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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.08.14

Este xisto onde me deito


E confesso os meus sonhos invisíveis,


Esta caverna sideral com clarabóias sombreadas,


Este medo de me perder na floresta dos bichos…


E este rio…!


Este rio com sabor a saudade,


Esta vida mergulhada numa cidade


Inventada,


Este xisto,


Esta montanha recheada de vaidades,


Estes pássaros que se alimentam dos meus ossos…


E me transformam em cadáver,


 


 


Este xisto e este cansaço


Que me suspendem nos rochedos do amanhecer,


As ondas que não cessam de brincar


No meu peito de sofrer,


 


 


E este abraço,


E este xisto rosado nas pálpebras da madrugada,


Esta estrada sem saída,


Esta rua deserta com palhaços,


Este xisto onde me deito


E um trapezista louco se abraça aos meus cabelos,


Este circo,


Este circo sofrido voando nos lábios dos socalcos envenenados…


Estes homens enforcados,


Este xisto,


Este xisto derretido em bocados,


Que se alicerçam aos meus segredos…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014


27.08.14

Orvalhara o feldspato frio do meu peito,


Inventaste a manhã para me obrigar a acordar,


Roubaste-me os sonhos que embrulhavam a noite de carvão…


Semeaste nos meus braços o desejo,


Plantaste em mim a flor proibida,


Plantaste em mim o jardim dos beijos,


 


 


Escreveste nos meus cabelos “amo-te”…


Quando do açafrão o amarelo amanhecer penetra o meu olhar,


Sinto as minhas pálpebras de papel voarem em direcção ao mar,


Sós…


Como se elas fossem o feldspato frio que se acorrenta ao meu peito,


E sei que me olhas enquanto escrevo,


 


 


Roubaste-me todas as canetas de tinta permanente que habitavam em mim,


Escondeste os livros e as sebentas do meu cansaço,


Guardas dentro de ti a chave do meu coração…


E apenas me deixaste os cachimbos adormecidos que a madeira apodrecerá,


Sem que uma fina lágrima se agarre ao espelho das tuas coxas,


Sós…!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014


26.08.14

Habita em nós uma jangada de silêncio,


permanecemos imóveis sobre as asas do vento,


pertencemos às rectas paralelas que se abraçam no infinito...


e se amam,


e se beijam,


somos a geometria nocturna do prazer,


às vezes só a cidade existe entre os nossos corpos,


às vezes... às vezes eles tocam-se e uivam sorrisos de neblina,


habita em nós a preguiça de acordar,


dizem-nos que lá fora chove, dizem-nos... dizem-nos que somos dois pássaros vadios,


em cio,


como este rio que nos engole,


 


Habitam em nós os tentáculos de silício com lábios de gelo,


procuramos o esconderijo de amar,


e ninguém...


e ninguém sabe o significado de “sílaba tonta”...


 


Escrever em ti,


como se deixasses de pertencer à jangada de silêncio...


e se amam,


e se beijam,


os nossos corpos argamassados pelo desejo,


viver...,


e se amam,


e se beijam...


os poemas esculpidos nos teus seios,


habitam em nós os moliceiros,


e um marinheiro nos guia até à eternidade...


e nos engana, e nos absorve... como se fossemos duas estrelas de suor...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 26 de Agosto de 2014


25.08.14

Lapido-te,


Do barro crescem os teus seios de amanhecer,


Doces,


Baloiçando nas arcadas do Poente,


Transformo-te em ponte,


Pinto-te de esplanada junto ao Rio…


Lapido-te,


E entranho-me no barro teu corpo,


Viajo,


Como um velejador solitário,


Tu…


E eu…


 


 


Lapido-te,


Sabendo que lá fora há fome,


Miséria…


Guerras…


Mas… mas lapido-te como se fosses um diamante raro,


Inacessível,


Como as palavras que te penetram enquanto dormes…


Lapidando-te… lapidando-te sem o sentires,


Como a película do teu púbis mergulhada em sias de prata,


Ténue caravela dançando nos meus braços,


Lapidando-te,


Nas asas da noite envergonhada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 25 de Agosto de 2014


24.08.14

Sou o legítimo dono da noite,


sou o candeeiro onde se esconde o mendigo,


o rio que não corre para o mar,


sou a ponte frágil em madeira que antes de ser ponte...


um caixote,


o cofre das minhas recordações,


as imagens,


os sons e os cheiros de uma terra que não existe mais...


 


Sou a videira que morreu no socalco,


sou o socalco que tombou...,


sou o cansaço legítimo e dono da noite,


a prostituta que sobe e desce a montanha dos segredos,


sou o vento de papel sobre a luz ténue da aldeia,


o sino que não se cansa de me acordar...


sou as palavras com lábios de poema,


dos sons e dos cheiros de uma terra que não existe mais...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 24 de Agosto de 2014

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