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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.10.11

Se cansam de mim


As palavras da tua voz


As mãos do meu olhar


Na busca de uma rima


 


Se cansam de mim


Os lábios


E a tua boca


E na terra se entranha a minha sombra


 


Se cansam de mim


Os desejos do teu corpo


Nos silêncios da noite


 


Se cansam de mim


Todas as pessoas


As árvores


E as nuvens…


 


Se cansam de mim


Os espelhos quando caminho na rua


E os sorrisos da lua


Poisam sobre o mar.


19.10.11

Não consigo viver com este paspalho deitado na minha cama,


- Imagino-a abraçada nos silêncios da noite quando depois do banho em água fria ela corre apressadamente, não para os meus braços, corre apressadamente para os lençóis mergulhados no escuro,


Não consigo ouvir-lhe a respiração não consigo que ele me toque e acaricie e sinto-me como um cravo que se encolhe depois da tempestade,


- Toco-lhe levemente e ela em lamentos E que me dói a cabeça E que está cansada E que hoje tem sono,


E não consigo viver com este paspalho deitado na minha cama, irrita-me o sorriso dele, irrita-me antes de adormecer a luz acesa e ele perdido nas páginas de um livro, Livros que porcaria…, Mas ao menos enquanto lê evito que me toque, irrita-me que me toque e que me acaricie,


- Um poema acorda nos seios e desce lentamente ao som dos olhares que na janela dormem, as pombas do meu quintal na janela em Luanda, o poema entranha-se nas coxas da noite e um gemido transpira sobre o candeeiro que balança na mesinha-de-cabeceira, a cama em sussurros poéticos que se misturam com as asas de borboletas com pintinhas vermelhas, o poema caminha e desliza entre as gotinhas de odor que na pele cintilante do céu procuram rimas para a conclusão do poema, e uma mão travestida de poema à procura do púbis da lua,


Credo que nervos me dá este paspalho abraçado aos plátanos do jardim, senta-se num banco e olha para o infinito, ausenta-se da maré como um barco quando caminha sobre a relva da madrugada, eu chamo-o e ele longe de mim do outro lado da rua a brincar com um triciclo e um papagaio de papel,


- E a noite começa a torcer-se como quando o vento vacila os arbustos e estes escondem-se nas velas dos veleiros estacionados no pátio fronteiro ao palácio, o capitão grita que são horas de zarpar, e a mão que finge ser poema começa a erguer-se nas sílabas sumarentas que se libertam do púbis da noite,


E um dia vou ser feliz e um dia um homem a sério a tocar no meu corpo,


- Levantar velas, oiço a voz do capitão contra a janela de Luanda e afugenta os olhares das pombas que dormem docemente, ela meche-se e vira-me as costas, levanto os olhos do livro e o poema acaba de ser engolido pelo algodão dos lençóis,


Não consigo viver com este paspalho deitado na minha cama, não consinto que me toque não consinto que me beije não consinto,


- A luz acesa que mastiga as páginas do livro,


E um dia um homem a sério que me acaricie e me toque e me beije e me abrace e que antes de adormecer não precise do candeeiro nem tenha livros sobre a mesinha-de-cabeceira, um dia um homem a sério dentro de mim,


Um dia,


Mas este paspalho irrita-me quando sorri e pergunto-me onde tinha a cabeça quando me apaixonei por ele, se algum dia estive apaixonada por ele,


Um dia,


Um homem a sério dentro de mim,


- A janela de Luanda pincelada pelo cacimbo,


Dentro de mim a sério um dia,


Um homem,


Não este paspalho,


- Não as mangueiras onde suspendia um avião com um fio de pesca e ele sem se cansar descrevia círculos invisíveis,


Um dia,


- O avião de brincar cresceu e começou a voar e deixei de o ver e deixei de lhe tocar,


E um dia um homem a sério,


- E voou e voou e voou,


Que não seja miserável como este paspalho que adormece na minha cama e que eu não quero que me toque que me acaricie, a sério um dia um homem,


- E deixei de o ver,


Que eu não sinta vergonha de lhe dar a mão quando na rua passo pelos meus amigos,


Um dia dentro de mim,


- A luz a minguar nos lábios do poema,


Um homem a sério não este paspalho.


 


(texto de ficção)


19.10.11

Há de haver na minha mão


O verbo morrer


Há de haver no meu cansaço


Palavras para escrever…


Vogais de uma canção


Que procuram lábios de abraço,


Há de haver


Um poema em construção,


Na minha mão


Há de haver uma nuvem a correr


Entre os sonhos de sonhar


E a vontade de haver…


Lágrimas de chorar,


Há de haver na minha mão


Um sorriso pregado no espelho de um olhar


Uma janela virada para o mar,


Há de haver uma mulher para amar…


Há de haver noite sem escuridão


E lençóis suspensos no luar,


Há de haver


Uma sílaba pendurada num papagaio de papel


E que se esconde no púbis da madrugada,


Há de haver uma vida para viver


Nas pedras da uma calçada…


Há de haver uma manhã pincelada de mel


Na garganta do amanhecer,


Há de haver


(e se deus quiser)


Um rio dentro de mim a crescer.

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