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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.11.15

O amor é um cubo de vidro sem coração


Ama a luz


Odeia a escuridão


O amor é um covarde diplomado


Faz sofrer


O amado


Faz sofrer quem é amado


Felizes aqueles que não amam


Felizes aqueles que não são amados


Pelo amor


As pálpebras secretas da noite


Quando a fogueira do desejo invade a madrugada


Quando a morte traz a saudade


De um corpo


Entre ossos e sombras


Entre palavras e livros


Faz sofrer o amado


Faz sofrer o sofrido


O amado


Faz sofrer quem é amado


Ama a luz


E os candeeiros da solidão


O amor é um cubo


Hipercubo


Um gato


Sem nome


Um rochedo perdido na montanha do Adeus


Partiu de mim o amor


Ama a luz


E faz sofrer


O amado


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 30 de Novembro de 2015


29.11.15

Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


Sento-me e espero o regresso do teu olhar


Que vem do outro lado do Oceano


Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados


Trazes-me a voz e o desejo


E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim


Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade


Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados


Espera-te junto a um portão imaginário


Entras


Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face


 


Não tenhas medo do mar


Nem dos barcos invisíveis


Não tenhas medo das árvores


Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras


Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria


Depois vais conhecer o amor


E a paixão de amar


E a solidão do amanhecer


Estou só


Neste labirinto de lágrimas salgadas


E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…


Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


29.11.15

A tua ausência alicerça-se ao meu coração, penso em ti meu querido, recordo-me da tua mão entrelaçada na minha, víamos os barcos, brincávamos nas areias brancas do Mussulo, e perguntava-te


Porquê pai,


E perguntava-te a razão da saudade embainhada nos livros não lidos, e perguntava-te quando partias… e tu, e tu sorrias… sabias que partias, mas nunca mo disseste, covarde, medo de partires sem me avisar, isso não se faz, meu querido


Sentia a tua voz poisada nos meus ombros, pedia a Deus, eu teu filho Ateu, que me desse todas as forças possíveis e imaginárias para te proteger, desculpa, não fui capaz, também eu um covarde diplomado, poeta, sentinela da noite,


Isso não se faz, vais, não voltas, e deixaste de conversar comigo, covarde, partiste sem me avisar, foste, amanhã, amanhã nada, nunca, nunca acreditei na tua covardia, mas traíste-me


Foste, nada me disseste, deixaste-te ir… eu vi-te, lembras-te, meu querido,


Amanhã, meu filho,


Amanhã, amanhã meu querido…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 29 de Novembro de 2015


28.11.15

Escrever-te


Sem saber que te escrevo


Nunca quis escrever-te…


Sabendo que o devo


Fazer


De vez em quando


Escrever


Te escrever


Sem o fazer


Fazendo não o querendo


A água a luz o mar e o vento


Alimentam-se dos nossos corpos felizes de sofrer


Às vezes sofremos


Às vezes inventamos que sofremos


Depois regressam as palavras de escrever


E as palavras de sofrer


E ficamos


Aqui


Impávidos


Deitados nesta secretária velha em melódico pinho…


Escrever-te


Sem saber que te escrevo


Nunca quis escrever-te…


Sabendo que o devo


Fazer


Te escrever


Sem o fazer


E no entanto


Escrevo-te


Pensando que não o sei fazer


E faço-o


E escrevo-te…


Não escrevendo


O escrever


Antes de morrer.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sábado, 28 de Novembro de 2015


27.11.15

Enclausurado neste convento de paredes rochosas


O meu corpo pertencendo às tuas garras de marfim


Sentinela das planícies de capim


Em busca dos pássaros assassinados por uma louca mão…


A eira sentindo o esqueleto do frio


Escorrendo nas frestas da solidão


Os barcos sem rio


O rio sem mão


Nas tristes flores pegajosas


Que a madrugada alimenta


São as noites rugosas


Que o meu coração desalenta.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sexta-feira, 27 de Novembro de 2015


25.11.15

O perplexo sentido da fuga


Do corpo em translação


O abraço submerso


Nas marés de ninguém


Acordar


Acender o último cigarro da vida…


Escrever o poema nas tuas pálpebras incendiadas pelo desejo


Que só a minha mão o sabe fazer


Ler-te o último parágrafo do meu livro


Oferecer-te um beijo


E partir sem regresso


Ao teu olhar


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 25 de Novembro de 2015


24.11.15

Esta jangada que me transporta


Para os teus braços de alento


Sem água


Sem vento


Esta jangada morta


Na planície do pensamento


Espera o regresso da noite


Ergue-se no limiar da pobreza


Como se a beleza do corpo ardente


Fosse uma estrela em papel


Desfeita em pedacinhos


Na solidão fogueira…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


terça-feira, 24 de Novembro de 2015


23.11.15

Tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, alguns caixotes desaromados, alguma roupa e um sonho, acreditávamos no amanhecer junto à geada, a esfera do caos esbranquiçada poisada na nossa mão, eu era uma criança mimada, filho único, Africano de nascença, apátrida e desapontado pelas raízes do poder, tinha medo, meu pai, tinha medo da tua terra…


E sem o perceber


Assim temos mais prazer, penso nos teus seios, imagino os teus broches literários sobre a velha secretária em madeira, gemes, ouvem-se os gonzos da solidão salitrarem sobre a cancela da noite,


E que noite, meu amor, e que noite,


E sem o perceber acordei junto a um dos caixotes, sentia o vento do mar a entranhar-se nos meus frágeis ossos, chorava, gritava… nem um mabeco em meu auxílio,


E sem o perceber, tínhamos uma nuvem de silêncio no nosso quarto, andorinhas e algumas bugigangas trazidas do outro lado do rio, e soníferos beijos, lembras-te, meu amor, o cheiro intenso da madeira envelhecida e triste, os pregos enferrujados de tédio, e algumas frestas de solidão, ninguém, ninguém imagina este concerto de sons melódicos e metálicos do sofrimento, a morte, a ressurreição e a alvorada,


A tristeza de não saber quem és…


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

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