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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.03.17

No corredor aglomerados de aço


Cadáveres de barcos


Braços


Sombras de amor embalsamadas


Passeando na réstia manhã adormecida


Lá fora o mar entranhado nas ervas esquecidas pelo Criador


Chove


Há nas quatro paredes invisíveis


Gotículas de uma lágrima sem nome



Em direcção ao infinito


Os gemidos


A fome disfarçada de noite


Lá fora o mar


Pintado no térreo pavimento da dor


Não há palavras


Poemas


Textos


Nada


Nada


No corredor


Aglomerados


Aço


Enferrujado


Velho


Sem saber a que cidade pertence


A idade


A idade em corrida


Tropeça na Calçada


Dorme


Acorda


E finge…


Finge não ter medo da madrugada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


19.03.17

Imagino os teus olhos lacrimejantes nas paisagens do Congo,


Transportavas no corpo as serigrafias do sono…


Que apenas um rio te separava da inocência,


Tinhas na algibeira os cigarros e a fotografia da tua mãe…


Inventavas poemas com palavras esquecidas no capim,


Que o cacimbo apergaminhava na aventura da escuridão,


Lá longe ficava a barcaça imaginária de um dançarino obsoleto,


Sentavas-te nas montanhas da tristeza e rezavas,


Rezavas pela melancolia dos destinos transparentes do olhar de uma serpente,


E nunca percebeste que eu um dia eu te recordaria como um sonâmbulo obscuro,


Que transporta os alicerces de uma cidade em pó…


E em pó te transformaste.


 


 


Francisco Luís Fontinha


19/03/17


18.03.17

Um beijo que o silêncio madrugada


Afaga na escuridão da ausência,


As silabas estonteantes do sono


Que adormecem nas velhas esplanadas junto aos rochedos,


Vive-se acreditando na miséria do sonho


Quando lá fora, uma árvore se despede da manhã,


Um beijo simples,


Simplificado livro na mão de uma criança,


Um beijo,


No desejo,


Sempre que a alvorada se aprisiona às metáforas da paixão,


Sinto,


Sinto este peso obscuro no meu coração,


Sinto o alimento supérfluo da memória


Quando as ardósias do amanhecer acordam junto ao rio…


E na fogueira,


Debaixo das mangueiras…


Os teus lábios me acorrentam ao cacimbo,


Sou um esqueleto tríptico,


Um ausente sem memória nas montanhas do adeus,


Um beijo que o silêncio madrugada


Afaga na escuridão da ausência,


A uniformidade das palavras


Que escrevo na tua boca,


Sempre que nasce o sol


Sempre que acordam as nuvens dos teus seios…


E um barco se afunda nas tuas coxas,


Oiço o mar,


Oiço os teus gemidos na noite de Lisboa…


Sem perceber que és construída em papel navegante…


Que embrulham os livros da aflição,


Um beijo, meu amor,


Um beijo em silêncio


Galgando os socalcos da insónia…


Vivo,


Vive-se…


Encostado a uma parede de vidro


Como leguminosas no prato do cárcere…


Alimento desperdiçado por mim.


Desamo.


Fujo.


Alcanço o inalcançado…


E morro.


 


 


Francisco Luís Fontinha


18/03/17


16.03.17

Saboreei a paixão convexa do desejo
Percorri os caminhos esconderijos do sofrimento
Como os livros que escrevi
E os que não quero escrever…
Saltei a ponte do esquecimento
Num voo frenético nunca antes alcançado
Em direcção ao mar
Em direcção ao abismo
Senti no corpo o peso do amanhecer
Senti nas mãos a enxada da vergonha
Descendo socalcos
Saltando montanhas desenhadas…
E as palavras
As palavras do sono inventando pálpebras de xisto
Como se inventam os rios
Quando cai a noite sobre a escuridão.


Francisco Luís Fontinha
16/03/17


12.03.17

Há sempre uma porta encerrada


Nos fragosos lábios da madrugada


Uma canção desesperada


Ou um poema envenenado pela alvorada…


 


Sinto o peso do corpo nas lápides do xisto amanhecer


Que uma enxada revoltada consegue levantar


E nas palavras ficam o ser


O ser amaldiçoado do mar


E o amar?


Uma jangada que levita sobre as montanhas de brincar


E só uma criança sabe desenhar


Sobre a fina areia do sonho despertar


Depois o sono que aparece na janela do sofrimento


Como palmadinhas secretas de vento


Contra o meu olhar desonesto e profano


Há sempre uma porta encerrada


Ou um veneno…


Há sempre nos fragosos lábios de incenso


Uma porcelana palavra em lágrimas


Que morrem no livro sagrado


Amado


Desamado…


Alimento-me do teu sorriso leviano


Que numa qualquer página de jornal adormece


E esquece


O significado alterno do amor secreto…


O dia que não morre mais nas minhas mãos de silício


E do silêncio o suicídio anunciado


Uma faca apontada à minha sombra enfeitada de farrapos


Trapos


E velharias tantas… que esqueço o lençol do luar


Nas avenidas nuas desta cidade endiabrada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


12/03/17

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