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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.09.11

Aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio,


O cigarro debruçado no peitoril da janela e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio,


Das silabas de uva acorda a saliva do amanhecer e a manhã em pedacinhos de árvore que balança contra os desejos do sol,


O rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz, o parvo do meu irmão cisma que se subir até à copa de uma oliveira consegue acariciar as estrelas e a minha mãe acredita que a noite é uma mentira e que não existe, o parvo do meu irmão a sorrir,


- Vês consigo tocar as estrelas,


O parvo do meu irmão sentado na despensa do céu à espera que a minha mãe o chame para almoçar,


- Mãe o que é o almoço?


A minha mãe responde-lhe que não sabe,


O parvo do meu irmão sorri dentro da despensa do céu, eu ergo a cabeça e mal consigo ver o parvo do meu irmão, começou a diminuir e parece uma abelha à procura das nuvens,


Uma abelha que saboreia a doçura dos baguinhos de uva quase a adormecerem junto ao rio e a minha mãe que o almoço é caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,


- Agora lembro-me o que é o almoço Caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,


E o parvo do meu irmão começa a descer da oliveira vagarosamente e aos poucos ergue-se do corpo de abelha ainda com os lábios embebidos no açúcar,


E fica crescido e homem,


- Francisco vem almoçar, aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio, a minha mãe responde-lhe que não sabe,


E eu pergunto-me porquê Porquê mãe,


- Francisco vem almoçar,


E quando ela me trata por Francisco sei que tenho o caldo entornado,


Sempre assim,


Desde que nasci,


Francisco para as ocasiões muito especiais,


Francisco quando me porto mal, e vejo o meu triciclo no quintal de Luanda às voltas da perna da mangueira,


- Olá menino,


O parvalhão do meu irmão que brinca na sombra do avô Domingos e sobre o portão de entrada os socalcos começam a descer até ao rio, o caracol da CP despede-se do fim de tarde e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio, e o rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz,


- Olá menino,


Sempre assim,


Desde que nasci,


As palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio…


 


(texto de ficção)


30.09.11

O último poema,


As sílabas


E as vogais,


Hoje cai a noite sobre o meu corpo


E as estrelas devagarinho


Adormecem nos meus olhos,


Uis e ais


E cansaços tais,


O último poema


Antes de eu adormecer,


Cerrar os cortinados


E de olhos fechados


Procurar o comutador


Entre as fendas da parede do meu sonho…


Desço a mão até ao peito


E acaricio o amor,


E sem jeito


Começo a voar,


 


O último poema,


As sílabas


E as vogais,


 


E quando acordar


Um silêncio de néon enrolado


No último poema,


 


E sinto dentro de mim o mar…


 


Que brinca na minha cama.


29.09.11

Desejo que adormeças nos meus braços


E que poises os teus cabelos nos meus lábios


Desejo a madrugada suspensa na minha janela


Desejo a lua que sorri às estrelas


As gaivotas do teu olhar


Desejo a tua mão


No meu rosto


Mergulhado no Luar


 


Desejo viver


E voar


 


Desejo a manhã em silêncios de luz


Desejo correr e saltar


No beijo desejado


Do beijo que me seduz


 


Desejo a tua boca de cereja


No meu corpo cansado…


 


Desejo ser o poema


Na Pétala de uma rosa amarela


Na minha cama


A chama que arde sem se cansar de uma vela…


E que se evapora no altar


Desejo amar


Sobre os rios que descem a montanha


E que correm para o mar


 


Desejo as flores que me acompanham na algibeira


A água fresca da ribeira


Desejo ser amado


E abraçado


 


Desejo que adormeças nos meus braços


E que poises os teus cabelos nos meus lábios


Desejo a madrugada suspensa na minha janela


 


Na pétala de uma rosa amarela!


29.09.11

Oiço a voz cansada do fim de tarde


Nas entranhas dos socalcos mastigados


Oiço o levitar agitado da manhã


Enquanto me sento e levanto


 


E corro entre o xisto magoado


Prendo-me ao monitor do computador


E da janela oiço a voz cansada do João


Do Manuel do Zé do Carlos e das nuvens em solidão…


 


E do António agarrado a uma flor


Sonâmbulo sobre quatro rodas do trator


Oiço oiço o Manuel a gritar…


- Doze e dezoito


 


Impossível penso eu


Deve ser das ondas do mar


Olho o céu


E oiço o Manuel a cantar


 


Enrolado nos braços do Rui


Oiço as pedras sobre o pôr-do-sol


E o Manuel a ateimar


- Doze e dezoito


 


Impossível de dar


Não há uva que resista


A tanto chorar…


 


Cerro a janela


E desligo-me do douro adormecido


Deixo a uva bela


Na cuba a fermentar


E amanhã do meu corpo dorido


Vão crescer sonhos de sonhar…


 


E oiço oiço um cão a ladrar


Na paisagem ente o rio e a montanha


Socalcos mastigados


Na garganta de uma aranha


 


Oiço a voz cansada do fim de tarde


Nas entranhas dos socalcos mastigados


 


E das lâmpadas do céu-da-boca


Acordam os meus lábios apaixonados…


28.09.11

Ontem quando acordei estava dentro de um oleado, abro os olhos e uma finíssima pelicula de nevoeiro poisava nos meus olhos, desenlaço as mãos, e percebo que estava dentro de uma câmara frigorífica,


Ontem morri,


- Causa da morte Saudade escrevia o médico legista no papel suspenso da mão encardida pelas geadas do inverno agreste de Trás-os-Montes e segredava à colega que nunca tinha observado um cadáver em tão mau estado Nunca observei um cadáver em tão mau estado Triste Muito Triste,


Ontem morri antes de acordar a manhã e no preciso momento que me evaporo sonhava com malmequeres que passeavam sobre o mar,


- Nunca observei um cadáver em tão mau estado, Triste, barba do tamanho de ramos de amoreira, cabelo solto devido ao vento que bate na janela virada para a garagem onde dormem os carros funerários, e que se passeavam sobre o mar,


Os malmequeres de mão dada aos silêncios em desejo, gotinhas de água saltitavam no corpo dela, e a colega do médico legista tapava as narinas devido ao cheiro nauseabundo do meu corpo, e ontem morri antes de acordar, e sonhava,


- Hora provável da morte cerca das sete horas e trinta minutos, sexo masculino, um metro e setenta e cinco centímetros e aproximadamente sessenta e sete quilogramas de peso, olhos castanhos, e sem cabelo,


A serra elétrica que entra no meu crânio e um ovo de perdiz a dissolver-se dentro de mim, a serra elétrica a romper-me e aos poucos o médico legista a retirar o pedacinho circular, os miolos aflitos no néon da morgue, e no meu peito a colega do médico legista com uma tesoura de poda a vindimar-me os fios escuros das costelas, e o alcatrão dos meus cigarros embatem no teto,


E caiem sobre a esponja amarelada da minha gordura,


- Olhos castanhos, causa provável da morte Saudade ou Solidão, Desculpe colega não percebi a médica legista que mergulhava as mãos nas minhas vísceras,


E caiem sobre a esponja amarelada malmequeres que passeavam sobre o mar,


- Ou morreu de saudade ou de solidão mas inclino-me mais para a Solidão, e a solidão dói e mata dizia a médica legista para o médico legista,


Porra… murmuravam os meus lábios quando se aproximava o serrote de carpinteiro,


Ontem morri, e por voltas das sete horas e trinta minutos senti a velhinha vestida no negro da noite passear-se no corredor de minha casa, levantei um pouco a cabeça e voltei a poisa-la sobre a almofada embebida na saudade das manhãs quando olhava o mar, e o cangalheiro bateu à porta Dá licença doutor? E o doutor de serra elétrica na mão que sim e pode entrar, e o cangalheiro se faltava muito para terminar Falta muito doutor? E que não, é só fazer as bainhas e coser os cromados,


- E vestir e desfazer a barba e pentear os poucos cabelos que sobraram da serra elétrica respondo-lhe eu,


E enquanto cosiam as mantinhas do meu corpo eu pensava e sentia o frio da pedra mármore nas minhas costas e pensava na gripe quando estivesse debaixo da terra junto à raiz de uma oliveira,


- E sonhava quando morri, Muito Triste,


Ontem morri antes de acordar a manhã e no preciso momento que me evaporo sonhava com malmequeres que passeavam sobre o mar,


E morri que sonhava,


E sonhei que morri,


E ontem nem sonhei nem morri,


Adormeci docemente dentro de um caixão decorado com solidão e saudade, e sonhava quando morri Olhos castanhos, causa provável da morte Saudade ou Solidão, sonhava com malmequeres que passeavam sobre o mar… Muito Triste.


 


(texto de ficção)


28.09.11

O homem do chapéu de palha


Deitado sobre o sorriso da lua,


Desce uma estrela e poisa nas arcadas do vento,


Uma flor tropeça e mergulha


Nas águas silenciosas da noite,


O homem do chapéu de palha


Flutua,


E nos lábios da maré


Extinguem-se as gaivotas em sofrimento…


E evaporam-se nas águas silenciosas da noite,


O homem deixa de ser homem,


E a lua começa a chorar…


 


E a lua cerra os olhos


Dentro do mar,


O homem do chapéu de palha abre as janelas da noite,


E finíssimos fios de luz adormecem no soalho do pôr-do-sol,


 


Morre o homem,


E o chapéu de palha esconde-se no vento…


Duzentos e seis ossos


E meio quilograma de sulfuroso,


 


O homem do chapéu de palha


Deitado sobre o sorriso da lua,


 


Morre o homem,


Morre a lua,


E pinta-se o pôr-do-sol de vermelho


Quando se abraça às rosas do jardim,


 


E sonha a noite!


28.09.11

A noite desce


E eu abraço-me a nada,


Espero a chegada


De uma nuvem amarrotada


Ou de um sorriso encardido…


A noite desce


E eu abraço-me a nada,


E fico esquecido,


Na noite que desce


E adormece,


E eu abraço-me a nada,


A noite desce,


E na lâmpada apagada


A solidão aparece,


A solidão na minha cama deitada…


27.09.11

 


Todos os dias o meu corpo sente


As ranhuras da chuva,


Todos os dias o meu corpo ausente


Na neblina da manhã,


 


O meu corpo sente


E mente,


 


Todos os dias as ranhuras da chuva


Nos cansaços da semente,


Todos os dias o meu corpo sente


As gaivotas quando acordam junto ao mar…


 


O meu corpo sente


E mente,        


                              


E não consegue voar…


 


27.09.11

Traz o vento o beijo invisível aos lábios da princesa, e no castelo adormecido sobre as acácias o meu irmão João enrolado nas manhãs submersas na espuma da solidão,


Caiem pedras sobre o rio,


E a princesa descalça tropeça nas pedras que caiem sobre o rio,


 


- O meu corpo deseja-se e ausenta-se quando me aproximo das árvores do jardim as pequeníssimas silabas que a princesa deixava cair sobre a areia húmida da noite, e um dia sentei-me sobre as sombras que corriam nos carris com destino a Cais de Sodré, e antes de chegar ao fim do meu trajeto olhei o rio, olhei-o como quando se olha um desejo escondido numa ruela adormecida, e ouvi a voz do rio emaranhada em amêndoas com chocolate, o meu pai pegava-me na mão e procurava na algibeira os cigarros que tinha deixado adormecer no domingo passado, eles cansados, acendia-os e eles recusavam-se a caminhar à nossa beira,


 


E baixavam os braços,


 


Quando o castelo começava a acordar e as janelas se abriam para deixar entrar o vento que trazia os beijos invisíveis da princesa e já em pleno corredor brincavam com os sorrisos dos cortinados e se abraçavam à claridade minúscula que se erguia junto ao pavimento,


 


- E baixavam os braços,


 


E se abraçavam à claridade minúscula que todas as noites o soalho guardava na mão misera quando no mar o enforcado debatia-se com a maré e a ausência do vento,


 


- E sem vento não beijos invisíveis,


 


O meu irmão João que brincava nos altíssimos ramos da acácia frente ao mar, e que corria, e que saltava, e que um dia experimentou a lei da gravidade, e sem gravidade desenhou arranhões nos braços e nas pernas,


 


- E baixavam os braços e entravam beijos invisíveis pelas janelas, os cortinados baloiçavam como crianças escondidas nos quintais de Luanda, as mangueiras deitavam-se no chão emagrecido e as andorinhas à procura de vogais e frases e restos de poemas,


 


Numa ruela adormecida, a calçada nos enjoos da manhã depois de uma noite de embriaguez à procura de vogais e frases e restos de poemas, e o meu irmão João de braços cruzados a sentir o mar a entrar-lhe dentro do corpo,


 


- Sai daí João,


 


Não, e não saio,


 


E baixavam os braços na magreza do enforcado, e que não saio berrava o meu irmão, e quero o mar dentro de mim,


 


- O meu corpo deseja-se e ausenta-se quando me aproximo das árvores do jardim as pequeníssimas silabas,


 


E que não saio,


 


Das pequeníssimas silabas o vento que traz os beijos invisíveis da princesa,


 


- E que não saio,


 


E que quero o mar dentro de mim, quando a sombra que corria nos carris chegava a Cais de Sodré saía da estação e escondia-se debaixo da rampa na companhia de homens vestidos de mulher, e de mulheres pensando que eram homens,


 


- E que não saio,


 


E de mulheres pensando que eram homens e que eram mulheres de garganta aberta e nos dentes as vogais as frases e restos de poemas, e cansaços da vida,


 


- E que não saio,


 


Que as andorinhas procuravam junto ao mar.


 


(texto de ficção)


27.09.11

O beijo invisível


Nos lábios de uma flor cansada,


A noite desce


E desaparece,


E volta a aparecer na madrugada,


 


A sedução de milhões de cores


Abraçadas a pétalas desgovernadas,


Desejam-se os amores


Nas flores deitadas,


 


O beijo invisível


Na boca da noite silenciosa,


As estrelas poisadas sobre a mesa-de-cabeceira…


E da janela vem a lua apetitosa


Em sorrisos de feiticeira,


 


Em desejos de freira,


O beijo invisível


Nos lábios de uma flor cansada,


A noite desce


E desaparece,


E nos lábios da minha amada


A água sibilada da ribeira…

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