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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.04.16

A desordem das coisas


Quando as roldanas da saudade invadem a noite,


Levam-me o sono,


Levam-me a alegria dos sonhos


Enquanto lá fora a ténue madrugada grita sozinha.


Não.


Avisto os rochedos cravados nos socalcos da insónia,


Visto-me de branco,


Alimento-me das palavras semeadas pela enxada da solidão, amanhã,


Um pedaço de terra tapar-me-á como se fosse um lençol de linho,


Branco e fino,


Com desenhos abstractos que só eu consigo ler,


Não.


A hipotenusa acorrentada à tangente do sofrimento, o seno do desejo, algures encurralado dentro do triângulo rectângulo, e um vício de seda entranha-se no teu corpo,


A geometria da ausência sente-se nos teus lábios,


A recta do amor escondida na mão dos cristais de prata,


Não, não, a fotografia minha despede-se do silêncio,


Oiço os apitos,


Oiço os navios que partem para o desconhecido,


Não. Não.


A desordem das coisas


No limite da escuridão,


O alpendre submerso pelas abelhas que procuram a minha fotografia, não, não preciso de mel, não, não preciso do mar e dos rios sem nome,


Porque amanhã, um pedaço de terra tapar-me-á como se eu fosse uma pedra sonolenta, triste, recheada de olhares sem amanhecer,


Não.


Não.


 


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 14 de Abril de 2016


12.04.16

Deixei de contemplar o teu perfume.


Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas


Que assombram o meu sorriso,


Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra


Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,


Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.


Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…


Não sei, não sei se existes,


Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,


Mas não acredito na tua presença,


Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,


Desisto?


Desisto.


Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,


Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,


Lamento-me,


Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o


Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,


Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,


Desisto?


Desisto.


Esqueço-me de ti,


Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,


Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,


Pareces a morte,


O silêncio disfarçado de morte,


E depois


E depois deixei de contemplar o teu perfume.


 


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 12 de Abril de 2016


11.04.16

Sou um falhado


Inventor de sonhos sem solução


Mendigo


Cansado


Farto de ouvir esta canção,


 


Sou um falhado


Diplomado em escuridão


O amor se ama


Amar não amando


Um triste e pobre coração,


 


Sou um falhado


Um transeunte que teima em se esconder


Não sei de quê


Nem de quem…


Mas aos poucos fico sem palavras para escrever,


 


Restam os livros deste falhado


Que sou eu


Criança sem Pátria


Um apátrida revoltado


A caminho do Céu,


 


Sou um falhado


Um cabrão à porta da morte


Bebo


Fumo


E espero pela sorte…


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 11 de Abril de 2016


10.04.16

Assim permaneço inconstante


Neste lugar habitado pelos silêncios das amoreiras


Finjo ser feliz porque minto


E mentir faz parte da minha solidão


Fujo


Regresso


Permaneço inconstante na plenitude dos teus braços


Amargo sofrimento das fotografias onde morres


E sofres


Nesta cidade de sonâmbulos


O espelho da insónia


Pregado ao meu corpo


Assim permaneço inconstante


Com medo


O sofrido doente


Neste esconderijo


Fiquei desanexado do presente


Fugitivo da morte


Hoje não sei se te amo


Talvez nunca te amei


Porque o amor é-me estranho


Um ser prepotente


E ausente


De mim


Um esqueleto de palavras incertas


Uma máquina de roldanas fictícias


O livro em acabamento


Com todas as suas personagens


Lá fora


Meu amor


O nada


A absurda escuridão vestida de mar


O semáforo da paixão entre verdes e encarnados


Paro


Inclino-me para o desassossego


As manhãs dos teus lábios


Argamassados pelo colorido beijo


O livro vive


Dentro de mim os parafusos da melancolia


As porcas do cintilante pássaro da madrugada


A paixão novamente no ventre da solidão


Que o tempo há-de levar


As ruas desertas


As casas invisíveis


Como gargantas em granito


Procurando o pôr-do-sol


Ausento-me de ti


Sei que amanhã estarás a ler a minha lápide


Amaste


Não amei


Desamaste em poucas horas


Para voltares aos meus braços


O caminho deserto do silêncio


A rua sem transeuntes envergonhados


Amo-a sem o saber


Ou querer


O sítio esquelético da minha sombra


Em busca do privilegiado tesão do amanhecer


Durmo


Ajuda


Ajuda


A calçada dos ventres desventrados dos destroços de prata


Amo-te


Sem saber a razão


Cintilam em mim os terramotos da lentidão sonolência da sorte


Ausento-me


Corres


Amas-me como eu amo estes livros


Estes cadernos


Estas sebentas encurraladas na escuridão


Regressa o sono


Regressa o desejo das Calçadas envidraçadas pelo engate de um puto


A ressaca


A ressaca dos amigos


Quando ninguém habita o meu coração


Sem ajuda


Com Ajuda


Belém enraizada no meu corpo


Nos meus ossos


Na minha boca entrelaçada nos teus seios


Pássaros


Árvores


E gaivotas


Nos meus restos mortais


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 10 de Abril de 2016


08.04.16

ela partiu numa manhã de neblina


levava na bagagem a solidão dos dias e das noites acorrentada à minha mão


olhou-me pela última vez


(alguma vez te disseram que tens o coiso grande?)


Disse-me adeus


E quando alguém nos diz adeus é para sempre


Aos poucos desapareceu na neblina


Sentei-me num banco de pedra


Cruzei os braços


Puxei de um cigarro na esperança que alguém me oferecesse lume…


Pequei num livro que ela me tinha oferecido no dos outros encontros furtivos


Sempre em esconderijos


E vi o mar deitado a meus pés


Que mais eu poderia querer?


neblina


sentado


um livro


e uma ausência programada


a falsa partida


o dia mais feliz da minha vida


saltava


dançava de alegria


esta finalmente livre…


e foi a manhã mais linda de Lisboa


num qualquer Novembro cinzento e escuro


as gaivotas poisaram sobre mim


transeuntes sorriam-me e eu sorria-lhes


a felicidade era tanta que tinha medo de ser mentira


felizmente


não o era


tinha-me libertado da menina mimada


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 8 de Abril de 2016


07.04.16

Na longitude do amor


Desenho a cabana do sofrimento


A saudade regressa do infinito ausente musseque


Procuro os pequenos charcos da infância na algibeira do tempo


Queria ser gente


Correr


Saltar


Brincar no teu olhar como brincavam as gaivotas sobre o meu cabelo


Habitar nas tuas mãos com que afagas o meu olhar


Sentar-me nos jardins inventados pela escuridão da paixão


A solidão vive


Absorve-me como absorve as tempestades


O silêncio do medo agarrado ao meu corpo sonolento


Os meus ossos ficam colados no espelho dos tristes dias ausentado


Como uma fotografia sem ninguém


Cubro-me pela madrugada em construção


Sonho


Vivo sonhando com papagaios em papel


Imagino-me no parapeito de uma janela gradeada pelas sombras do abismo


O amor morre


Morre como morrem os fantasmas do amanhecer antes de ir para a escola


Sou um marinheiro desempregado


Passo os dias junto ao mar na ânsia que alguém me venha procurar


E novamente saltito nos charcos dos musseques de zinco


O medo


O medo de não regressar nunca


Às palmeiras de cartão


 


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 7 de Abril de 2016

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