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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


29.07.11

A princesa menina


Que desce a calçada


Perde-se na rima


E arrima uma pedrada,


 


Parte a cabeça ao menino


E o vidro da janela


Ai menina ai menina sem destino


Ai menina donzela,


 


E veio o vento


E nas sandálias cresceram-lhe girassóis


Nos lábios acorda-se-lhe o encanto,


 


Ai menina da Vila Alice


Que procura nos lençóis


As memórias da meninice.


29.07.11

O erguer-se na manhã, olhar-se no espelho e o medo ao cadáver suspenso nas lágrimas do guarda-fato,


Em corrida para a casa de banho e esconder-se na banheira, prepara o banho para desinfetar a pele das teias de aranha da noite, a água escorre lentamente contra os azulejos, o estômago em roncos de desperdício à espera do pequeno-almoço, e com sorte hoje pequeno-almoço, e falando de sorte recorda-se-lhe a infância quando se escondia no capim encharcado da tarde, olhava o céu e pedia um desejo,


- Quero voar,


E nunca voou, dei com ele esquecido sobre o guarda-fato e embrulhado em pedaços de lençol envelhecido no linho do tempo, anos, anos e anos e que eu saiba os voos dele resumem-se a idas à casa de banho, um líquido escuro subtrai-se-lhe da boca e ancora no silêncio da sanita, puxa o autoclismo e as nuvens entram-lhe pela janela, couves do quintal na porta de entrada, pessegueiros esganiçados na espera e os pássaros nãos os querem comer, as pedras atiradas aos cornos das cabras, e o farrusco que se extingue de osso na boca,


- Duzentos e seis ossos alinhados numa rua de luanda, contava-me ele,


O banho que finge alimentar-se das teias de aranha e estas continuam agarradas ao corpo como se fossem sanguessugas, os dentes calibrados na máquina de costura, a velhinha Singer com um pano de cetim preso na boca, duas voltas circunflexas na eira e o osso desparecia na sombra do farrusco, abria a porta e as couves tombadas na fome da sanzala,


- Olhava o mar e agarrava-me de braços acorrentados no pescoço da minha mãe, e gritava,


E ninguém o ouvia, nem barcos, nem ondas, nem o Mussulo, nem a estátua da Maria da Fonte, os aviões escapuliam-se pelas folhas das mangueiras como gaivotas envenenadas pela solidão dos dias, e a tarde descia no cacimbo dos mabecos,


- Deitava-me no chão fino da terra e amêndoas de chocolate cobriam-me os braços, as formigas vinham em meu socorro, e a saliva prendia-se-me na areia da rua,


A fome engelha-lhe as mãos e os braços e os olhos, as côdeas de pão minguam junto ao rio e os socalcos nas vibrações inconstantes do cheiro a diesel de barcos de recreio e comboios a vapor, a água evapora-se nos seios de vinhedos e quando chega ao púbis da vindima o mosto de girassol entranha-se no xisto embaciado da noite, uma luz acende-se na capela encalhada na montanha, um terço sorri à passagem de uma trovoada, e o esforço do ano árduo de trabalho dilatado nas cómodas apodrecidas do capitão marinheiro sem barco, deitado na banheira na esperança que do musseque venha até ele um papagaio de papel,


- Nem um cacho para amostra,


Durante a noite corre lentamente o lençol das horas, ergue a cabeça no sentido da janela, e repentinamente e em corridas cansadas faz-se à pista, desliza sobre o guarda-fato e pensando que a janela está aberta estatela-se contra os vidros espessos de garrafa que apodrece no vidão, o vinho derrama-se sobre a cama e no soalho espreita uma lagartixa ensonada, o crocodilo em madeira que trouxe de angola em guarda no hall de entrada, e o mar começa a distinguir-se no prato de sopa abandonado na mesinha-de-cabeceira, e ao longe um petroleiro acena-lhe e diz-lhe,


- Chegamos a lisboa,


A ponte amarra-se no candeeiro que saltita de rua em rua, o machimbombo desgovernado sobe as escadas até ao sótão onde deitado se distingue o musseque em coberturas de zinco, e o sol come-os em fatias de pão e alicerces de mandioca, os charcos de água incham e o petroleiro camuflado nas árvores do jardim engasga-se nos pêssegos e no machimbombo; vem a noite e acendem-se as luzes da fome.


29.07.11

Em sua mão de seda escarlate


Poisa a gaivota atrevida


Mistura-se o céu com chocolate


E esconde-se o mar com vida,


 


Brincam peixes na calçada


Descem a rua sem sentido


Corre a nuvem na alvorada


Até ao rio esquecido,


 


É triste ser mendigo


E vaguear junto às arvores esfomeadas,


É triste não ter porto de abrigo


 


Um cais para atracar,


Em suas mãos cansadas


Nascem pétalas que olham o mar.


29.07.11

Este é o último poema da minha vida


As finíssimas palavras em espera


Sobre a copa das árvores


Odeio-te diz-me o poema


E eu fico feliz ao perceber


Que o poema deixará de me pertencer,


 


As palavras morrem dentro de mim


Como as gaivotas quando as nuvens emergem na água


E um soslaio de energia mecânica adormece


Os êmbolos da tarde,


 


O papel emagrece e em sombras


Absorve as palavras que me odeiam…


 


Não sei se hoje é o meu último dia de vida


Mas tenho a certeza que este é o meu último poema,


Todos os outros são meus e pertencem-me…


Mas este deixará de ter vida


De ser meu


Este poema é um fantasma


O esqueleto que dentro de mim habita


E desfalece na claridade da manhã,


 


A janela da biblioteca encosta-se nos livros doentes


E cansados da minha presença…


E um finíssimos sorriso de pássaros


Plantam-se no meu quintal,


 


O poema funde-se no cansaço dos dias


E renasce na alvorada em cinzas


O meu corpo e o poema beijam-se…


E da janela olho um barco cansado que se afunda,


 


O mar engole-o


E mais tarde quando vem a noite


Eu e o poema à procura de abrigo


No fundo do mar…


29.07.11

O chefe da estação


Bêbado da alvorada


De bandeira na mão


Cambaleando na calçada,


 


Os carris entram-lhe nos olhos minguados


E do rio as algas suspensas nos braços


O pinhão em socalcos encalhados


Dos vinhedos em cansaços,


 


O chefe da estação


No desespero de comboios engasgados


E o pôr-do-sol deita-se-lhe na mão,


 


O rio engole o chefe da estação


Em silêncios de dias amargurados


No silêncio do verão…


28.07.11

Há qualquer coisa de estranho,


E que se entranha no meu corpo como as ervas do terreiro, o mar deixou de ter ondas e o vento cansou-se de soprar, as árvores adormeceram eternamente nas sombras da noite, e os pássaros suicidam-se contra os postes de iluminação, há qualquer coisa de estranho que me puxa para dentro da terra, e o buraco negro da vida engole a minha massa e a luz torna-se opaca, e os meus olhos emagrecem nas pedras calibradas das ruas de mãos entrelaçadas na poeira da lua, há qualquer coisa de estranho quando incendeio o quarto de eletrões, quando abro a janela e em vez de olhar o mar vejo uma parede invisível que me tapa a paisagem, o teto começa a descer e eu começo a encolher e as paredes começam a vibrar e em frestas desfazem-se em migalhas de pão,


- Há qualquer coisa de estranho quando os pedacinhos do almoço se interrogam no talher e as mãos começam a inchar, levantam-se da mesa guardanapos com gripe e a água em escuridões de azoto evapora-se do copo amargurado, o peito em saliva dilata-se nas nuvens antes da chuva miudinha, pieguices modernas, loucuras de hoje, o almoço amarrotado nos intestinos como se fosse o xisto da vinha, e os cachos de uvas agridem-se em bofetadas de mel, o doutor levanta os olhos, olha-o e diz-lhe que ele só pode estar louco,


Sinto muito mas o senhor está maluco, o homem discute e argumenta que não, e o doutor continua a explicar-lhe O senhor precisa de ser internado!, e o homem pergunta-lhe Porquê?,


- O senhor não distingue a realidade do sonho!, o homem enfurece-se e pergunta-lhe que se explique O senhor doutor explique-me lá isso muito bem!, O seu problema é que não distingue a realidade do sonho, isto é, ao sonho chama realidade e à realidade sonho,


Não percebi responde-lhe o homem,


- O senhor vive dentro de um sonho, Percebe?, e eu, finjo que sim, Percebi!, O senhor construiu um sonho onde está sem trabalho e sem dinheiro Entende-me?, Espere aí doutor, espere aí, Quer dizer que não estou desempregado e sem dinheiro?, Claro que não homem é tudo um sonho…


Desculpe-me doutor mas não percebi, eu sei que sou um pouco estúpido mas é-me difícil perceber o que o doutor está para aí a escrevinhar na ardósia, Não se preocupe, uns dias em isolamento na enfermaria e tudo volta ao normal!, Normal? Que normal?, ao normal explica-lhe o doutor dos malucos,


- Volta ao seu emprego, E qual era?, O senhor é administrador de uma empresa do burgo, Ai sou!, É, e ganha muito bem, Ganho?, claro que sim responde-lhe o doutor,


Há qualquer coisa de estranho quando releio este texto encostado aos umbrais do silêncio, o doutor dos malucos sentado à minha beira a fabricar papagaios de papel e eu entretido nas fotografias a olhar o mar de luanda, os cordéis enrodilham-se nos tornozelos da secretária e uma nuvem sorri da fotografia,  batem à porta,


- O senhor administrador e o senhor doutor dos malucos ao refeitório se fazem favor, em voz grossa o enfermeiro,


E o estranho é que chovia em agosto, e era noite, e o jantar meia dúzia de pilulas a dividir por dois…


28.07.11

O desespero do esqueleto


Suspenso nas margaridas e nos malmequeres e nas tílias da vida,


 


A noite bate à porta secreta dos óculos poisados na mesa-de-cabeceira, o esqueleto pendurado no guarda-fato disponível para se transformar em pedacinhos de poeira, e o néon de esperma derretido sobre as nuvens, cânforas manhãs de espuma sobre a toalha de plástico que adormece na cozinha, abre-se a porta, e um amontoado de palavras que fugiram do texto, pousam-se nas lentes, e pensam, entramos, não entramos, decidem entrar e esconderem-se nos meus olhos, e os meus olhos cegam-se na luz infinita dos eletrões encaixotados nas finíssimas vogais das palavras,


 


Fecho a porta secreta dos óculos, chamo pelo macio pano de seda e humedecido nas lágrimas das silabas acaricio-lhes o vidro das janelas, poiso-os novamente sobre a mesa-de-cabeceira e adormecem, é meia-noite e todos em casa dormem; O desespero do esqueleto suspenso nas margaridas e nos malmequeres e nas tílias da vida, e a vida extingue-se no fumo dos cigarros.

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