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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.05.17

As cordas da saudade são invisíveis nos meus braços,


Oiço o apito dos barcos apedrejados pela maré quando o meu corpo envelhece no teu peito,


Sou fraco, sou fraco como uma simples folha amarrotada de papel encharcado de lágrimas,


E lá longe, os livros entranham-se no meu olhar,


Dançam nas minhas mãos as cansadas palavras da vaidade,


Oiço, oiço a pobreza das ruas em flor,


Me mato, parto em direcção ao rio subterrâneo da solidão.


Desço ao poço do sofrimento como uma gaivota envenenada…


Bebe, bebe sem a noção do tempo embriagado pelo sangue,


E escreve uma carta de despedida,


Sinto o desejo enjoado pela ondulação das nuvens prateadas,


E esqueço-me da tua ausência…


Adormeço em ti,


Adormeço como um sonâmbulo ruivo construído de barro nauseabundo do silêncio,


Ergo-me diante do espelho,


Vejo um cadáver sem nome,


Perdi-me,


Envelheci nos olhos das flores abraçadas pela noite,


Envelheci nos olhos das pedras dos alicerces da penumbra,


Os barcos nas minhas veias encostados ao coração…


Eu criança,


E brinco com as algemas de alvenaria da brincadeira,


Como um puto deambulando pelas ruas, livre como um pássaro,


Lindo como o pôr-do-sol,


Quando os amigos se despedem da minha sombra,


Sinto no meu caixão o mar da saudade invisível nos meus braços…


E caminho sobre a areia adormecida da limpidez dos beijos que um caderno quadriculado guarda na algibeira do remoto silêncio das ruinas…


E o medo envelhece a tristeza da partida,


Sempre se perde nos sonhos escoriados das palavras deitadas na fogueira,


Há na tua morte um sentimento de esquecimento,


Uma palavra estonteante que se alicerça às tuas coxas…


E no caixão dorme o meu olhar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 28 de Maio de 2017


24.05.17

Os dias passados


Esqueleticamente abraçados aos dias sofridos


Quando bem lá no alto das montanhas cansadas


Os dias argamassados aos dias coloridos…


 


Safados.


 


Os dias perdidos na esplanada do adeus


Quando sobre uma pobre mesa de sombra, um livro, voa nos dias premeditados


Por uma lâmina finíssima de luz…


Os dias entre dias,


Os dias encalhados nos petroleiros da fortuna…


Os dias revoltados


Com a forma circunflexa do sangue perfumado,


O dia apaixonado,


Ou coisa nenhuma…


Os dias as mãos e as mãos dos dias,


A forca dos dias desesperados


Numa árvore dispersa na alvorada,


Há dias assim,


Como hoje,


Dias de alecrim,


Dias de clarinete…


E assim,


Os dias dos relógios moribundos,


Meu Deus! Meu Deus, tantos mundos…


Com dias,


Sem dias,


Cem dias dispersados pelas tristes avenidas dos dias desalmados,


E eu, minha querida, por aqui… brincando com os teus dias…


Os dias sem melodia.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Maio de 2017


20.05.17

Nas asas do teu ventre construi caminhos incertos,


Percursos amestrados suspensos na solidão de um bar,


Um copo explode, e morre nos meus lábios…


Ai como eu gostava de pernoitar nos teus olhos verdes!


Escrevia cartas sem remetente,


Palavras sem significado,


Abstractas cidades nos rochedos da morte,


Quando as ruas absorvem as pontes da liberdade,


Amar-te-ei?


Não o sei…


Regressa a noite ao teu sexo,


Funde-se no luar a escuridão das tuas coxas,


E o poeta desalentado, morre, parte para o infinito,


Sinto no teu perfume a fragância da manhã,


Levanto-me tardíssimo, ao pôr-do-sol…


A voz levita nos planaltos da inocência,


Vive-se caminhando na tua sombra doirada,


Uma varanda de néon com vista para o jardim,


Vive-se no insignificante sorriso da distância,


Lá longe, aí vem o levante sonolento homem da infâmia…


E esconde-se na tua pele.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 20 de Maio de 2017


13.05.17

Nada disto sonhei


Quando te abracei pela última vez,


Havia silêncio,


Havia uma imensurável espada de luz


Descendo o meu corpo desnudo,


Sabia que todas as palavras repetidas nas janelas do teu olhar


Eram apenas sombras debaixo do luar,


Um flácido orgasmo de solidão iluminava-nos


Nas ranhuras ténues dos túneis da vergonha,


Partiram, todos,


Hei-de escrever no teu peito o velho poema da solidão,


A passadeira encarnada pronta a ser pisada pela tua mão


Como um petroleiro em cio,


Hei-de esculpir nos teus seios a presença da minha ausência…


Um vazio poema arrancado da ingrime folha em papel,


O sono voltou,


E nada disto sonhei…


Afligi-me a paixão dos desertos,


Afligi-me o tempo perdido que a tua boca construiu neste muro em xisto,


Abraças-me pela última vez,


Havia silêncio,


E nada disto sonhei na áurea madrugada da morte.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 13 de Maio de 2017


06.05.17

Os dias entre dias


Nos dias sem dias…


Cem dias passaram


E sem noites


Cem noites me acorrentaram


Aos livros perdidos nos dias


Aos livros perdidos nas noites


Sem dias


Cem dias passaram


E sem noites acordaram


Os dias


Sem dias


E cem noites


Acordados


Nos escombros do papel queimado…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 6 de Maio de 2017


01.05.17

Recordo o teu olhar


Nas planícies das amoreiras ancoradas


Sinto no peito a alegria de sofrer


Enquanto o mar se despede de mim


Estou só!


 


Muito só!


 


As fogueiras da noite


Hipnotizam o suor cansado das madrugadas adormecidas


Os barcos em mim


As cordas em mim


E as âncoras da solidão descem-me pelo corpo bordado pelas tuas mãos…


Muito só!


Estou só!


 


Regressa a insónia nocturna da boca


Enquanto na taberna ele encharca o melódico corpo em papéis de uísque


E pedacinhos pigmentos de uma caneta envelhecida


Meu querido


Porque partiste?


 


As palavras em vão


As palavras embriagadas pelo teu sorriso


Navegando no meu peito


Sempre que uma nuvem me abraça,


 


Sem vertigens…


 


A voz sonolenta que desencanta a ferrugem dos teus cabelos


Na sombra de um jardim abandonado por ti


Sento-me no teu colo


Imagino o vento nas tuas coxas


Quando se diluem nas escarpas de um poema…


 


Estou só!


 


Muito só!


 


Invento pontes em esparguete para te fazer feliz…


 


O medo


As algibeiras desterradas nos rochedos da morte


Porque partiste?


Tínhamos tanto para desenhar no teu silêncio


Tínhamos tantos locais para aportarmos…


E partiste…


Estou só!


 


Muito só!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Maio de 2017

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