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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.03.20

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Os livros dançam na paixão da manhã,


Envidraçada tempestade de areia,


O menino, sorri,


Canta canções de areia,


Grita,


Chateia.


O menino no circo,


De livro na mão,


Escreve um sorriso,


No chão,


Brinca, brinca com o livro de areia,


Não grita,


Agora,


Mas chateia.


O menino dos calções,


Correndo junto ao rio,


Em cio,


Em cio como as lâmpadas de néon.


Vende livros à porta da igreja,


Arrecada uns tostões,


Vai para o mar,


De bandeira na mão,


Deita-se na areia,


Já não chateia,


O menino dos livros,


Enquanto as gaivotas cantam,


E também elas gritam,


Canções de areia.


O menino está calmo,


Sereno com a tempestade,


Brinca, brinca na saudade,


Sem perceber,


Que nos livros,


Onde quer escrever,


Já não sonham;


Apenas brincam em canções de areia…


Nas canções de sofrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


31/03/2020


30.03.20

cemiterio.jpg


Alguém morreu, pensei eu, o portão do cemitério aberto, os pinocos anti estacionamento colocados a preceito para que ninguém se alicerçasse ao pequeníssimo espaço, tudo sinal de que haveria um velório.


Parei, peguei num minúsculo cigarro de fumo, folheei o Jornal Público e, sobre as árvores o silêncio dos pássaros, alguns, adivinhando qualquer coisa de estranho, talvez eles já soubessem que alguém se tinha despedido da realidade e enveredado pela sinfonia do Adeus, perguntei-lhes


- Quem morreu?


Que não sabiam, tinham acabado de regressar de viagem e, verifiquei três o quatro pessoal, vestidas de negro, que pareciam esperar alguém,


- Temos medo, Senhor,


Medo, perguntei eu?


Do vento, diziam eles, medo do silêncio e, das amendoeiras em flor,


Percebo, percebo, mentalmente refazia-me do susto de alguém ter adormecido durante a noite e ninguém à sua espera quando regressasse,


- Sabe, Senhor?


A morte é triste,


Pára um carro funerário, lá de dentro sai um caixão escuro, vestido de tristeza, as poucas pessoas que o aguardavam, choravam, em silêncio e, o mar estava longe, poisei o Jornal, deitei no cinzeiro a beata que restava do meu alimentado cigarro, apetecia-me acompanhar o velório, mas não o fiz, fiquei sentado,


Um dos pássaros começou a cantar:


 


Capitalista de merda


Mete o dinheiro no cu


Dá o dinheiro ao operário


Que trabalha mais do que tu


 


Vai o enterro a passar


Foi a filha do operário


Que morreu a trabalhar


 


Fiquei incrédulo, não acreditava no que acabava de ouvir, entre lágrimas, alguém desenhou um finíssimo sorriso de sangue e, entre o sol, as flores aplaudiam como se o cansaço das lápides estivesse a terminar,


- Acabou, acabou disse-me ele,


E, tudo acaba; entre silêncios e lágrimas de chocolate.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


30/03/2020


29.03.20

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São horas.


Trago nos pulsos a terminante esperança de caminhar junto ao rio. As luzes das palavras são a caminhada para o futuro, já não tenho medo de caminhar, Paris é lindo, são os poetas, como eu, são os pintores, como eu e, os livros, como eu.


Também eu sou um livro, talvez a poesia tenha acordado em mim, já cá estava, sempre esteve, e agora, voltou a acordar. São horas são horas de caminhar em direcção ao caminho que sempre quis percorrer.


Tenho saudades, mãe, muitas saudades das tuas mãos, quando a colocavas no meu rosto, cinzento, fumegante dos cigarros envenenados e, o pai inventava lágrimas no meu olhar. As ruas estão recheadas de gente, bonita, nova, sempre a correr em direcção ao nada, com fome de escreverem na palma da mão o cansaço olhar da melancolia madrugada, já não tenho medo, mãe, já não tenho medo de amar, sorrir e, correr.


No entanto, às vezes, o poço que existia, deixou de existir, cansou-se de mim, morreu. Paris, mãe, Paris é linda, subi à torre Eiffel, quase que te encontrei, mas não estavas lá, ontem fui visitar uma igreja, coloquei uma vela por ti e pelo pai, sei que tu sabes que eu, o teu querido filho, não acredita em Deus, mas tu acreditas, mas o pai acredita, espero que gostes.


São 20:00 horas.


Comprei alguns livros, sobre o Louvre e sobre a cidade de Paris. Sabes, mãe, sou louco por livros, sabes, mãe, gosto de escrever, e escrevo-te deste sítio belo e encantado, todas as noites, e tu vais ajudar-me a vender os meus livros, os quadros e, no entanto, as palavras são o bálsamo da minha estória.


São 20:00 horas, a caneta expressa-se, vinga-se nas minhas mãos e, as palavras soltam-se como uma bala disparada por um canhão de espuma. Desenho-te no meu peito, escrevo-te, sinto as ruas desertas e não consigo adormecer com o silêncio das lâmpadas do desejo, oiço a voz das tristes alegrias e, por vezes, oiço a tempestade, e todos os livros dormem.


Que saudades do Pacheco. Meu querido Pacheco! Que saudades…


São horas. São horas de dormir, de comer, de passear em todos os caminhos, sempre em desespero de conseguir acompanhar o sofrimento da minha alma. Os pássaros, mãe, os pássaros que habitam na minha mão e, talvez estas palavras sejam o princípio de uma história, um velho poema amarrotado, um silêncio disperso na madrugada ou, nada.


Que saudades, meu querido Luiz Pacheco, que saudades das tuas palavras, palavras que absorvo com a saudade, com o medo, da noite, e é na noite que me perco nestas ruas esfomeadas de luz.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Paris, 07/03/2020

...


29.03.20

(…)


 


Um par de cornos, um avental e uma faca do tamanho de um beijo, uma merda, a minha vida, a dela e a vida de quem não dorme…


Conhecia-a numa noite de Inverno, no planalto do desassossego habitavam as planícies da solidão, dias a fio encurralado numa jaula, à janela tinha a companhia da Gaivota Desejo, conheci-a numa noite de Inverno enquanto acendia a lareia, confesso, nunca tive, não tenho… apetências para lareiras, o meu caso é mais de insónias, tardes confusas


Confusas?


Sim, confundo o triste olhar do céu com os beijos da geada, sim, confundo os plátanos nus com a tua nudez… e que desperdício, o desgosto de acordar tarde, e tu


Sofrias de sinusite aguda, durante a noite não dormias, já dormes, meu querido? Não, não durmo, e de sinusite aguda transformou-se numa loba, tinha asas e voava sobre o Tejo,


E tu, e tu acreditavas que eu era marinheiro de profissão, tinha dois filhos e morava num cubículo recheado de velharias, alguns livros, dois ou três pratos e uma colher, a sopa infestada de sono, a sopa entranhada entre o ontem e o amanhã, não, não meu querido, não acredito numa só palavra tua,


Confusas?


Distantes e abstractas todas as minhas manhãs, conheci-a numa noite de Inverno, algas mortas, as profundezas da palavra acorrentada à lareira, bêbado, sou bêbado… cambaleava sobre a areia fina do destino, tinha dois filhos e morava num cubículo recheado de velharias, alguns livros, dois ou três pratos e uma colher, a sopa infestada de sono, o sono enfestado de sopa, e nunca vi o mar, meu querido, o mar…


Durmo!


À meia-noite regressava o eléctrico, descalça com os sapatos de salto alto suspensos no cansaço, vomitavas as dores do teu camuflado esqueleto pela manhã, vomitavas


Ela já foi dormir…


Vomitavas todos os gemidos da Sinfonia da paixão, acreditas, meu querido?


Fui despedido


Durmo! Ela foi dormir, ela quase nem me olhou


Boa noite…


Fui despedido e agora vou viver de esmolas e serviçais serviços, boa noite, ela já foi dormir, fui despedido como são despedidos todos os poetas, dizem que as mulheres têm o prazer de despedir poetas,


Foda-se o poema,


Boa noite…, nada mais, boa noite e partiu sem deixar rasto, algumas roupas, uma pequena pasta com alguns papeis e uma esferográfica, talvez comece a escrever, escrever-me definitivamente com o meu nome, endereço e rua,


Ela partiu, boa noite, cansaço o caraças…,


Um par de cornos


O caraças, tu andas é com algum Mânio, iletrado, dormir, fui despedido acreditando que levaria a vida de escritor,


Uma merda, escrevo uma merda e merda


Um par de cornos, um avental e uma faca do tamanho de um beijo, uma merda, a minha vida, a dela e a vida de quem não dorme…


A via não regressa mais aos teus braços, meu amor, sentíamos os gonzos da insónia acorrentados aos nossos lábios, o dia consegue alimentar-se das ardósias sonsas do olhar, a noite envergonha-se nos nossos medos, de amar, ser amado, amarmo-nos sem percebermos que amanhã o amor é uma lápide de lágrima, tive um sonho esta noite, estávamos sentados na saudade


Saudade, meu amor? Sim, sim meu amor, sentados na saudade, as cancelas da morte entreabertas, sentados na saudade,


Amanhã, meu amor, os pássaros brincando na janela virada para a Quinta, ao fundo o Rio, o Douro envergonhado galgando os socalcos do desejo, a vida


Não, não regressa mais aos teus braços


Meus amor?


Sim, claro, amanhã, amanhã sentiremos o odor dos sufixos aprisionados ao Dicionário da paixão, a encosta, o medo de perder-te, meu querido, enquanto lá fora a noite vomitava fotografias da tua infância,


Saudade?


Os brinquedos, os primeiros beijos e cartas de amor, o papel, os poemas em pequenos suicídios, milímetros de suicídio, aos poucos, a partida, o Adeus, a brincadeira,


Não, não meu amor, amanhã não


Não consigo absorver-te como te absorve a noite, as laminadas fragâncias enferrujadas no cabelo da invisível maré de Azoto,


Saudade?


Os brinquedos…


 


 


(…)


 


Francisco Luís Fontinha


In “Amargos lábios do Poema”


28.03.20

O tempo que passa,


Desassossega o desespero,


Finto a vaidade,


Perco o emprego,


Vagueio na distância,


Ilumino-me,


E, perco-me no cansaço dia.


Tenho pena,


Daqueles que por lá passaram,


E, desavergonhadamente,


Lá continuam,


Esperando as pedras que caiem do silêncio,


Aos poucos,


Em cio,


Os pássaros loucos,


No desvaneio da solidão.


O tempo passa,


A fome aperta,


Neste desespero acontecimento,


Dos novos marinheiros,


Entre sexos e chapas de zinco,


O rio, comem-me,


Quando a maré se abraça ao cansaço.


Todas as vezes, algumas, o tempo passa,


O mar envaidece-se de sonolências madrugadas,


Calcárias manhãs de Primavera,


Ao deitar,


Sobre o travesseiro da insónia,


Esqueço-me de acordar,


Tomo café, todos os dias,


E, vejo no jornal, a minha foto,


Necrologia,


Perdidos e achados,


Despeço-me,


Até logo,


Abraços.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


28/03/2020


21.03.20

Conheci a puta de uma laranja assassina.


O gesto de coçar os testículos,


Quando o Rossio entre orgasmos e gemidos,


Traz o cansaço,


Os berros,


E, os cubículos.


O restaurante, encerrado.


As putas em delírio,


Sem clientes,


Passam fome,


Deveras,


Quando a aldeia acorda.


E eu, aqui sentado,


Fumando cigarros de haxixe, toco clarinete,


Bombo,


Punhetas a grilos,


E, afins.


Se te podes revoltar, revolta-te,


Come tremoços,


Mija contra os postes de electricidade,


Vem-te,


Vai-te,


E fode-te,


Ao pequeno almoço.


As laranjas assassinas,


Na marmita do tesão,


O foda-se,


Então?


Ai Senhor,


As putas em delírio,


O cansaço delas,


Nas mãos calejadas do centro de massa…


A equação do caralho,


Lacrimejado,


Entre paredes,


E dias de desassossego.


Por isso não esqueço,


A maldade,


O sumo da laranja,


Quando assassina o sexo.


Morre o tesão;


Fodam, fodam, que agora é de graça,


E não digam a ninguém,


Contra os rochedos,


Marchar, marchar…


E, depois,


Não se esqueçam de encerrar a janela,


A fechadura,


Porque às vezes, parece,


Mas não o é,


Sempre, às escuras.


Faltou a luz,


Esqueci-me de pagar a electricidade,


Foda-se,


Vou mijar contra o poste,


E se não gostarem,


Acabou.


Fim.


Fodi-me.


Fui assassinado por uma laranja.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


21/03/2020


11.03.20

O tempo silencia os teus lábios de cereja adormecida,


Quando a nuvem da manhã,


Poisa docemente no teu sorriso;


Há palavras na tua boca,


Que absorvo com saudade,


E, nada me diz, que amanhã será uma manhã enfurecida pela tempestade.


Subo à sombra do teu olhar,


E, meu amor,


O cansaço da solidão deixou de acordar todas as manhãs.


Fumamos cigarros à janela,


Dentro de nós um volante de desejo,


Virado para a clarabóia entre muitas janelas,


Portas de entrada,


Escadas de acesso ao céu,


E, no entanto, o fumo alimenta-nos a saudade,


Porque lá longe,


Um barco de sofrimento, ruma em direcção ao mar.


É tarde,


A noite desce,


O holofote do silêncio, quase imparável, minúsculo, visto lá de cima,


Ruas, caminhos sem transeuntes, mendigos apressados,


Vagueando na memória.


STOP. O encarnado semáforo, cansado dos automóveis em fúria,


Correm apressadamente para Leste,


Nós, caminhamos para Oeste,


E, nunca percebemos as palavras que as gaivotas pronunciam,


Em voz baixa,


Com os filhos ao colo,


Sabes, meu amor?


Não.


Amanhã há palavras com mel para o almoço,


Dieta para o jantar,


E beijos ao pequeno-almoço;


Gostas?


Das nuvens da manhã?


Ou… dos pilares de areia que assombram a clarabóia?


Nunca percebi o silêncio quando passeia de mão dada com a ternura,


De uma tarde junto ao rio,


Ele, folheia um livro,


Ela, tira retractos aos pássaros,


E, porque te amo,


Também vagueio,


Junto ao rio,


Sem perceber o meu nome,


Que a noite me apelidou,


Depois do jantar,


Numa esplanada de gelo.


O ácido come-me, a mim, às palavras, como a Primavera,


Num pequeno quarto de hote,


Entre vidros,


Livros,


Palavras,


E, desenhos.


(aos depois)


Nada.


Brutal.


Os comprimidos ao pequeno-almoço.


Fim.


Amanhã, novo dia, nova morada, beijos,


Cansaços,


Abraços,


E, portas de entrada.


O amor é luz.


O amor são flores, árvores e, pássaros.


E pássaros disfarçados de beijos.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/03/2020

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