Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.05.23

348358885_1227120304640087_9161071853471282441_n.j

Desta selva

Encalhada entre o mar e a terra

Desprovida de palavras

Actos

E pequenos nadas

 

Desta selva

A selva de salve-se quem puder

O esperto ao quadrado

Até à equação diferencial do imbecil

 

Nesta selva

Pacata

Parva

E senil

Desta selva de palavras

De pontes metálicas

Desta pequena selva

Encalhada entre o mar e a terra

Actos

E de pequenos nadas

 

E os nadas são tudo

No meio das palavras

Dos actos

E do pecado

Da selva

Na selva habitada e contente

Como as estrelas

Durante a noite…

De engate em engate

 

Depois

O apito

Partida de Cais do Sodré

Alcântara mar

Mais dois apitos

Dois pirolitos

E começa a festa

Na selva

 

Da selva de salve-se quem puder

Os barcos tombam embriagados

A noite

Coitada da noite…

A noite é tão bela

Tão bela

Por isso é fria

Escura

E tímida

 

E a selva cresce

Triplica

Tem filhos

Vão à escola

E nada…

A selva morre

E deixa todos os animais tristes

 

Da selva

Belém envergonhada

Sentemo-nos então meus queridos irmãos

E irmãs

E filhos de Deus…

Sentemo-nos sobre esta sombra de giz

Junto ao Padrão dos Descobrimentos

 

Ouviam-se as pulgas

Das pulgas que labutam

Que lutam

Que trabalham…

E se fodem quando chove

 

É a selva

A selva onde habitamos

Em betão

De cartão

Com porta de abrir à direita

Com porta de abrir à esquerda

E é selva

Com um rio em tesão de sono

E pintura metalizada

 

Encostava-me ao muro da selva

Fumava

Fumava enquanto num pequeno caderninho…

Apontava os dias que se tinham suicidado em mim…

E contei

E contei…

Eram muitos

São muitos

Dias

Que não conseguiram aturar-me

E pimba

Mataram-se

No Bugio

 

Desta selva

Encalhada entre o mar e a terra

Desprovida de palavras

Actos

E pequenos nadas

E muitas coisas

Chocolates

No Bugio

Pimba

E contei

E contei…

 

 

 

Luís

28/05/2023


28.05.23

20230528_163633.jpg

Desce a rua

O ausentado nocturno

Procura na algibeira o último cigarro do mês

Acende-o

E senta-se junto ao rio

 

Procura na paisagem

As estrelas de além-mar

E as estrelas de ontem

Algures entre o sono

E a décima quinta noite de insónia

 

Desce a rua

O aprumado esticadinho

O ausentado de Domingo

Sem perceber que na mão

Transporta o pecado da palavra

 

Desce

Desce a rua

O ausentado senhor

De livro na mão

Cigarro

O último cigarro do mês

E está feliz

Que feliz ele está…

O senhor

O Dom ausentado

 

Desce

Desce a rua

O ausentado nocturno

Procura um cadáver para alugar

Com vista para o mar

Um pequeno quartinho

E uma sala enorme…

Onde se senta

Onde se deita

Onde morre

 

Desce

A rua

Que desce o ausentado nocturno

Das flores migratórias

E das palavras avulso

Uma estória de morte

E sexo

Durante a noite

 

Desce

Devagarinho a rua do ausentado

Do Domingo de ausência

Em pequenas drageias de silêncio

E o que procura não encontra

Não sabe o que procurar…

E enquanto desce

Desce a rua

O ausentado senhor…

Uma lágrima de saúde desenha-se no seu olhar.

 

 

 

 

Luís

28/05/2023


28.05.23

20230528_121800.jpg

Abraça-te aos meus braços de insónia

Quando o poema cresce nos meus lábios

Das palavras

As flores perfumadas

Dos teus olhos de amanhecer

Abraça-te ao silêncio da minha boca

Desta palavra envenenada

Cinzenta nuvem que poisas em mim

E não se cansa de crescer

 

Abraça-te às minhas tristes madrugadas

Dos poemas escritos

Dos poemas não lidos

Abraça-te aos meus braços de insónia

Abraça-te às tardes masturbadas

Do beijo que voa sobre o mar

 

Abraça-te às estrelas que habitam nos meus olhos

Rio curvilíneo

Da paixão entre parêntesis

Ao quadrado do cubo

A mão que afaga o meu rosto

Do Inverno escondido

Abraça-te à sombra de luz que me abraça

Quando a noite em gemidos

Dos abraços

O poema pertence aos meus lábios

 

Abraça-te pedacinho de mar

Fotão das noites em delírio

Abraça-te a este poema

Com fome

Com frio…

 

Abraça-te às minhas lágrimas de sono

Quando a noite pertence ao infinito

Abraça-te aos meus braços de insónia

Das palavras que morrem

Nas palavras que crescem

E brincam

Nos teus lábios de mel

 

Abraça-te aos meus braços de insónia

Quando o poema cresce nos meus lábios

Das palavras

As flores perfumadas

Dos teus olhos de amanhecer

Nos teus olhos as minhas palavras.

 

 

 

 

Francisco

28/05/2023


27.05.23

20230527_220240.jpg

Do teu corpo

Que abraço

No teu corpo onde escrevo o sorriso da manhã

E desenho o gemido da noite

Do teu corpo

Que abraço

No teu corpo

Que beijo

Do corpo

Que enlaço

Em desejo

Neste quarto.

 

Do teu corpo

Que abraço

Que beijo

E enlaço

No meu corpo

No teu corpo

O desejo

O abraço.

 

Do teu corpo

Que abraço

No teu corpo onde me deito

Nesse corpo

Das palavras

Dos desenhos

E dos beijos

Do teu corpo

Esse corpo

Nesse corpo que beijo

O do abraço

O silêncio

Em palavras

Em pequenos gestos…

De pequenos beijos.

 

Do teu corpo

Que abraço

No teu corpo me endireito

Do teu corpo

O uivo louco da tarde

Do teu corpo

Entre palavras

Entre corpos de luz

Me deito

Me abraço

E beijo

O teu corpo

Do corpo

Do corpo que me seduz.

 

Do teu corpo

O meu corpo

Enrolado em milhões de estrelas

No meu corpo

Deitadas

Quietinhas…

Quando o teu corpo

No meu corpo

Ferve.

 

Do teu corpo

O abraço

Quando o teu corpo

No meu braço

Voa

Voa para dentro de mim.

 

E do teu corpo

O meu corpo

Dois pontos de luz

Duas pequenas esferas de polietileno

Que dançam na noite

Que fervem

Que fervem como os nossos corpos

E dizem que são felizes

Muito felizes.

 

 

 

Francisco

27/05/2023


27.05.23

20230527_213144.jpg

Perguntávamos ao amor

Onde escondia o pecado do corpo

Perguntávamos a Deus

Onde escondia a equação do prazer

Do corpo

Em finíssimos uníssonos de gemido

Perguntávamos à paixão

Onde guardava os beijos da Primavera

 

Perguntávamos ao sono

Se o amor

Ainda escondia o pecado do corpo

O apetecido corpo

Que bem semeado

Por palavras…

Sorri em cada madrugada

 

Perguntávamos ao corpo

Se ele

O corpo

Ainda queria ser corpo…

Nas mãos do poeta louco

E tão pouco

Quase lá…

A noite inventa o corpo

Abraça-me

E dois pequenos corpos de luz…

Dão corpo

Ao pecado do corpo.

 

 

 

 

Luís Fontinha

27/05/2023

...


27.05.23

20230527_200635.jpg

Talvez nesta pincelada folha onde desenho o mar

Acordem os círculos de sorriso verde

Que todas as tardes

Junto ao mar…

Erguem-se em direcção ao abismo…

 

27/05/2023


27.05.23

20230527_192948.jpg

Podia ser noite

As luzes

Todas as luzes apagadas

Podia ser noite

Antes da noite

Podia ser noite

Dentro desta noite

Podia…

 

Podia ser dia

Pois podia

Se o dia não tivesse acordado tão cedo

E a noite

Despertado

 

Pois podia

Meu amor

Podia ser dia

Dentro da noite

Que vai nascer

 

Claro que podia

Ser noite

Sem luzes

Quando da noite

Recordamos o dia

Que teve noite

E terá

Um dia

Um outro dia

 

Podia ser noite

E agora

Nem que fosse uma noite emprestada

Nem que fosse uma noite comprada

A crédito

De cinquenta e seis lindas noites de sono

E isento de insónia

 

Claro

Claro que podia

Meu amor

Ser já noite

Roubada ao dia

Quando a noite

Podia

Podia ser dia

E podia ser noite

 

Claro

Meu amor

Claro que podia

Podia ser noite

Uma noite

Noite

Podia

Podia ser noite nos teus olhos

E dia

Que podia

Ser dia

Nos teus doces lábios

 

Claro

Claro que podia

Meu amor

Ser dia

Ou ser já noite

Podia

Podia

Ser noite

Noite disfarçada de dia.

 

 

 

 

Francisco

27/05/2023

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub