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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.04.17

O desgostoso ancorado


Autómato desajeitado das tardes infelizes


O corpo fumado


Entre paredes de xisto e perdizes…


Da montanha de areia


Descendo pela veia


No braço do enforcado


O desgostoso


E desamado


Feitiço da madrugada


O corpo encostado


Aos pilares sombreados da falsa calçada…


E do rio vem a semiófora rebelião do desempregado


Malditos carneiros


Pastando na planície do amortecido emplastro desassossegado


A fotografia rima com preto-e-branco


Mais branco do que preto


Os olhos pintados de sonâmbulas bolhas de luar


O desgostoso


E desamado


Feiticeiro da noite


Volátil cansaço dos silêncios abandonados


Quando regressam os rochedos


Aos claustros fumados…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Abril de 2017


29.04.17

Em direcção à morte


O vento se despede da solidão


Sem perceber que a manhã se suicidou contra os rochedos da insónia


A noite chegou


Trazia na algibeira o Universo remendado pelos papéis da agonia…


E um homem espera desesperadamente pelo seu amante,


Escrevo-te,


Junto ao mar


Os petroleiros do desejo em soluços


Como as estrelas pregadas no Céu nocturno das fotografias prateadas,


Escrevo-te,


Espero pela alegria da distância abrupta da imensidão do tempo,


Espero pela ausência do teu peito


Fundeado num qualquer porto esquecido numa qualquer cidade…


Em direcção à morte


Os alicerces do medo entre pergaminhos e livros de veludo


Correndo a calçada que abraça o rio,


A areia do teu corpo semeado nas mãos do teu rosto,


E não sabias que do fogo da inocência


Um suspiro se ergue até ao pôr-do-sol,


Desisto,


Sento-me no jardim com vista para a tristeza,


E um copo de uísque se despede de ti,


Até logo,


E escrevo-te nesta angustia de viver


No sonho do veleiro abandonado,


Fujo com o barco,


Deixo-te,


Abandono-te…


Sem perceber o desejo do meu corpo


Nos parêntesis da memória,


Escrevo-te,


Junto ao mar…


E escondo-me da tua sombra.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 29 de Abril de 2017


22.04.17

De tudo estou farto,


Às vezes, quando regressa timidamente o amanhecer, sinto as ruas sem saída desta cidade envenenada pelo tempo esquecido na minha mão,


Um livro desajeitado mergulha no olhar da tua presença, e ao longe, imagino as clareiras em construção que se afundam nos rochedos teus seios…


As noites são claras, as noites esperam-nos enquanto lá fora as gaivotas brincam nas tuas livres coxas,


De tudo estou farto,


Do deserto teu nome, do silêncio a tua amargura vestida de nada, e sei que nos trilhos da bênção existem sonolentas cabanas abandonadas,


Perdoa-me, e de tudo estou farto,


Às vezes, o nocturno vento inventando pálpebras de xisto, as janelas encaixadas no embriagado molusco da morte, de tudo estou farto…


Do corpo me afasto, do corpo me ausento saboreando a morte dos peixes sem nome, como se fossem caixotes de madeira com cabeças de ternura suspensas na cama da saudade,


De tudo estou farto, meu amor…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 22 de Abril de 2017


15.04.17

Deixo o meu corpo poisado na ribeira da solidão,


Suspenso no pesadelo da morte


Caminho pelas montanhas semeando espadas em granito…


E recordava a ruidosa noite dos corpos ensonados,


O cais onde habitavam os meus barcos parece uma cidade sem nome,


Distante da madrugada,


Descendo o rio até ao mar,


As gaivotas envenenadas pelas palavras amargas do teu sorriso,


E envelheci antes do teu regresso,


Vou à janela e sinto o raiar do amanhecer dentro de um livro apodrecido pelo tempo vazio da escuridão,


O amor não dorme mais,


Acorda-se enquanto as minhas mãos apalpam o olhar das tuas pálpebras nas paixões dos comboios entre sucata e pequenas miudezas, a algazarra dos teus gemidos inclinados no sótão dos cigarros inacessíveis nas nocturnas avenidas do desassossego,


Sou um palhaço embalsamado pelos relógios em suicídios soluços, uma arvore recheada de lentidão, a traição do corpo poisado na ribeira da solidão,


Tragam-me o escuro poema com asas em papel, tragam-me a rapidez dos alicerces do vento antes de apodrecerem as pontes imaginárias, e foi-se a idade, deixei de pertencer-te…


Deixei de amar-te.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 15 de Abril de 2017


11.04.17

O dia vai longo, meu amor,


É quase noite e vejo-me enrodilhado de palavras órfãs que se masturbam junto à paragem do eléctrico,


Dos poucos livros que me restam apena o “fugitivo” ficou a acompanhar-me,


Dizem todos que sou louco, meu amor,


Porque gosto mais de brincar com as palavras do que jogar futebol na areia da parai, onde em criança, esquecia-me das tardes no Mussulo,


O destino vingou, das minhas mãos deixou de haver areia húmida e pedrinhas… que deitava escrupulosamente para um balde em plástico e depois enchia os bolsos de recordações,


O teu olhar, meu amor, na ausência das pálpebras incendiadas pela escuridão,


Ao longe um comboio recheado de crianças e palavras,


Barulhentas, brincalhonas como são as árvores no Outono, diariamente sinto no corpo o dardo envenenado dos teus lábios, quando sei perfeitamente que o amanhã não existirá mais…


Hoje pertenço-te…, hoje pertenço-te e pertenço-me, somos dois catetos galgando as tristes paredes de xisto da tua boca, vim de longe, segredei-te sem perceberes que eu te mentia, nem à hipotenusa consegues chegar… quanto mais a cateto…


Ou a triângulo rectângulo…


O dia vai longo, meu amor,


É quase noite nos meus olhos, e lá fora uma velha cancela geme, os pregos enferrujados, as ripas entrelaçadas num emaranhado de sombras regressadas do Além…


Roço-me no teu corpo e morro.


Abraço-te.


Sem dizer ou escrever que te amo…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 11 de Abril de 2017

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