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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.10.23

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Sentamo-nos.

Suicidamo-nos com o fumo deste cigarro

Quando dispara sobre a manhã

A bala de prata.

Suicidamo-nos com as lágrimas do mar

E sentamo-nos nesta pedra cinzenta,

Velha,

Ferrugenta,

Sentamo-nos e suicidamo-nos pelo entardecer,

Junto ao rio,

Quando o teu corpo não se cansa de arder

E chorar,

O veneno que nos vai matar,

 

No verbo de escrever.

Sentamo-nos no chão com o odor do teu corpo,

Suicidamo-nos com as flores da Primavera…

Voamos para o castelo do silêncio,

Quando os teus lábios se transformam em pigmentos de luz…

Em pedacinhos de amanhecer,

E suicidamo-nos quando acordar o dia,

Quando o sol nascer,

E nos oferecer,

Ao pequeno-almoço…

Poesia.

 

Sentamo-nos.

Suicidamo-nos com o fumo deste cigarro,

Nutriente do meu corpo viver,

Sentamo-nos sobre esta pedra, esta pequenina pedra de veludo…

E suicidamo-nos com as primeiras lágrimas da manhã,

Nós

Sentados…

À espera de que o mar nos leve.

 

 

08/10/2023


07.10.23

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Desenhar-te,

Cansa.

Sonhar-te,

Cansa.

Desenhar-te nos meus braços,

Cansa.

Desejar-te,

Cansa.

Amar-te…

Cansa muito.

No entanto,

Desenho-te,

Sonho-te,

Desenho-te nos meus braços…

Desejo-te

E amo-te muito

Tanto o quanto te odeio….

 

 

07/10/2023


03.10.23

Maré que me inventas

Todos os dias

A todas as horas do dia

Dos outros dias

Maré dos teus lábios de mel

Que inventa na minha mão o silêncio

E se despede de mim

Quando cai a noite

 

Maré que me inventas

Todos os dias

A todas as horas

Dos dias sem horas

Das horas sem dias

Quando se aproxima o cansaço

E se ergue dos teus braços

O abraço

 

Nas marés que me inventas

No mar dos teus olhos

Tão lindos

São os teus olhos

Quando se ergue na maré que me inventas

O sono

E o desejo

De dormir…

… nos teus braços.

 

 

03/10/2023


01.10.23

O que vês não existe

O que sentes e existe e que não vês

E que te acompanha

Que te abraça

Existindo apenas os braços

Não existindo o abraço

Que vês e sentes

Que não interessa sentir

 

Vês esta estátua

Sentes esta estátua

Abraças esta estátua…

Mas será que ela existe?

Existirá uma estátua ou apenas um pedaço de pedra ou aço

E existe

Nos teus braços

A quinta sinfonia de Beethoven

 

Ouves a manhã

Mas não existe manhã

Mas não existe tarde

Em existência

Apenas ela

A noite existe

 

Não ouves a lua

A lua existe

Porque vês a luz

E se a lua for apenas um cortinado colorido…

 

Nesta galáxia

Que me come em pedaços

Que existe e faz com que eu deixe de existir

Neste labirinto

O dióxido de ferro que lanço

Sobre o corpo

Ante de adormecer

 

E ele sente a noite

E a noite sente-o a ele

O abraça

O escorraça

Dá-lhe banho

E deita-o suavemente na alcofa

Não o acorde

Que ele existe

E está embriagado desde a semana passada

 

Existe que não existe em ti a fotografia que vês

Que sentes e apalpas com a mão

A minha não aprisionada ao papel fotográfico

Ele chora

Ele sofre

Existe

Existia na noite anterior

Ergue-se

Ergue-se e percebe que existe

Que vê tudo aquilo que existe

E existe tudo o que vê…

Antes que a noite nos veja.

 

 

01/10/2023


01.10.23

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Tragam o carrasco

Estou pronto para ser castigado

Sempre estive pronto

Tragam o carrasco

Com os seus alicates

Com as suas garras

Tragam o maldito carrasco

Do dia que nasce

Ao dia que morre

Pronto

Sempre estive pronto para as suas garras

 

Tragam o carrasco

E o saco com os pecados

Tragam vinho

Tragam pão

Uísque

E charros

Tragam o carrasco e castiguem-me

Me atormentem

E me matem

Se Deus quiser

 

Quando cair a noite

Tragam o carrasco

E os seus métodos de tortura

Na fome que dura

Que dura na mão do carrasco

Tragam o carrasco

Tragam a chuva

Que eu mereço

O castigo

Do carrasco

 

 

01/10/2023


01.10.23

Sirvo-me e pergunto-me de que me sirvo

Se não há nada para me ser servido

Penso

E nada há para pensar

A não ser

Servir-me

Do que não me serve

 

Sirvo-me do quarto com serventia

Com acesso à casa de banho

Um par de sapatos

Que já não me servem

E servir-me daquilo que deixou de me servir

 

Sentado

Não me serve

Nem me serve o devido ser-me servido

No entanto

Penso

Que já nada me serve

 

Nem este pobre lenço

Que só servia para esconder baba e ranho

Não

Não me serve ficar sentado

Servindo-me disto e daquilo

Coisas que às vezes

Servem

Que outras vezes

Deixam de servir

 

E sirvo-me quando me pergunto

De que me serve tudo

Não me servindo nada

Não me servindo o pouco

Penso

Que não me serve pensar

Porque me cansa

Porque me faz chorar

Pensar

Que me sirvo

Não me servindo

Tão pouco sei se me posso servir

Desse pedaço de bolo

Que não me serve para nada

Apenas para saciar a minha fome

Que tem nome;

Serve-me por favor algo que ainda não tenha sido servido.

O sofrido servido do triste sofrido

O eu, o eu fodido.

 

 

01/10/2023


01.10.23

Instantes que nos separam

Dos instantes constantes

Da vida em pequenos instantes

 

Do nada ao tudo

Até ao pequeno instante

Lua que acorda num instante

Morre no outro meio instante

E a alma que chora

No outro instante

 

Instantes que nos separam

Dos instantes constantes

Que a vida no dá

Que a vida nos tira

Num pequeno instante

 

Instantes que nos separam

Dos instantes constantes

Da vida em pequenos instantes

Nesta vida de instantes

 

 

01/10/2023

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