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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.05.11

Todas as terras têm uma rua ou avenida vinte e cinco de Abril, e todas elas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, e todas elas, e todas elas no fim de tarde à espera do silêncio que desce devagarinho pelas árvores do jardim, os pássaros ficam assustados, de um prédio com janela para a rua uma menina experimenta a lei da gravidade, tropeça no vento, cai, morre, os barcos assustam-se, os barcos cruzam os braços, os barcos,


 


- tão novinha,


 


Até parece que para morrer é preciso ter idade, proibido bebidas alcoólicas a menores de dezasseis anos, fumar mata, e tão novinha, e tão doce menina em queda livre por desgostos de amor, e o amor agradece, na morte sempre uma culpa, os barcos encalham sempre na areia, e tão novinha,


 


- o cortinado ainda tentou segurá-la mas em vão, escorregou-lhe a mão, e não conseguiu inverter os nove virgula oito metros por segundo quadrado,


 


E tão novinha, e maldito Newton deitado debaixo da macieira, e pumba, leva com uma maçã na pinha, e hoje para subir ao quarto andar preciso de escadas, o maldito ascensor com o nariz entupido nos dias em que chove,


 


- e se não fosse o Newton eu levitava, e quando pertinho da janela, a janela abria-se, e ela escondida no quarto a espetar pregos nas oliveiras, na banheira, na banheira Arquimedes a lavar os testículos, e enquanto pega neles, quando pega neles o princípio da impulsão, os barcos caminham no mar…


 


E todas as ruas com vista para o mar onde dormem barcos, onde brincam peixes, onde se abraçam árvores depois do jantar, e todas as ruas têm medo de morrer,


 


- tão novinha.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


14 de Maio de 2011


Alijó


14.05.11

Três cordéis prendem-me a este país (Portugal)


E eu um papagaio de papel


Com muitas cores


À deriva nos céus


 


Levado pela tempestade


Fugindo das nuvens


Eu um papagaio de papel


Suspenso em três cordéis


 


Caminhando por montanhas e socalcos


Encalhado entre o Douro e o Tejo


Estacionado em Belém


À espera de embarque


 


E quando passa o navio?


 


Não navios a passear


Não petroleiros com tosse


Nada que corte os três cordéis


Para eu começar a voar


 


E quando acordar…


Quando acordar poisar a minha mão


Na baía de Luanda


E abrir os olhos para o mar…


 


 


Luís Fontinha


14 de Maio de 2011


Alijó


14.05.11

Peço aos teus lábios a tranquilidade do amanhecer


Quando nas mangueiras do meu quintal


Os pássaros suspensos no teu olhar,


E dos teus lábios


 


Recebo um beijo.


 


Os pássaros suspensos no teu olhar


E dos teus lábios,


 


Dos teus lábios emergem nuvens


Construídas de algodão,


Nuvens com sorrisos de silêncio


Nuvens que se enrolam nos meus braços


 


Nas tardes de solidão.


 


 


Luís Fontinha


14 de Maio de 2011


Alijó


13.05.11

A solidão dói


Mas não sei se a pior dor


É estar só


Ou acordar


 


E não ter ninguém que me diga;


 


- bom dia pai.


 


Pior que a solidão


É não ter um filho


Para abraçar…


 


 


Luís Fontinha


13 de Maio de 2011


Alijó


13.05.11

Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar,


- queres colinho ai queres queres,


A tarde evapora-se na liquidez das coxas dela quando na sombra e em brincadeiras no colinho dele, a tarde, a tarde pendurada na janela com vista para o mar, e nas profundezas dos campos de trigo ele em busca do prazer, perde-se nas horas e na secretária poisa uma gaivota embrulhada no desejo, o Cesário morto ou vivo,


- queres colinho ai queres queres, dá-me a tua mão, a minha mão, sim a tua mão, para quê, não tenhas medo e dá-me a tua mão, poisa-a no meu rosto, dás-me um presente, sim dou, está bem pega lá a minha mão,


E das coxas a tarde transpira, finge esconder-se nos sobressaltos dos minutos quando ele em cima dela, não o Cesário em cima da gaja, quando ele em cima dela balança no silêncio das espigas de trigo, está vento, e o sol consome-lhes a pele cálida depois de uma queca apressada e nem tempo teve de tirar as calças, as calças penduradas nos tornozelos, e nos sapatos o cansaço das viagens,


- queres colinho ai queres queres,


Cesário morto ou vivo encontrado no meio do trigo envenenado com água e açúcar, os segundos pendurados no silêncio do número treze, sexta-feira, e a gaivota sobre a secretária sorri para o Cesário, uma gaivota embrulhada no desejo, o desejo quando nas coxas a mão adormece e a água com açúcar abraça-se às plantas de trigo.


- Queres colinho ai queres queres…


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


13 de Maio de 2011


Alijó

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