Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


07.04.16

Na longitude do amor


Desenho a cabana do sofrimento


A saudade regressa do infinito ausente musseque


Procuro os pequenos charcos da infância na algibeira do tempo


Queria ser gente


Correr


Saltar


Brincar no teu olhar como brincavam as gaivotas sobre o meu cabelo


Habitar nas tuas mãos com que afagas o meu olhar


Sentar-me nos jardins inventados pela escuridão da paixão


A solidão vive


Absorve-me como absorve as tempestades


O silêncio do medo agarrado ao meu corpo sonolento


Os meus ossos ficam colados no espelho dos tristes dias ausentado


Como uma fotografia sem ninguém


Cubro-me pela madrugada em construção


Sonho


Vivo sonhando com papagaios em papel


Imagino-me no parapeito de uma janela gradeada pelas sombras do abismo


O amor morre


Morre como morrem os fantasmas do amanhecer antes de ir para a escola


Sou um marinheiro desempregado


Passo os dias junto ao mar na ânsia que alguém me venha procurar


E novamente saltito nos charcos dos musseques de zinco


O medo


O medo de não regressar nunca


Às palmeiras de cartão


 


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 7 de Abril de 2016


06.04.16

sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


escondo nas mãos o luar nocturno da solidão


dos tristes pássaros do meu jardim


escrevo-lhes e converso com eles


a minha presença incomoda-os


e pareço uma imagem aprisionada num hipercubo de sombras


sonhos


rios infindáveis


palavras esquecidas no vento


correndo nas minhas veias de vidro martelado


o opaco desejo nas madrugadas embriagadas pelas andorinhas


o silêncio abraçado a uma árvore


sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


aos poucos vejo o teu olhar sentado sobre o meu peito doente


como se existissem roldanas de cartão


na pele que me alimenta


sou um aldeão sem aldeia


mas das montanhas


regressam os homens do coração granítico


que trazem a noite


e me roubam as palavras


depois a tua boca entrelaçava-se na minha


um fino sorriso de nylon brincava na janela virada para o mar


os barcos encalhados nas tuas coxas


em pequenos apitos sonâmbulos


uma casa em chamas


dois corpos em chamas dentro da casa em chamas


o farol lá longe


guiando-nos até ao infinito


a morte


a paixão laminada pelos orifícios do deserto


sinto-me um prisioneiro esquecido num qualquer porto de mar


cordas


correntes de luz dificultando-me a mobilidade das palavras


os livros também em chamas


na casa em chamas


com dois corpos em chamas


o inferno inventando o suor do teu corpo


as asas que te levam para o Céu


também elas em chamas


a fogueira dos nossos cadáveres sobrevoando o horizonte


descemos a calçada


sentamo-nos junto ao rio


dois condenados ao amor impossível


às cartas nunca escritas


o amanhecer quase a chegar


nos teus lábios as pedras preciosas da saudade


há tanto tempo com esta enxada rosada na mão calejada pelas pálpebras do incenso


há tanto tempo


aqui


sem ninguém


 


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 6 de Abril de 2016


04.04.16

perdi-me nesse túnel de xisto


acorrentado ao rio encurvado nos teus seios


socalco após socalco


desço até ao poço da tristeza


escrevo nos rochedos


os caracteres mutilados do sonho


oiço os gemidos de um corpo esquecido no regresso do pôr-do-sol


imagino-me dentro desse corpo de dor


como se fosse a minha última palavra


entre ossos sem remetente


ou destinatário


deixei de receber cartas


pequei nas que tinha escrito na infância e transformei-as em cigarros coloridos


papéis que ardem no comportamento da memória


estou cansado de me perder


e de ser achado pela madrugada


junto a um qualquer apeadeiro deserto


aqui morreram os comboios


aqui morreram os meus pequenos sonhos


derramados pelas âncoras do desejo


na alvorada


não tenho tempo para recordações


não tenho tempo para corações de geada


quando hoje o túnel de xisto


habita esta cidade de cadáveres sem ninguém


ausentes


empobrecidos pelo tempo


não dou conta do adormecer das horas


não tenho horários


sentimentos


nem pulso para suportar um simples relógio de corda


morreram os relógios


e morreram os pulsos que se acorrentam aos relógios


sem remetente


ou destinatário


 


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 4 de Abril de 2016


03.04.16

o peso do corpo


quando o corpo se ausenta da realidade


a morte vulcânica do sentido proibido da vida


os tristes pássaros empoleirados nas avenidas sem destino


a lucidez do alpendre da solidão


caminhando calçada abaixo


os ossos


o pó dos ossos


manchado nos camuflados risos da manhã


ao teu lado


oiço amo-te


ao teu lado


oiço-te desejo-te


mas a madrugada roubou-nos o desejo


tenho uma estrada abandonada


nos abismos da madrugada


o silêncio enraizado na melancolia do suor teu corpo


a alegria


sentindo a solidão dos obscenos corpos de nata


há-de viver em mim a mulher desenhada nos espiões da noite


o amanhecer morre no ínfimo acreditar da noite


tenho sono


meu amor


amanhã viverei no teu corpo


amanhã sentirei o teu corpo


fatias finas


papel amargurado


nas algibeiras dos corpos suicidados


a morte


os amigos da morte


na ambição do sonífero sonolento


hesito


morro


neste barco de sentinelas amordaçados


o tempo


sempre ausente de ti


enigmático coração de vidro


sofro


deixo-me sofrer pelos teus lábios


os beijos


o comboio em direcção ao nada


transeuntes acabrunhados


que só o vento desenlaça na porta de uma casa de alterne


o medo da morte


a embriaguez dos rostos maltratados


que os livros comem ao pequeno-almoço


são horas de partir


meu amor


a ausência do cachimbo oco que habita a minha mão


a ausência do olhar


correndo em redor do mar


a cerveja quente o uísque alicerçado às minhas costas


fumam


comem cigarros livros de papel fumado


a noite é um corrupio sonolento da alma


amei-te


quebrado nas montanhas da solidão


este magro corpo acordado do sono


este magro sono acordado no magro corpo


gosto de ti


dos teus olhos vestidos de noite


entre parêntesis


snob


sono da alegria de morrer


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 3 de Abril de 2016


02.04.16

Sofro por ti meu amor


Sinto a tua mão no meu rosto cansado pela doença


Sinto no meu corpo


As marras do destino


Habito em ti


Sou pedaço do teu cansaço


Livro das tuas palavras


Algumas parvas


Algumas insignificantes


Sofro o derradeiro sofrimento


Que as marés do inferno me trazem


Não tenho medo da tua partida


Não tenho medo da tua ausência


Suicido-me nos teus lábios


Acabrunho-me nas imensuráveis paixões dos poços da morte


Estou só meu amor


Partiste sem me avisar


Naquela noite das sombras do esquecimento


Suicido-me no teu perfume


Caminho calçada abaixo


As rosas da melancolia


As raízes dos soníferos orgasmos da manhã


Fugidios corações de aço


No corpo debruçado sobre o parapeito do desejo


Estou cego meu amor


Os dias tristes da tua ausência


Ao longe os apitos da locomotiva do adeus


Nunca mais quis o amor


Nunca mais quis a infância desenhada em Luanda


Perder-me numa Alijó encurralada no esquecimento


O frio


O frio disfarçado de abismo


O amor regressado do mendigo palhaço do deserto


Saber que amanhã estou só


Eu


A noite


O amontoado de sucata


As árvores do teu sorriso


Estou só



Só neste sargaço da sonolência do labirinto de asas


Pássaros enraivecidos


Limitados pela cabeça do sono


Tenho medo meu amor


Tenho medo da madrugada


E acreditar que estás vivo


Ao meu lado


Esticando o dedo…


Então engenheiro!


Não tenho palavras do suicídio fictício da minha vida


O Tejo peneirento algures nos teus lábios


Estou feliz hoje


Permaneço no esquadro envidraçado do teu olhar


Meu amor


Me encontro encurralado no esquecimento


Submersos esqueletos de gelatina


Ao espelho


O meu corpo envidraçado


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 2 de Abril de 2016


01.04.16

uma flor em solidão


alicerça o seu perfume no meu corpo rasgado pelas andorinhas


velhos farrapos voam em direcção ao mar


sussurram palavras desamadas


em construção


no papel em destruição


habita o meu olhar


tenho tudo


e não tenho nada


tenho uma mãe


tive um pai


tenho pão


livros


e nada me falta


pego nas esferográficas do amor


sou feliz


deambulo pelos jardins desta cidade envelhecida


não tenho medo das tuas mãos


tenho uma mãe


tive um pai


nada tenho


e nada me falta


uma flor em solidão


cravada no peito


sangro


sinto a dor dos Oceanos prateados


sinto a dor dos barcos ancorados


escrevo


escrevo nas velas de um velho veleiro


o poema da flor em solidão


e a morte separa-nos


eleva-se ao decimo quinto andar esquerdo do silêncio


e abraça-se no horizonte


e dorme junto às tuas pálpebras de solidez paixão


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 1 de Abril de 2016

Pág. 3/3

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub