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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


espero-te como se fosses a noite e me trouxesses as listras encarnadas da solidão


como se fosses a janela dos meus sonhos


e me trouxesses


a fantasia


e a paixão


revestida


negra


a fome


depois de acordar a madrugada


depois de cessar este empobrecido coração


espero-te


espero-te eu porquê?


 


depois...


depois o quê?


que não dormes


e que sonhas comigo?


espero-te na esquina da insónia


e tu não és de carne e osso...


como os humanos que aprendi a distinguir e a amar e a odiar...


às vezes


depois


tenho-te medo


que vagueis em mim como os tristes ângulos dos teus lábios


entre senos e cossenos magoados


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Agosto de 2013



31.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


adormecias-me nas clandestinas janelas com olhos de vidro


e entravas nos meus sonhos


entre telas e palavras semeadas nos braços da paixão...


e assim


vivíamos inventando os segredos das noites coloridas...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 31 de Agosto de 203



30.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


(detesto rosas


porque picam


porque podem ser em papel


e ardem)


 


detesto as madrugadas envenenadas pelos teus beijos vestidos de mendigo


quando poisam sobre o tabuleiro do pequeno-almoço


e na mesa-de-cabeceira espera por ti uma fina e tímida folha


com a débil despedida


abro a janela e começo a voar em direcção ao vazio


percebendo que em ti


e de ti


as palavras são como pedaços de cigarro semeados no cemitério do medo


e há paixão no teu corpo


uma lareira de desejo percorrendo as minhas mãos de areia húmida


como dizem que às gaivotas aparecem durante a noite vómitos de sobejadas paixões


em cansaços de amêndoa


 


(detesto rosas


porque picam


porque podem ser em papel


e ardem)


 


ardem as rosas


e o corpo das rosas


ardem os filhos das rosas


e os filhos do corpo das rosas


ardem os poemas


e as canetas de tinta permanente...


ardem...


como limalha de aço suspensa nos teus lábios


beijar-te sabendo que és um corpo vulnerável


incendiável


um corpo... volátil como a minha voz quando sinto a tua presença


… assim... como o teu... como as sílabas decalcadas nos seios do amanhecer...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013



29.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos vidros da pequena janela


Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,


Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza, e confesso que


Não gosto, e detesto,


Que entre em mim a noite mendiga, travestida, enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que


Não gosto, e detesto,


Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os espelhos me olhem e me ordenem


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos da rua contígua que agora utilizam como cobertores


Cantigas, lérias... olha agora cobertores...


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


Não, não gosto, e detesto,


(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo)


Lembras-te de mim, miúda?


Provavelmente já não te lembras do pintor que trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do muro da solidão, eras tão nova, que


Não, não gosto,


Que confesso,


Que


Lembras?


Que foi a última vez que tive na mão o beijo da cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei


Ainda gostas de mim?


Gostar, o que é gostar?


Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou


Cantigas, lérias... olha agora cobertores...


Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,


Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,


Olha lá pá...


… ou


É triste


É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...


Ou...


Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves prestações... e sem juros.


 


 


(Não revisto . Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013



29.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


tento perceber as equações do teu empobrecido coração


geometricamente


não consigo determinar a posição do teu corpo no espaço tridimensional...


e tudo parece tão simples


normal


imagino a integral dos teus seios pintados de encarnado


e reflectidos no prisma que se esconde na teoria das cores


dos cheiros


e sabores


imagino a equação diferencial das tuas alegres coxas


quando se despedem da tarde as gaivotas triangulares


 


imagino o silêncio vestido de negro


caminhando sobre o arame da solidão


lá em baixo o público enfurecido olha-te como se fosses um cartaz perdido no vento


balançando


dormindo


chorando


e imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


os círculos trigonométricos do teu púbis amargurado


cansado de mim


talvez... apaixonado por mim


talvez


porque tridimensionalmente... não consigo determinar-te no espaço só e vazio


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013


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