dos teus lábios

Se transforme em fogo

 

Vou amar-te

Até que a minha mão se canse de escrever

Até que me faltem as palavras

Quando não tiver mais palavras

Eu vou ama-te

Até que seja noite

Até que a lua se esconda nos teus olhos…

 

Vou amar-te

Até que o meu sorriso seja o dia

Que nasce neste poema

Até que a vaidade seja a simples morte

Do poeta que ama

Loucamente

A noite

Até que seja noite

Vou amar-te

 

Até que seja vento

Até que seja pássaro

Vou amar-te

Loucamente

Até que seja noite

Até que seja gente.

 

 

31/12/2023


30.12.23

Devo sofrer de disfunção

Não do foro eréctil

Mas sim do movimento solidário em silêncio psicológico

Não sei se já sou tio

Mesmo que o fosse interinamente

Ficaria muto orgulhoso contente a gente

Quase a ser avô

Quase a ser nada quando comparado com tudo

É muito pouco.

 

Falando em interinamente

Também o fui

Como pai

Mas fui devolvido à procedência

A maré é de cocó

O triângulo equilátero que me assola

Não assombra

Mas assopra

Sobre o mar qualquer coisa de se comer.

 

Como-te saboreio-te acaricio-te olhar

Não te frito

Porque quando estou aflito

De te olhar

De te acariciar

Não consigo te fritar

Como-te delicadamente

E com o dedo e com a língua

Retiro de ti o açúcar e a canela

E não fosses tu uma “frita de Natal”

Eu diria que eras a nave espacial mais bela da galáxia.

 

Devo sofrer de qualquer coisa real

Isenta de impostos

Qualquer coisa que satisfaça o conselho indisciplinado da ausência…

Dizem que coifou os parafusos

E se coifou ou não coifou…

Só ele é que o sabe.

 

Devo estar louco

Devo estar quente

Sente

Um pouco

Enquanto nada parece cinzento

E a primeira lágrima

É uma albarda de sono.

 

Pinto-me de escuro. Afoito-me nestas camisas pálidas e sem nome

Provando memórias

Escolhendo por entre a fome

Os chifres esqueléticos das cabras

Quando procuram os gémeos das fotografias

E um pedaço de silêncio prateado

Desventra o seu corpo de miúça catanada.

 

Dançam as meninas de além.

Dormem os meninos de cá.

Escrevem os poetas de cima.

Suicidam-se os poetas do andar de baixo.

E mesmo assim

E no entanto

Devo sofrer de disfunção

Não do foro eréctil

Mas sim do movimento solidário em silêncio psicológico

Não sei se já sou tio

Mesmo que o fosse interinamente

Ficaria muto orgulhoso contente a gente

Quase a ser avô

 

De um poema lindo.

 

 

30/12/2023


30.12.23

Preciso de um prato

Para não comer no chão

Preciso de uma mão

Para segurar o talher

Preciso de uma mulher

Para me beijar

Para me abraçar

Preciso de um prato

Para não comer no chão

Preciso de uma mão

Para segurar o pão

Preciso de um prato

Para não comer no chão

Preciso de uma mão

Para segurar no prato

Preciso de um chão

Para pegar no meu coração

 

 

30/12/2023

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