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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


30.04.11

Cresce-me no peito um peso imensurável


Trazido pelo fim de tarde


Cresce-me no peito o cansaço da solidão


Num campo de malmequeres


 


Corre um rio na minha mão


Que desagua no meu peito


Apertado pela dor


Espremido pela chuva


 


E corre apressadamente no relógio de parede


O peso do meu peito


O sufoco do dia que nunca mais termina


Sem fim…


 


Sem cor os meus dias pintados numa parede


E a parede esconde-se da luz


Fica negra


E geme no silêncio da noite escura.


 


 


Luís Fontinha


30 de Abril de 2011


Alijó


30.04.11

Dentro de mim crescem poemas


Como os silvados da montanha


Rio que corre apressadamente


Entre os socalcos de xisto


 


Na humidade da madrugada.


Os poemas em mim


Saltitando de fresta em fresta


Ou adormecidos no espelho do guarda-fatos


 


À espera que a minha mão


Lhes dêem vida


Nos meus cansados braços


Quando me sento no parapeito da janela


 


E sem forças para me lançar


Voar.


Dentro de mim crescem poemas


Como os silvados da montanha


 


Ou as gaivotas à beira mar


Com a cabeça enterrada na areia


De asas estendidas ao vento


Esperando a chegada da maré.


 


 


Luís Fontinha


30 de Abril de 2011


Alijó


30.04.11

Chove, estou feliz, hoje, quando chove, sei que vens. E hoje chove, e não me apetece abrir-te a porta, detesto quando chove, não posso brincar no jardim, e eu sei que vens, só vens quando chove…, existe um mundo totalmente novo lá fora, e as partículas de deus existem mesmo, acreditas, eu acredito, e sabes, querida, até acredito que só vens quando chove; hoje chove.


E se tudo isto, o mundo, sim, o mundo, foi uma experiência falhada dos cientistas, e tal como hoje, ao quererem recriar o big bang, a experiência telha falhado e ficado fora de controlo, e cá estamos nós, tu és mesmo louco.


Aos poucos, às vezes, devagar, outras, apressadamente, corto as correntes que me prendem ao teu passado, começo a correr, não olho na tua direcção, e escondo-me quando passo por ti, e agora, que começo a ser livre, posso voar livremente sem as tuas amarras, sei que ao fundo da esquina, entre a saudade e o sonho, a tua sombra segue-me, mas eu finto-a, sou mais rápido, e ela, não consegue apanhar-me.


Chove, e enquanto espero por ti, caminho na rua, converso com as gotinhas de água que caem das nuvens, são tão feiinhas, tão tristes, as nuvens, tudo, e uma gotinha disse-me que amanhã não vai chover, tu não virás, eu não vou para a rua conversar com as finíssimas gotinhas de água, sabes quantos quilómetros faz um gotinha de água até chegar a ti, e repentinamente conversar contigo, ouvir-te, saber escutar o que dizes, e as partículas de deus, que tem, o que são, são as partículas de deus, um mundo fascinante por descobrir, como é possível dois protões colidirem à velocidade da luz, é, será a luz o limite, da velocidade queres tu dizer, sim, da velocidade, e se é possível viajar a velocidades superiores à da luz, cerca de trezentos mil quilómetros por segundo, é tanto…, em teoria não é possível, e a massa seria infinita, e a energia, que teem, a energia libertada seria muito grande, imagina um objecto a trezentos mil quilómetros por segundo, e como a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado, já deves imaginar, como o outro, é só fazer as contas.


Já ouço os teus passos na calçada, despeço-me da gotinha de água com quem estou a conversar, gostei muito deste bocadinho, aparece, quando quiseres, e agora sei que vens de verdade, porque ouves os meus passos, não, porque vejo o teu olhar, o que é a teoria da relatividade, “ quando tens um ferro em brasa na mão, um segundo vai parecer-te uma eternidade, e quando estás ao lado do homem que amas (eu), uma eternidade vai parecer-te um segundo”, tiveste saudades minhas, sim, muitas, como sempre, mas agora venho para ficar.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


Alijó


30.04.11

Atormentado pela insónia da noite, o Mantinhas, saltitava no sorriso de uma linda bela Princesa, e de olhar em olhar, voava em redor do seu castelo, onde se encontrava aprisionada, e só o Mantinhas a fazia feliz. Na alvorada uma gaivota poisava no parapeito do sonho, que todas as noites, invadia o quarto e a linda bela Princesa fixava o olhar num ponto de luz invadido pela saudade, momentaneamente, feliz.


 


Passava horas acordado, passava horas olhando o infinito, e ao longe, quando o amanhecer parecia acordar, respirava fundo, deitava a cabecinha nos braços da linda bela Princesa e adormecia; viajava em direcção às arcadas do paço, escondia-se entre o amontoado de silêncios que por aquela altura deambulavam ao sabor da noite, esquecia-se das horas, dos dias, esquecia-se da madrugada, esquecia-se que seu nome era simplesmente, Mantinhas, e que amanhã novo dia acordará.


 


E quando o sol acordava, lá estava ele nos braços da linda bela Princesa, e em silêncio pintava na tela do seu pensamento o sorriso mais belo, mais lindo do reino, da ilha construída na imaginação do sonho, a minha ilha, só minha, perdida no mar, à espera desse olhar que só ele podia ouvir nas noites de insónia…, quando o meu sonho, só meu, juntamente como os poemas de Pablo Neruda entravam pela claridade do desejo, seguiam na direcção dos teus braços, tu, olhavas para eles como se fossem rosas amarelas acabadas de acordar, e eu, maravilhava-me com o Mantinhas pendurado no teu sorriso, e brincava com o se fosse uma criança, menino de rua.


 


De vez em quando uma nuvem cobria o castelo de sorrisos e de beijos imaginados de véspera, quando ainda o dia não tinha terminado, quando ainda na minha ilha, eu, caminhava à procura de uma tempestade de vento deixada na palma da mão, a minha mão, cremada pela ausência ausente de mim, longe ou perto, nas velas de um veleiro em construção; e eu aproximava-me do veleiro atracado dentro de mim, e ele, fugia, e rebocado pelo vento, acabou por encalhar junto aos alicerces do castelo, foi quando vi o Mantinhas sorrindo à janela, e a seu lado, a linda bela linda Princesa.


 


O Mantinhas é um gatinho, é muito feliz; tem insónias, também as tenho, mas ele, tem o olhar da linda bela Princesa…, e eu, não tenho nada.


 


 


 


(texto ficção)


Luís Fontinha


Alijó


30.04.11

A minha vida sem cor


Sonhos a preto e branco


Pregados nos meus braços


Escorrem até às mãos


 


E alicerçam-se nos meus lábios.


No cantinho da boca sílabas desordenadas


Que mal consigo prenunciar


Escrever… numa simples folha de papel amarrotado


 


Como se a minha vida tivesse ficado suspensa


No dia de ontem


Na tarde de hoje…


A minha vida sem cor.


 


A minha vida uma perfeita merda


Numa manhã de inverno


Chuvosa


E nem o mar me quer dar a mão


 


Nem a maré levar-me para longe


- Quero ir para um campo de trigo


E deitar-me no chão lavrado…


E olhar as espigas em crescimento…


 


A minha vida sem cor


Sonhos a preto e branco


Sonhos cansados e que se desfazem


Com a passagem das horas


 


Ardem como cigarros na minha mão


E o fumo da minha vida voa no silêncio


Despede-se do inverno


Quando o meu corpo rejeita caminhar


 


Nas ruas da cidade


Eu farto dos candeeiros da rua


Eu farto da cidade que me ignora


E quando eu morrer por mim irá chorar…


 


- GRANDES FILHOS DA PUTA!


 


 


Luís Fontinha


30 de Abril de 2011


Alijó


30.04.11

Escondo-me na solidão


De vales e montanhas


E junto ao rio


Sento-me no xisto abandonado


 


Poiso a mão sobre a água


E faço desenhos


Pinto os teus lábios


Com sabor a amêndoa


 


Escondo-me na solidão


De vales e montanhas


O meu corpo emagrece


Fica minúsculo


 


E na penumbra


Desaparece


Construo relógios nos teus olhos


E nunca consigo saber as horas


 


Perco-me nos minutos passados


E no rio atiro a minha sombra


Finjo-me morto


Afogado.


 


 


Luís Fontinha


30 de Abril de 2011


Alijó


29.04.11

Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, hoje não jantar, três ovos e uma alface, um copo de água e de sobremesa um poema de Cesariny, podia ser pior, ele triste e melancólico à janela a ver passear o mar entre os candeeiros da rua, e do jantar fica a saudade do Mário, o eterno louco, o apaixonado Mário Cesariny.


- Porque poisam as gaivotas na minha mão…


Porque poisam as gaivotas na minha mão se eu sem mão, eu apenas entalado entre três ovos e uma alface, coisa pouca, coisa nenhuma, um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros…, três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário pregado na parede ao lado de um crucifixo esquecido pela poeira da maré, quando sobre a janela poisa uma gaivota com cio, e a gaivota em gemidos abafados pela noite,


- porque poisam as gaivotas na minha mão.


Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, o relógio hoje encalhado nas oito horas, nem ata nem desata, tipo cordões de sapatos quando enrolados em beijos suspensos nos lábios, e os sapatos em corrida apressada rumo ao areal, o areal longe, o mar aqui, debaixo da minha janela, debaixo das gaivotas, à espera,


- porque poisam as gaivotas na minha mão,


E eu sem mão, ontem comi a minha mão, e ele e ela, ele sem jantar entalado entre três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário coitado, feliz, deitado, adormecido junto ao mar…


- Porque poisam as gaivotas na minha mão…


Um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros, e o mar à minha espera para me engolir durante a noite e eu à espera do mar para me encontrar com o Mário Cesariny.


 


 


(texto ficção)


Luís Fontinha


29 de Abril de 2011


Alijó


29.04.11

Nas sílabas a minha boca suspensa


Na escuridão da tarde


E as palavras em pergaminhos


Das palavras onde vogais teimosas


 


Poisam nos meus olhos


Vagueiam dentro do meu peito


À procura dos livros da noite


Que se passeiam nas ruas da cidade


 


Oiço a tua voz sonâmbula


Na esquina junto ao rio


No sorriso de uma gaivota


Que dorme debaixo de um cartão


 


Pede esmola


E ninguém ninguém olha para ela


Nos passos apressados dos transeuntes


Que regressam do trabalho


 


Está escuro e vai chover


E a gaivota desordenada


Nas palavras que se escondem nas vogais


E brincam nas sílabas


 


Nas sílabas a minha boca suspensa


Na escuridão da tarde


Sei que tenho uma cabeça sobre os ombros


Mas sinto-a tão distante


 


Tão longe de mim


Tinha asas e as minhas asas voaram


No sorriso do vento


Foram com a tempestade


 


E agora também eu peço esmola


De mão dada com a gaivota


Também eu durmo debaixo de um cartão…


E ninguém ninguém olha para nós.


 


 


Luís Fontinha


29 de Abril de 2011


Alijó


29.04.11

Os teus seios suspensos na montanha


Quando olham a ribeira


Entre o xisto pregado ao amanhecer


Em sorrisos feiticeira


 


E dos segundos emerge a manhã


Que se apoderam do teu corpo adormecido


Das tuas mãos o desejo de princesa


Nas tuas mãos o silêncio prometido


 


Os teus seios suspensos na montanha


Que os meus olhos acariciam alegremente


Correm as gaivotas junto ao mar


E junto ao mar dormem como gente…


 


 


Luís Fontinha


29 de Abril de 2011


Alijó


28.04.11

Que flor tão bela


Poisada na tarde em despedida


Na mão dela


Nua e despida


 


As horas ensonadas


No relógio embrulhado na escuridão


Rosas encarnadas


Rosas na tua mão.


 


 


Luís Fontinha


28 de Abril de 2011


Alijó

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