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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.11.21

Trago no peito

A equação do silêncio.

Às palavras que escrevo,

Peço perdão à madrugada,

Sentado nesta pobre esplanada,

Sentindo o vento na face oculta da solidão;

Trago no peito

A equação do silêncio,

Um pedacinho de saudade,

Trago no peito a sílaba envenenada,

E um pedaço de pão.

 

Trago no peito

O feitiço da alvorada,

Quando cansado me deito,

Me deito sem saber nada.

 

Trago no peito

A equação do silêncio,

Um pedaço de pano,

Onde me abraço,

Sem perceber que amo,

Amo este pobre cansaço.

 

Trago no peito

Os cigarros fumados,

Os pedacinhos em papel onde escrevi,

Trago no peito

Marinheiros abraçados,

Marinheiros que nunca vi,

Marinheiros desgraçados.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/11/2021

...


30.11.21

A orgia dos pássaros. Definem-se as palavras nos lábios do poeta. Escorregam das mãos do poeta, as lâminas do desejo, quando do poeta, apenas crescem as mandibulas envenenadas do silêncio. Amar-te, não chega, escrevia ele na ardósia da noite, quando lá fora, na ruela da escuridão, uma flor se perdia de amores por uma abelha.

Suicidou-se, o parvalhão.

Diziam que se rezasse, regressariam as palavras ao poema; ele rezava e, o poema continuava incompleto, triste e amorfo. Das luzes da alvorada, cresciam beijos na boca do poeta e, da boca do poeta, renasciam as sílabas estonteantes da noite.

Eu, acredito que sim.

O feitiço tomava conta da madrugada, silenciavam-se todas as palavras em delírio, como se silenciam os beijos na boca perfumada do Inverno.

Tenho medo de morrer.

Odeio o cancro.

Odeio a decadência humana.

Libertavam-se, aos poucos, os gemidos atónitos da manhã, quando era de esperar que lá fora já fosse noite, noite cerrada, moribunda, esquizofrénica como todas as palavras.

Suicidou-se por nada, como se suicidam todos os poetas.

Levava-a nos braços em direcção ao mar, acariciava-lhe os lábios, mas o desejo pertencia à equação dos pobres, pouco a pouco, libertava-se das garras do medo.

A morte deixou de pertencer ao destino, partiu e fugiu para longe. Eis, a eterna manhã enublada de hoje.

Sentia nos braços o peso da idade, a carne pertencia-lhe, entre duzentos e seis ossos desgovernados junto ao rio, mas depois, percebia que das suas palavras, muito pobre em crómio, os silêncios se travestiam de gargalhadas; hoje faço anos, segredava-lhe ao ouvido.

Anos?

Sim, faz anos que adormeci no banco de jardim, debaixo das mangueiras, em Luanda.

Um papagaio desgovernado, alicerçava-se-lhe nos doentios braços de menino traquina, como uma viagem sem retorno, à volta da ilha da saudade.

Todos nós, somos pássaros embalsamados nas mãos do destino.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30/11/2021


29.11.21

Trazia no olhar

A tristeza das pedras magoadas da calçada,

Sabia que em cada despedida,

Em cada porta de entrada,

Existe a saída,

Existe a madrugada;

Na madrugada de amar.

 

Do silêncio adormecido,

Entre manhãs e correrias desproporcionadas,

Tinha sempre na algibeira um recibo,

E a fotografia das pedras magoadas.

 

Pedras da calçada; digo.

Quando sentia o desejo do amanhecer,

Distante, distante de se ver,

Tão distante de descrever,

Quando podia apenas escrever,

Sem perceber…

As palavras que sigo.

 

Trazia no olhar

A tristeza das pedras magoadas da calçada.

 

Trazia no olhar

A lágrima chorada,

O cheiro a mar,

O cheiro a pedra magoada.

 

Trazia no olhar

A tristeza das pedras magoadas da calçada,

Da manhã ao acordar,

Trazia na mão,

A lágrima de chorar,

Chorar a pedra magoada,

Magoada na solidão

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29/11/2021

...


28.11.21

Um dia, pesará mais um silêncio do que a espada do desejo; esse dia chamar-se-á ontem. Todas as palavras serão em papel e, todas as flores de carne-e-osso. As marés pertencerão aos poetas pobres, como pertencem hoje, as latrinas da cidade.

Um dia, acordará a saudade, um dia, levantar-se-ão todos os tetraplégicos da cidade, que hoje se fazem transportar em máquinas voadoras, como fazem os pássaros, que um dia, pertencerão todos ao passado.

Um dia, as árvores morrerão de tédio, assassinadas pela ganância humana, nesse dia, os poetas deixarão de ter sombra, nesse dia, as crianças serão apenas bonecos metálicos, comandadas pela sombra.

Um dia, saberão que o ontem existiu como existirá a manhã sombreada de silêncios e venenos comestíveis; esse dia será o cansaço, a eterna despedida da madrugada.

Um dia, aparecerá sobre a mesa-de-cabeceira a espada da solidão travestida de menina das alianças, correndo debaixo das mangueiras, há muito extintas na saudade.

Um dia, todos os nomes serão de cartão, todas as pessoas serão pinceis voando em direcção ao mar; um dia, também pertencerei à saudade.

Um dia, pesará mais a lâmina do destino do que pesam hoje as sílabas da infância.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/11/2021


28.11.21

Morreste-me,

Como morrem todos os pássaros sem nome,

Todos, todos os pássaros de verdade,

Morreste-me,

Como morreu a saudade,

Como morreu a fome.

 

Morreste-me,

Como morrem todas as palavras angustiadas,

Como morrem todos os poemas envenenados,

Morreste-me,

Morreste-me,

Como morrem as madrugadas,

Como morrem os soldados.

 

Morreste-me,

Gaivota saudade,

Morreste-me,

Como morrem todas as tardes de Verão,

Morreste-me,

Morreste-me como morre a saudade,

Como morre um pobre coração.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/11/2021

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